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Mostrando postagens com o rótulo Política

Escola sem Partido ou doutrinação?

O debate sobre educação costuma partir de uma preocupação legítima: como impedir que a escola seja utilizada para transmitir aos alunos as convicções pessoais de seus professores? Uma resposta possível é exigir que a escola seja neutra e impeça a defesa de determinadas posições em sala de aula. Outra é sustentar que os estudantes precisam conhecer diferentes perspectivas e que restringir a manifestação dessas posições também prejudica sua formação. O problema é que nenhuma dessas respostas, isoladamente, resolve a questão. Algumas aulas realmente podem transmitir convicções sem explicitar as razões que as sustentam. Quando uma posição é apresentada como algo que deve ser aceito, sem que seus fundamentos, evidências e limitações sejam examinados, a autoridade do professor pode substituir o julgamento do aluno. O estudante aprende o que pensar sem aprender a avaliar por que deveria pensar daquela maneira. A solução, porém, não consiste em proibir determinadas ideias ou exigir uma neutral...

O que é ser de extrema esquerda ou extrema direita?

Esquerda e direita são geralmente distinguidas pelas posições que defendem sobre economia, Estado, costumes e organização social. Mas talvez seja possível compreendê-las de maneira mais profunda a partir dos valores que conferem unidade a essas posições. Jonathan Haidt nos oferece uma pista importante. Sua teoria dos fundamentos morais mostra que a esquerda tende a atribuir um peso particularmente elevado ao cuidado. Embora sua classificação não esgote os valores envolvidos nas diferentes orientações políticas, ela sugere que o cuidado ocupa uma posição especialmente importante na moralidade da esquerda. Se aceitarmos essa pista e partirmos da oposição entre esquerda e direita, podemos procurar o valor que ocupa uma posição correspondente no polo oposto. Na minha interpretação, esse valor é a responsabilidade. O cuidado estabelece que o sofrimento e a vulnerabilidade de uma pessoa constituem razões para que outras pessoas intervenham em seu benefício. A responsabilidade, por outro lado...

Redes sociais não são o problema

O problema das redes sociais não está necessariamente naquilo que elas permitem, mas naquilo que esperamos que elas sejam. À medida que passaram a ocupar um lugar central na circulação de informações e na formação de crenças, começamos a exigir delas funções que pertencem a outras instituições. Queremos que eduquem, filtrem ideias ruins e favoreçam o conhecimento de qualidade. Mas circulação de ideias e formação do julgamento são atividades diferentes. Redes sociais são espaços abertos de expressão, interação e confronto de ideias. Nelas, diferentes pessoas podem apresentar suas opiniões, contestar as opiniões de outras e entrar em contato com perspectivas que não encontrariam em seu círculo imediato. Por isso, ideias boas e ruins, informações verdadeiras e falsas, argumentos sofisticados e opiniões superficiais circulam lado a lado. Essa heterogeneidade não é uma anomalia que precisa ser eliminada. É uma consequência da abertura desses espaços. A educação possui outra função. Educar n...

Como tornar a democracia mais democrática?

A democracia representativa resolveu um problema importante: como permitir que milhões de pessoas participem do governo sem que precisem decidir pessoalmente sobre cada questão política. Elegemos representantes para tomar decisões em nosso nome. Mas essa solução cria outro problema: a distância entre aquilo que os cidadãos desejam e aquilo que o Estado efetivamente decide. Escolher os governantes é uma forma importante de participação política, mas não é a única questão relevante. Entre uma eleição e outra, representantes e instituições tomam inúmeras decisões que podem ser profundamente contrárias àquilo que a maioria dos cidadãos considera desejável. Quanto maior essa distância, maior pode ser a percepção de que determinadas regras não pertencem realmente àqueles que precisam obedecê-las. Isso ajuda a compreender um fenômeno como o jeitinho brasileiro. Nem todo jeitinho é uma forma de resistência: muitas vezes ele é simplesmente oportunismo ou uma tentativa de obter uma vantagem pess...

Por que as ciências sociais precisam da Psicologia?

