O que é ser de extrema esquerda ou extrema direita?

Esquerda e direita são geralmente distinguidas pelas posições que defendem sobre economia, Estado, costumes e organização social. Mas talvez seja possível compreendê-las de maneira mais profunda a partir dos valores que conferem unidade a essas posições.

Jonathan Haidt nos oferece uma pista importante. Sua teoria dos fundamentos morais mostra que a esquerda tende a atribuir um peso particularmente elevado ao cuidado. Embora sua classificação não esgote os valores envolvidos nas diferentes orientações políticas, ela sugere que o cuidado ocupa uma posição especialmente importante na moralidade da esquerda.

Se aceitarmos essa pista e partirmos da oposição entre esquerda e direita, podemos procurar o valor que ocupa uma posição correspondente no polo oposto. Na minha interpretação, esse valor é a responsabilidade.

O cuidado estabelece que o sofrimento e a vulnerabilidade de uma pessoa constituem razões para que outras pessoas intervenham em seu benefício. A responsabilidade, por outro lado, estabelece que os indivíduos devem responder por suas escolhas e assumir as consequências de seus atos.

Nenhum desses valores é suficiente por si só. Uma sociedade precisa cuidar daqueles que não conseguem cuidar adequadamente de si mesmos, mas também precisa reconhecer a capacidade dos indivíduos de conduzir a própria vida e responder por suas decisões.

Os extremos surgem quando um desses valores passa a ocupar uma posição praticamente absoluta.

Na extrema esquerda, o cuidado pode ser levado ao ponto de subordinar a responsabilidade individual. Se uma pessoa enfrenta dificuldades, a explicação tende a ser procurada predominantemente nas circunstâncias que a cercam, e a resposta tende a ser a ampliação da proteção oferecida pela sociedade. Levado ao extremo, esse princípio pode resultar na ideia de que o indivíduo não deve ser responsabilizado por grande parte dos resultados de sua própria vida, porque cabe à sociedade compensar continuamente suas vulnerabilidades e limitações.

Na extrema direita, ocorre o movimento inverso. A responsabilidade individual pode ser elevada a tal ponto que o cuidado deixa de exercer uma função relevante. Se uma pessoa fracassa, a explicação tende a ser atribuída principalmente às suas próprias escolhas e esforços, independentemente das circunstâncias. Levado ao extremo, esse princípio produz a ideia de que cada indivíduo é responsável por praticamente tudo o que lhe acontece e que a sociedade não deve assumir responsabilidade significativa por suas dificuldades.

A partir dessas absolutizações, outras crenças podem ser derivadas.

Se a responsabilidade individual é praticamente suficiente para explicar os resultados da vida, torna-se natural acreditar que basta esforço para alcançar o sucesso e que diferenças de resultados refletem principalmente diferenças de mérito. Se, ao contrário, o cuidado e as circunstâncias são suficientes para explicar esses resultados, o esforço individual perde importância e o mérito deixa de oferecer uma explicação relevante para as diferenças entre as pessoas.

Nos dois casos, um valor verdadeiro é transformado em uma explicação total.

O indivíduo realmente possui responsabilidade por suas escolhas, mas suas possibilidades também são condicionadas por circunstâncias que não escolheu. Da mesma maneira, as circunstâncias realmente afetam os resultados que uma pessoa pode alcançar, mas isso não elimina sua capacidade de agir nem a responsabilidade por suas escolhas.

Por isso, a oposição entre cuidado e responsabilidade é falsa quando levada ao nível de princípios absolutos. Cuidar de alguém não exige considerá-lo incapaz de responder por sua própria vida; responsabilizar alguém não exige ignorar as circunstâncias que condicionaram suas possibilidades.

A diferença entre uma posição política equilibrada e uma posição extrema parece estar justamente aí: não na escolha entre cuidado e responsabilidade, mas na capacidade de reconhecer a importância de ambos sem permitir que qualquer um deles elimine o outro.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.

Entrar no Salão Filosófico

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quais são os pontos fortes e fracos do estoicismo?

O que é um bom ser humano?

Como é a estrutura da evolução do saber humano?