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Por que o Estado deveria promover as virtudes?

Se não temos certeza de que a vida continua depois da morte, existe um limite para aquilo que uma ética pode justificar. Mesmo que a vida virtuosa produza benefícios enquanto estamos vivos, alguém pode reconhecer todos esses benefícios e ainda preferir uma vida dedicada a outros prazeres. Se rejeitar a ideia de que existe um modo objetivamente superior de realizar a natureza humana, a ética aristotélica perde parte de sua força normativa. Mas esse problema não precisa ser transferido integralmente para a política. A política não precisa responder à pergunta sobre qual é a melhor vida para cada indivíduo para reconhecer que determinadas virtudes produzem benefícios para a vida em sociedade. Uma população formada por pessoas mais prudentes, temperantes, justas e brandas tende a produzir menos conflitos, violência e comportamentos autodestrutivos. Isso significa menos demandas sobre instituições como o sistema de justiça e o sistema de saúde, além de relações sociais mais estáveis e coope...

Por que ficamos enjoados em navios?

Por que uma incompatibilidade entre aquilo que vemos e aquilo que sentimos provoca náusea? O que o movimento de um navio tem a ver com o estômago? Uma hipótese proposta pelo psicólogo Michel Treisman é que o enjoo seja uma resposta evolutiva à possibilidade de intoxicação. Muitas toxinas encontradas na natureza afetam o sistema nervoso. O problema é que, quando o cérebro é afetado, ele pode produzir percepções anormais. E o próprio cérebro não consegue determinar facilmente se uma percepção estranha vem de uma alteração no mundo ou de uma alteração em seu próprio funcionamento. A gravidade é especialmente importante nesse contexto porque ela é uma das características mais estáveis do ambiente. Em condições normais, nossos sentidos fornecem ao cérebro informações compatíveis sobre a posição e o movimento do corpo. Mas, em um navio, os olhos podem indicar que estamos nos movimentando enquanto o sistema vestibular fornece sinais diferentes. Essa discrepância pode ser interpretada pelo cér...

Existe uma cultura melhor que a outra?

O fato de diferentes culturas considerarem certas práticas corretas significa que não existe uma resposta objetivamente correta sobre como devemos viver? Essa é uma das principais implicações do relativismo cultural. Se os valores morais são determinados por cada sociedade, então não faria sentido dizer que uma cultura é melhor que outra. Poderíamos apenas dizer que suas práticas são diferentes. O problema está em confundir aquilo que uma sociedade considera verdadeiro ou correto com aquilo que é verdadeiro ou correto. Uma sociedade pode compartilhar amplamente uma determinada crença moral e, ainda assim, estar errada. Imagine, por exemplo, uma comunidade em que seja considerado moralmente aceitável matar um recém-nascido quando já existem dois filhos e não há outra pessoa capaz de assumir os cuidados da criança. A prática pode ter uma justificativa compreensível: em uma situação de fuga, os pais conseguiriam carregar apenas duas crianças, e a existência de uma terceira poderia comprom...

O limite da ética aristotélica

Se não existe vida após a morte, por que alguém deveria se dedicar ao aperfeiçoamento da alma? Se a existência termina definitivamente com a morte, por que não aproveitar a vida intensamente enquanto ela durar, mesmo que isso signifique abandonar a virtude em favor de outros prazeres? A pergunta parece colocar a ética diante de um problema difícil. Se depois da morte não existe nada, talvez não haja qualquer recompensa futura para quem passou a vida se esforçando para se tornar uma pessoa melhor. Por que, então, não escolher simplesmente aquilo que proporciona maior prazer enquanto estamos vivos? Sêneca oferece uma resposta interessante. Ao discutir a utilidade da virtude, afirma que, vivo ou morto, o ser humano se beneficia dela. Podemos interpretar essa ideia de maneira bastante concreta: quanto mais desenvolvemos nossa capacidade de agir racionalmente, maior tende a ser nossa capacidade de tomar boas decisões e produzir resultados positivos durante a vida. Aperfeiçoar a alma, nesse ...

Por que as pessoas confundem gratidão com obrigação?

É natural esperarmos algum tipo de reconhecimento quando fazemos um bem a outra pessoa. Quando essa expectativa não é satisfeita, especialmente quando não há qualquer forma de retribuição, podemos interpretar seu comportamento como ingratidão. Mas nem toda ausência de retribuição justifica esse julgamento. Podemos simplesmente exigir do outro algo que ele não nos deve. Um pai, por exemplo, pode esperar que a filha abandone seus próprios projetos para dedicar-se inteiramente a cuidar dele, considerando que isso seria uma forma de retribuir tudo o que fez por ela durante sua infância. A filha não seria necessariamente ingrata por recusar essa exigência. O fato de alguém ter feito algo por nós pode nos dar razões para reconhecer o benefício recebido e até para retribuí-lo de alguma forma, mas não lhe dá automaticamente o direito de determinar se devemos retribuí-lo, nem como ou em que medida isso deve acontecer. Essa perspectiva ajuda a compreender uma importante contribuição de Kant para...

Por que homens e mulheres podem preferir diferentes fases da criação dos filhos?

É curioso observar como a disposição para interagir com os filhos pode mudar conforme eles crescem. Algumas mães parecem especialmente atraídas pelos cuidados exigidos por bebês, enquanto alguns pais passam a se envolver mais quando os filhos começam a brincar, explorar o ambiente e aprender novas habilidades. Uma possível explicação está nas diferentes demandas que a criança apresenta ao longo do desenvolvimento. O bebê depende intensamente de proteção, alimentação, contato físico e cuidados constantes. À medida que cresce, porém, passa a exigir outras formas de atenção: estímulo à exploração, brincadeiras, aprendizagem, orientação e aquisição de habilidades. A biologia pode ter contribuído para que homens e mulheres desenvolvessem diferentes predisposições diante dessas demandas. Ao longo da evolução, o investimento parental esteve sujeito a diferentes custos e benefícios para cada sexo, o que pode ter favorecido tendências distintas de comportamento. Isso não significa que mulheres ...

Como as virtudes podem nos ajudar a sair de relacionamentos abusivos?

Saber que estamos em um relacionamento abusivo e saber que devemos sair dele não significa necessariamente que conseguiremos fazê-lo. Podemos compreender racionalmente que uma relação nos prejudica e, ainda assim, permanecer ligados à pessoa. Isso acontece porque reconhecer o que devemos fazer e possuir a disposição para fazê-lo são coisas diferentes. Uma das dificuldades está no próprio vínculo que mantemos com a pessoa. Mesmo em uma relação predominantemente prejudicial, podem existir momentos de afeto, atenção ou outras recompensas que mantêm vivo o desejo de permanecer. Enquanto continuamos expostos a esses estímulos, eles podem reforçar a ligação que tentamos romper. Nesse sentido, a moderação pode desempenhar um papel importante. Reduzir o contato, eliminar estímulos que reavivam constantemente o vínculo e interromper comportamentos que alimentam a idealização da pessoa pode permitir que nossa mente se desprenda gradualmente dela. Não se trata de negar que existiram benefícios na...

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