A Psicologia está engatinhando, e isso não ocorre porque seja uma ciência recente, mas porque ainda não possui uma compreensão suficientemente sólida da natureza humana. E enquanto a Psicologia estiver engatinhando, as ciências sociais estarão rastejando. Uma ciência do comportamento precisa explicar por que os organismos que estuda possuem determinadas características. No caso humano, isso exige considerar que nossa mente é produto de um processo evolutivo. Nossos mecanismos psicológicos não surgiram ao acaso: foram moldados por pressões que favoreceram determinadas formas de percepção, motivação, emoção e comportamento. Uma explicação psicológica que ignora essa história pode descrever o funcionamento de um mecanismo sem explicar adequadamente por que uma mente humana possui esse mecanismo. Esse problema aparece quando teorias psicológicas são construídas a partir de hipóteses complexas sobre o funcionamento da mente sem que se examine se esses mecanismos são compatíveis com aquilo q...

Como conciliar posições políticas divergentes?

A conciliação entre posições políticas divergentes pode começar pela distinção entre os fins que desejamos alcançar e os meios que consideramos adequados para alcançá-los. Muitas divergências políticas surgem porque discutimos diretamente políticas específicas, sem antes perguntar se existe algum objetivo mais geral que possa ser compartilhado. Uma distinção proposta por Jason Brennan ajuda a esclarecer esse problema. Podemos distinguir entre preferências por resultados e preferências por políticas. Uma pessoa pode desejar, por exemplo, maior crescimento econômico, menor criminalidade ou maior igualdade. Outra pessoa pode desejar exatamente os mesmos resultados e, ainda assim, defender políticas completamente diferentes para alcançá-los. O desacordo, nesse caso, não está necessariamente no fim desejado, mas naquilo que cada uma acredita serem os meios mais eficazes para produzi-lo. Isso permite buscar um ponto de convergência antes de discutir políticas concretas. Uma possibilidade, se...

O poder corrompe?

“Conhecimento é poder.” A frase é frequentemente atribuída a Francis Bacon e expressa uma ideia bastante plausível: conhecer alguma coisa aumenta nossa capacidade de prever o que acontecerá e, em alguma medida, de produzir os acontecimentos que desejamos. Quem conhece as propriedades de determinados materiais pode construir; quem conhece uma doença pode tratá-la; quem compreende o comportamento de outras pessoas pode influenciá-las. O conhecimento, portanto, amplia nossa capacidade de agir sobre a realidade. Mas há uma consequência curiosa se combinarmos essa ideia com outra máxima bastante conhecida: “o poder corrompe.” Se conhecimento é poder e o poder corrompe, deveríamos esperar que pessoas que adquirem muito conhecimento se tornassem moralmente piores. No entanto, não é isso que observamos. Muitos filósofos, cientistas e outros intelectuais possuem enorme poder epistêmico sem que isso os torne, por essa razão, pessoas moralmente corrompidas. Isso sugere que há algo errado com a id...

Por que nem todo povo tem o governo que merece?

É comum ouvirmos que cada povo tem o governo que merece. A ideia parece razoável: se um governo é escolhido pelo povo, seus cidadãos seriam responsáveis pelo governo que possuem. Mas essa conclusão depende de uma condição que nem sempre existe: o poder efetivo de escolher ou modificar o governo. Viver sob determinado regime não significa necessariamente tê-lo escolhido. Uma pessoa pode nascer sob uma ordem política que já existia antes de seu nascimento e passar toda a vida submetida a instituições que não ajudou a criar. Mesmo quando possui algum poder político, sua capacidade de alterar o regime pode ser extremamente limitada. Isso é especialmente evidente em regimes autoritários, nos quais o Estado controla os principais instrumentos de poder e restringe severamente a capacidade dos indivíduos de se organizar, protestar ou substituí-lo. Quando o Estado monopoliza a força, essa assimetria se torna ainda mais evidente. O cidadão pode discordar do governo, mas discordar não significa t...

Por que ficamos alegres quando nosso time vence?

Por que ficamos tão alegres quando nosso time vence, se a vitória não produz nenhum benefício material direto para nós? Nosso time ganha o jogo, mas não recebemos dinheiro, comida ou qualquer outro recurso. Ainda assim, podemos comemorar a vitória como se algo importante tivesse acontecido conosco. Uma possível explicação está na nossa história evolutiva. Durante grande parte da nossa história, vivemos em grupos cuja sobrevivência e prosperidade estavam ligadas às nossas próprias. Um grupo capaz de se defender de outros grupos, proteger seu território e conquistar recursos oferecia vantagens aos seus membros. Por isso, fazia sentido que nosso cérebro tratasse o sucesso do grupo como algo que também dizia respeito a nós. O grupo não era apenas um conjunto de outras pessoas. Em alguma medida, o grupo éramos nós. Essa tendência continua existindo mesmo quando o vínculo entre o sucesso do grupo e nossos benefícios individuais se torna muito mais distante. Quando nosso time vence, nosso cér...

