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Mostrando postagens de 2026

Por que sentimos raiva quando algumas pessoas se vangloriam?

Não somos necessariamente avessos à hierarquia. Em particular, tendemos a aceitar de bom grado uma hierarquia de prestígio, na qual algumas pessoas ocupam posições superiores porque reconhecemos nelas conhecimentos ou habilidades que consideramos valiosos. Isso acontece, por exemplo, quando admiramos um atleta por seu desempenho, um cientista por seu conhecimento ou um músico por sua habilidade. Uma pessoa pode adquirir prestígio ao demonstrar aquilo que é capaz de fazer e, inclusive, ao contar aos outros sobre seus próprios feitos. Esse tipo de hierarquia não beneficia apenas quem ocupa uma posição elevada. Também beneficia o grupo. Ao reconhecer que determinada pessoa possui conhecimentos ou habilidades superiores em uma área, os demais passam a ter uma indicação de quem vale a pena observar, ouvir ou procurar quando precisam adquirir determinado conhecimento ou habilidade. Por isso, não apenas toleramos o prestígio como frequentemente o estimulamos. Elogiamos pessoas que se destacam...

O que é arrogância?

Existem pessoas melhores do que outras em diferentes dimensões da vida. Algumas são mais inteligentes, outras mais corajosas, mais disciplinadas ou mais generosas. Se considerarmos a média de determinadas qualidades, também é possível que uma pessoa seja, de maneira geral, superior a outra. Isso é semelhante ao que ocorre em alguns jogos de videogame, nos quais um personagem recebe uma classificação geral com base na combinação de diferentes atributos. Um jogador pode ter uma classificação geral superior à de outro e, ainda assim, ser inferior a ele em uma característica específica. Reconhecer isso não é necessariamente arrogância. Uma pessoa pode perceber honestamente que possui determinadas capacidades desenvolvidas em um grau maior do que a maioria das pessoas sem, por isso, acreditar que vale mais como ser humano ou que é superior em todos os aspectos. A arrogância começa quando essa percepção deixa de ser limitada. O arrogante não apenas acredita ser melhor do que algumas pessoas ...

Por que muitas pessoas acham a filosofia inútil?

No senso comum, filosofar costuma ser associado a devaneios, abstrações distantes da realidade ou discussões que não produzem resultados concretos. Essa percepção se estabeleceu, em parte, porque muitas pessoas não entendem bem o que a filosofia é e, sobretudo, o que ela pode produzir (algo que constitui justamente um dos principais critérios pelos quais julgamos algo útil ou inútil). A filosofia não precisa produzir diretamente um medicamento, um aplicativo ou uma máquina para produzir efeitos importantes. Uma de suas funções é antecipar possibilidades teóricas. O filósofo pode formular hipóteses e construir sistemas explicativos sobre questões que a ciência ainda não consegue investigar empiricamente. Quando essas hipóteses podem ser testadas, elas entram no domínio da investigação científica e podem ser confirmadas, modificadas ou abandonadas. Ainda no domínio do avanço do conhecimento científico, outra função da filosofia é sistematizar conhecimentos que já possuímos. Os dados empí...

O que fazer para sermos menos preconceituosos?

Minha sugestão é que, para nos tornarmos menos preconceituosos, precisamos deixar de nos apegar imediatamente às nossas opiniões prévias e desenvolver o hábito de refletir com maior profundidade sobre elas. Esse processo pode ser compreendido em três etapas. A primeira é reconhecer a existência do preconceito e compreender sua função. Nossos mecanismos de categorização e avaliação rápida não surgiram por acaso. Em condições ancestrais, identificar rapidamente aquilo que poderia representar uma ameaça ou uma oportunidade tinha valor adaptativo. O problema é que esses mecanismos continuam operando em ambientes muito diferentes daqueles em que foram selecionados. Eles podem nos levar a categorizar pessoas e situações de maneira precipitada, utilizando poucas informações e produzindo avaliações que não correspondem adequadamente à realidade. Por isso, o primeiro passo para sermos menos preconceituosos é perceber que nossas primeiras avaliações não são necessariamente confiáveis. Não precis...

O que fazer quando o desejo sexual desaparece?

A diminuição ou o desaparecimento do desejo sexual costuma ser interpretado como um dos sinais mais claros de que uma relação amorosa chegou ao fim. Se duas pessoas deixaram de desejar uma à outra, parece natural concluir que aquilo que as unia desapareceu e que a continuidade da relação representa apenas uma recusa em aceitar essa realidade. Mas essa conclusão pressupõe que o desejo sexual deve permanecer como o principal fundamento de uma relação durante toda a sua existência. Não há razão para que isso seja necessariamente verdade. O desejo pode ter sido uma das forças responsáveis pela formação da relação sem precisar continuar ocupando o mesmo lugar décadas depois. Uma parceria amorosa pode acumular, ao longo do tempo, amizade, confiança, lealdade, cuidado, cooperação e uma história compartilhada. A diminuição da atração sexual não elimina automaticamente essas coisas. Isso não significa que a perda do desejo seja irrelevante. Para algumas pessoas, a sexualidade ocupa um lugar tão...

Nossa biologia contra nossos relacionamentos amorosos

Construir e manter uma parceria amorosa duradoura é uma tarefa particularmente difícil para os seres humanos. Parte dessa dificuldade decorre do fato de que nossa biologia não foi moldada para produzir aquilo que hoje esperamos de um relacionamento: uma parceria estável, exclusiva e sexualmente satisfatória durante décadas. Os mecanismos que favoreceram a formação de vínculos entre homens e mulheres foram selecionados em um contexto em que os problemas reprodutivos eram diferentes dos que enfrentamos atualmente. As diferenças entre homens e mulheres começam na própria escolha do parceiro. Para uma mulher, a gestação e os anos iniciais de cuidado de sua prole representam um investimento reprodutivo elevado. Durante a gestação, ela se encontra fisicamente mais vulnerável e, depois do nascimento, precisa cuidar da prole , que permanecerá dependente dela durante muitos anos. Em condições ancestrais, isso tornava relevante a escolha de um parceiro capaz de contribuir para a sobrevivência da...

O caçador de medos

Eu costumo dar meia-volta e encarar meus medos. E, quando faço isso, muitas vezes são eles que parecem fugir de mim. Foi assim que me tornei um caçador de medos. Não quero dizer que devemos enfrentar qualquer medo de qualquer maneira. Isso seria apenas imprudência. Um leão continua sendo um leão, e entrar em uma situação realmente perigosa para provar coragem não é coragem. É falta de juízo. Estou falando daqueles medos que percebemos, racionalmente, serem maiores na nossa cabeça do que na realidade. Quando percebo um desses, gosto de “pagar para ver”. Se alguém tem medo de elevador, por exemplo, pode começar entrando nele sem apertar o botão. Depois, apertar o botão e subir apenas um andar. Em seguida, dois. E assim por diante. O importante é avançar gradualmente, sem se obrigar a saltos para os quais ainda não está preparado. A Psicologia conhece esse princípio há bastante tempo. A dessensibilização sistemática, desenvolvida por Joseph Wolpe, utiliza justamente a exposição gradual a ...

Por que algumas pessoas parecem mais bonitas de máscara?

Você já reparou que algumas pessoas parecem mais bonitas quando estão usando uma máscara que cobre parte do rosto? Isso parece estranho. Afinal, se estamos vendo menos do rosto, deveríamos ter menos informações para avaliar sua aparência. Mas existe uma razão para que a parte que não vemos possa, paradoxalmente, contribuir para uma impressão mais favorável. Nossa percepção não funciona como uma fotografia que simplesmente registra aquilo que está diante dos olhos. Ela procura organizar o que percebemos em configurações dotadas de unidade e regularidade. É o que podemos observar, por exemplo, nos conhecidos fenômenos estudados pela Gestalt: diante de elementos incompletos, tendemos a perceber uma figura organizada em vez de um conjunto desconexo de partes. Essa tendência pode fazer com que a ordem percebida em uma parte seja estendida ao conjunto. Imagine um rosto em que a região dos olhos, das sobrancelhas e da testa apresenta uma aparência bastante harmoniosa, enquanto a parte inf...

Qual é a diferença entre persuasão e manipulação?