Por que o Estado deveria promover as virtudes?

Se não temos certeza de que a vida continua depois da morte, existe um limite para aquilo que uma ética pode justificar. Mesmo que a vida virtuosa produza benefícios enquanto estamos vivos, alguém pode reconhecer todos esses benefícios e ainda preferir uma vida dedicada a outros prazeres. Se rejeitar a ideia de que existe um modo objetivamente superior de realizar a natureza humana, a ética aristotélica perde parte de sua força normativa. Mas esse problema não precisa ser transferido integralmente para a política. A política não precisa responder à pergunta sobre qual é a melhor vida para cada indivíduo para reconhecer que determinadas virtudes produzem benefícios para a vida em sociedade. Uma população formada por pessoas mais prudentes, temperantes, justas e brandas tende a produzir menos conflitos, violência e comportamentos autodestrutivos. Isso significa menos demandas sobre instituições como o sistema de justiça e o sistema de saúde, além de relações sociais mais estáveis e coope...

Existe uma cultura melhor que a outra?

O fato de diferentes culturas considerarem certas práticas corretas significa que não existe uma resposta objetivamente correta sobre como devemos viver? Essa é uma das principais implicações do relativismo cultural. Se os valores morais são determinados por cada sociedade, então não faria sentido dizer que uma cultura é melhor que outra. Poderíamos apenas dizer que suas práticas são diferentes. O problema está em confundir aquilo que uma sociedade considera verdadeiro ou correto com aquilo que é verdadeiro ou correto. Uma sociedade pode compartilhar amplamente uma determinada crença moral e, ainda assim, estar errada. Imagine, por exemplo, uma comunidade em que seja considerado moralmente aceitável matar um recém-nascido quando já existem dois filhos e não há outra pessoa capaz de assumir os cuidados da criança. A prática pode ter uma justificativa compreensível: em uma situação de fuga, os pais conseguiriam carregar apenas duas crianças, e a existência de uma terceira poderia comprom...

O ser humano nasce mau?

A ideia de que o ser humano nasce bom é associada, sobretudo, a Jean-Jacques Rousseau, para quem seria a sociedade que acabaria por corrompê-lo. Mas será que o ser humano realmente nasce bom? Durante muito tempo, eu tendia a pensar que sim, ou pelo menos que o ser humano nascia neutro. Afinal, é difícil olhar para um bebê e considerá-lo mau. Ele não parece perverso, cruel ou culpado por aquilo que faz. Mas talvez isso aconteça porque estamos usando a palavra “mau” em um sentido específico demais. E se a maldade não significar, necessariamente, perversidade, mas a ausência daquilo que torna um ser capaz de funcionar bem? Santo Tomás de Aquino oferece uma distinção interessante nesse sentido: “nenhum ente é dito mau enquanto é ente, mas na medida em que carece de ser”. Um homem pode ser chamado de mau quando carece de virtude, assim como um olho pode ser chamado de mau quando carece de uma visão adequada. O olho não é mau porque possui uma essência maligna, mas porque lhe falta algo que ...

Como seria um governo dos sábios?

Platão imaginou que o melhor governo seria aquele exercido pelos sábios. A ideia parece estranha à democracia moderna: se todos os cidadãos são politicamente iguais, por que alguns deveriam ter mais poder do que outros? Mas a oposição entre governo dos sábios e democracia é menos necessária do que parece. Uma democracia pode, em vez de abandonar o ideal de igualdade, procurar incorporar a competência como um de seus próprios princípios. Uma das questões levantadas por Jason Brennan ao discutir a epistocracia é justamente a relação entre poder político e conhecimento. Um sistema epistocrático seria aquele que distribui o poder político de acordo com conhecimento ou competência, em vez de distribuí-lo necessariamente de maneira igual. Entre suas possibilidades estão sistemas que exigem uma qualificação mínima para votar e sistemas nos quais cidadãos podem adquirir votos adicionais mediante determinadas qualificações. A proposta pode parecer antidemocrática, mas isso depende de como enten...

O ser humano e o problema do bem comum

Nossa experiência cotidiana já oferece um excelente ponto de partida para pensar o problema do bem comum. Mesmo em pequena escala, como no interior das famílias, é comum observarmos louças acumuladas, ambientes desorganizados e tarefas compartilhadas realizadas apenas por alguns membros. Enquanto poucos se esforçam para manter a ordem, outros simplesmente usufruem dela. Esse fenômeno revela algo importante: cuidar do que é comum não parece ser uma tendência automática do ser humano. Em praticamente toda convivência coletiva surgem indivíduos que contribuem pouco ou nada para a manutenção da ordem comum e preferem usufruir do esforço alheio. É natural, portanto, que existam exploradores (os chamados free riders ) e teorias políticas que desconsideram essa realidade tendem a se tornar utópicas. A percepção de que o que é de todos tende a receber menos cuidado não é nova. Aristóteles já observava que aquilo que pertence ao maior número costuma receber o menor zelo. Séculos depois, pensado...

Como nascem as teorias políticas utópicas?

Ao longo da história, surgiram inúmeras propostas de sociedades perfeitas. Algumas prometem eliminar conflitos. Outras garantem igualdade completa, harmonia permanente ou cooperação universal. Mas existe um problema comum a muitas delas. Antes de imaginar como uma sociedade deveria funcionar, toda teoria política precisa responder a uma pergunta muito mais básica: c omo os seres humanos realmente são? Se essa resposta estiver errada, toda a teoria construída sobre ela corre o risco de se tornar uma utopia. O primeiro passo para construir uma utopia Uma maneira clássica de criar uma teoria política utópica é imaginar que a natureza humana seja praticamente uma folha em branco. Se as pessoas fossem inteiramente moldadas pelo ambiente, bastaria transformar as instituições para transformar completamente os indivíduos. Durante muito tempo essa ideia foi bastante influente. Hoje, porém, as evidências da psicologia do desenvolvimento e da psicologia evolutiva apontam em outra direção. Pesquis...

O que seria a terceira via política?

Quando pensamos em política, normalmente imaginamos um espectro que vai da esquerda à direita. Essa forma de organizar o debate parece tão natural que raramente nos perguntamos de onde ela surgiu. Na verdade, sua origem foi bastante circunstancial. Durante a Revolução Francesa, os defensores da preservação da ordem existente sentavam-se à direita da Assembleia, enquanto os favoráveis a mudanças mais profundas sentavam-se à esquerda. A partir daí, "direita" e "esquerda" passaram a designar formas distintas de compreender a organização da sociedade. Mas será que essa divisão continua sendo suficiente? Mesmo as classificações políticas mais sofisticadas (como a distinção entre progressistas, libertários e conservadores) continuam partindo de pressupostos diferentes sobre quais valores o Estado deve priorizar. Talvez, porém, a pergunta devesse vir antes disso: qual deve ser a finalidade da organização política? O que cada tradição procura proteger? O psicólogo Jona...

Vícios podem gerar riqueza, mas não uma boa sociedade

Uma das ideias mais influentes da economia moderna é a de que uma sociedade constituída por indivíduos que buscam quase sempre o seu próprio bem pode gerar bons resultados coletivos. Essa intuição aparece de forma provocativa em Bernard Mandeville e ganha sofisticação em Adam Smith, especialmente com a metáfora da “mão invisível”. A tese geral é simples: mesmo quando indivíduos priorizam seus interesses em quase todas as decisões, o sistema econômico pode produzir prosperidade geral. O padeiro não faz pão por altruísmo, mas para lucrar; ainda assim, sua ação contribui para o bem-estar de todos. A ordem social, nesse sentido, não dependeria da prática das virtudes, em especial, da generosidade, mas de incentivos bem organizados. Mandeville levou essa ideia ao extremo ao sugerir que certos “vícios privados” podem gerar “benefícios públicos”. O consumo excessivo, a ambição e o luxo, por exemplo, alimentariam a circulação de riqueza e o dinamismo econômico. Adam Smith, embora rejeite o t...

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