Persuadir alguém significa tentar mudar aquilo que essa pessoa pensa. Manipular também pode envolver uma tentativa de mudar suas opiniões. Se ambas procuram influenciar o que alguém pensa ou faz, qual é a diferença entre elas? A diferença não está simplesmente no fato de uma comunicação tentar produzir uma mudança de opinião. Argumentar é uma forma de influência, e não há nada de errado nisso. Quando apresentamos razões para convencer alguém, estamos justamente tentando fazer com que essa pessoa veja uma questão de outra maneira. O problema aparece quando a influência deixa de depender da capacidade da pessoa de avaliar as razões apresentadas. Imagine alguém que queira convencê-lo de que determinada política é boa. Ele pode apresentar seus argumentos, mostrar as evidências que considera relevantes e responder às objeções. Você pode analisar tudo isso e mudar de opinião. Nesse caso, houve persuasão: a mudança ocorreu por meio de um processo no qual você pôde exercer seu próprio julgamen...

Três maneiras de aprender

Há uma conhecida passagem atribuída a Confúcio segundo a qual existem três maneiras de adquirir conhecimento: pela reflexão, pela imitação e pela experiência. A reflexão seria o caminho mais nobre; a imitação, o mais fácil; e a experiência, o mais amargo. A distinção é interessante, mas esses caminhos não precisam ser completamente separados. Podemos refletir sobre aquilo que experimentamos e também sobre aquilo que aprendemos imitando outras pessoas. A reflexão não precisa ser um caminho independente dos demais; ela pode acompanhar tanto a experiência quanto a imitação. Imagine alguém aprendendo a cozinhar. Ele pode observar um cozinheiro experiente e simplesmente reproduzir seus movimentos, tempos e quantidades. Nesse caso, está aprendendo por imitação. Mas pode também prestar atenção ao que o cozinheiro faz e tentar compreender por que ele faz daquela maneira. Se fizer isso, sua imitação já estará acompanhada de reflexão. Essa diferença é importante. Quem simplesmente memoriza um...

Quando a filosofia vira religião

Uma filosofia sobre “o que viemos fazer aqui” e “para onde vamos” começa a se aproximar da religião quando alguém passa a defender que encontrou o caminho e a verdade . A religião pode ser compreendida como a institucionalização de uma linha de pensamento sobre a realidade, especialmente sobre aquilo que ultrapassa a experiência cotidiana. Em geral, ela vem acompanhada da convicção de que essa linha de pensamento corresponde à verdade. Quando essa convicção se torna inquestionável, ocorre uma espécie de pausa da filosofia . Afinal, se já acreditamos ter encontrado as respostas fundamentais sobre a realidade, o que resta investigar? A filosofia, enquanto atividade de investigação, perde espaço quando uma determinada concepção passa a ser tratada como definitiva. Nesse sentido, uma religião pode representar o ponto final de uma determinada linha filosófica. A filosofia deixa de ser utilizada para descobrir o que é verdadeiro e passa a ser utilizada para justificar aquilo que a relig...

O problema não é desejar muito, mas desejar coisas que não valem a pena

Existem filosofias que defendem que o desejo humano é um mal a ser combatido, pois nossos desejos tenderiam ao infinito e, por isso, seriam fontes constantes de insaciabilidade e sofrimento. A solução, nessa perspectiva, seria reduzir progressivamente os desejos até alcançar um estado de tranquilidade no qual dependeríamos cada vez menos daquilo que está fora de nosso controle. Essa concepção, contudo, parte de uma premissa que merece ser questionada. O problema não está simplesmente em desejar, mas em desejar mal. Não podemos simplesmente retirar da nossa mente a faculdade de desejar. O desejo faz parte da nossa constituição e desempenha uma função fundamental em nossa vida. É por meio dele que somos orientados para aquilo que consideramos valioso e que encontramos motivação para agir. Tentar eliminar o desejo seria, em alguma medida, tentar eliminar uma das características que nos tornam humanos. E se, por um lado, as filosofias que nos ensinam que o desejo é um mal para nós muitas v...

O “sucessômetro” da nossa cultura está precisando de manutenção

O que significa ser bem-sucedido na vida? As respostas costumam variar. Para alguns, significa ter saúde; para outros, ter saúde e não passar necessidade. Há quem considere necessário também ter dinheiro suficiente para viver sem grandes preocupações financeiras. Outros acrescentam uma família, bons amigos, respeito, admiração ou reconhecimento dentro da própria área de atuação. Nada disso é irrelevante. O problema é que podemos estar confundindo condições para uma vida bem-sucedida com o próprio sucesso. Se viemos ao mundo com um propósito, saúde, dinheiro, família, amizades e reconhecimento são extremamente importantes, mas ocupam um lugar secundário. São bens que nos dão melhores condições para realizar aquilo que viemos realizar. Ter dinheiro, por exemplo, amplia nossas possibilidades de ação; ter saúde nos permite permanecer ativos; ter boas relações nos proporciona apoio e estabilidade. Mas nenhum desses elementos, isoladamente, nos diz se estamos cumprindo nosso propósito. É com...

A melhor forma de retaliar é aquela que ensina a cooperar

Grande parte da nossa vida depende da cooperação. Precisamos uns dos outros para obter alimentos, criar filhos, construir conhecimento, trabalhar, estabelecer relações de amizade e realizar praticamente qualquer empreendimento que ultrapasse aquilo que um indivíduo consegue fazer sozinho. O problema é que, sempre que cooperamos, existe a possibilidade de sermos explorados por alguém que recebe os benefícios da cooperação sem oferecer uma contribuição equivalente. A teoria dos jogos estudou esse problema de maneira particularmente interessante nos chamados jogos de interação repetida. Quando duas pessoas têm a possibilidade de cooperar várias vezes, estratégias que simplesmente cooperam independentemente do comportamento do outro podem ser facilmente exploradas por quem prefere não cooperar. Por outro lado, uma estratégia baseada na reciprocidade pode ser muito mais estável: cooperar inicialmente, continuar cooperando enquanto o outro coopera e responder à não cooperação com alguma for...

O ser humano nasce mau?

A ideia de que o ser humano nasce bom é associada, sobretudo, a Jean-Jacques Rousseau, para quem seria a sociedade que acabaria por corrompê-lo. Mas será que o ser humano realmente nasce bom? Durante muito tempo, eu tendia a pensar que sim, ou pelo menos que o ser humano nascia neutro. Afinal, é difícil olhar para um bebê e considerá-lo mau. Ele não parece perverso, cruel ou culpado por aquilo que faz. Mas talvez isso aconteça porque estamos usando a palavra “mau” em um sentido específico demais. E se a maldade não significar, necessariamente, perversidade, mas a ausência daquilo que torna um ser capaz de funcionar bem? Santo Tomás de Aquino oferece uma distinção interessante nesse sentido: “nenhum ente é dito mau enquanto é ente, mas na medida em que carece de ser”. Um homem pode ser chamado de mau quando carece de virtude, assim como um olho pode ser chamado de mau quando carece de uma visão adequada. O olho não é mau porque possui uma essência maligna, mas porque lhe falta algo que ...

Eu prefiro pagar boletos do que voltar a ser criança

Isso pode parecer estranho, especialmente porque é comum ouvirmos que a infância e a adolescência foram as melhores fases da vida. Aristóteles, porém, tinha uma visão bastante diferente. Para ele, uma pessoa muito jovem ainda não estaria em condições de alcançar a felicidade propriamente dita. A razão é que, para Aristóteles, a felicidade está ligada à prática da virtude, e a criança ainda está desenvolvendo as capacidades necessárias para agir virtuosamente. Isso não significa que crianças não possam sentir felicidade. Elas também podem tomar boas decisões, orgulhar-se de seus resultados e, consequentemente, experimentar felicidade. A diferença é que, por ainda estarem desenvolvendo suas capacidades, terão menos oportunidades de produzir resultados dos quais possam se orgulhar dessa maneira. Portanto, estamos falando de uma questão de frequência, e não de uma impossibilidade absoluta. Mas, então, o que é a felicidade? Como mencionei no ensaio “O que é a felicidade”, o único prazer que...

Como seria um governo dos sábios?

Platão imaginou que o melhor governo seria aquele exercido pelos sábios. A ideia parece estranha à democracia moderna: se todos os cidadãos são politicamente iguais, por que alguns deveriam ter mais poder do que outros? Mas a oposição entre governo dos sábios e democracia é menos necessária do que parece. Uma democracia pode, em vez de abandonar o ideal de igualdade, procurar incorporar a competência como um de seus próprios princípios. Uma das questões levantadas por Jason Brennan ao discutir a epistocracia é justamente a relação entre poder político e conhecimento. Um sistema epistocrático seria aquele que distribui o poder político de acordo com conhecimento ou competência, em vez de distribuí-lo necessariamente de maneira igual. Entre suas possibilidades estão sistemas que exigem uma qualificação mínima para votar e sistemas nos quais cidadãos podem adquirir votos adicionais mediante determinadas qualificações. A proposta pode parecer antidemocrática, mas isso depende de como enten...

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