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O problema não é desejar muito, mas desejar coisas que não valem a pena

Existem filosofias que defendem que o desejo humano é um mal a ser combatido, pois nossos desejos tenderiam ao infinito e, por isso, seriam fontes constantes de insaciabilidade e sofrimento. A solução, nessa perspectiva, seria reduzir progressivamente os desejos até alcançar um estado de tranquilidade no qual dependeríamos cada vez menos daquilo que está fora de nosso controle. Essa concepção, contudo, parte de uma premissa que merece ser questionada. O problema não está simplesmente em desejar, mas em desejar mal. Não podemos simplesmente retirar da nossa mente a faculdade de desejar. O desejo faz parte da nossa constituição e desempenha uma função fundamental em nossa vida. É por meio dele que somos orientados para aquilo que consideramos valioso e que encontramos motivação para agir. Tentar eliminar o desejo seria, em alguma medida, tentar eliminar uma das características que nos tornam humanos. E se, por um lado, as filosofias que nos ensinam que o desejo é um mal para nós muitas v...

O “sucessômetro” da nossa cultura está precisando de manutenção

O que significa ser bem-sucedido na vida? As respostas costumam variar. Para alguns, significa ter saúde; para outros, ter saúde e não passar necessidade. Há quem considere necessário também ter dinheiro suficiente para viver sem grandes preocupações financeiras. Outros acrescentam uma família, bons amigos, respeito, admiração ou reconhecimento dentro da própria área de atuação. Nada disso é irrelevante. O problema é que podemos estar confundindo condições para uma vida bem-sucedida com o próprio sucesso. Se viemos ao mundo com um propósito, saúde, dinheiro, família, amizades e reconhecimento são extremamente importantes, mas ocupam um lugar secundário. São bens que nos dão melhores condições para realizar aquilo que viemos realizar. Ter dinheiro, por exemplo, amplia nossas possibilidades de ação; ter saúde nos permite permanecer ativos; ter boas relações nos proporciona apoio e estabilidade. Mas nenhum desses elementos, isoladamente, nos diz se estamos cumprindo nosso propósito. É com...

A melhor forma de retaliar é aquela que ensina a cooperar

Grande parte da nossa vida depende da cooperação. Precisamos uns dos outros para obter alimentos, criar filhos, construir conhecimento, trabalhar, estabelecer relações de amizade e realizar praticamente qualquer empreendimento que ultrapasse aquilo que um indivíduo consegue fazer sozinho. O problema é que, sempre que cooperamos, existe a possibilidade de sermos explorados por alguém que recebe os benefícios da cooperação sem oferecer uma contribuição equivalente. A teoria dos jogos estudou esse problema de maneira particularmente interessante nos chamados jogos de interação repetida. Quando duas pessoas têm a possibilidade de cooperar várias vezes, estratégias que simplesmente cooperam independentemente do comportamento do outro podem ser facilmente exploradas por quem prefere não cooperar. Por outro lado, uma estratégia baseada na reciprocidade pode ser muito mais estável: cooperar inicialmente, continuar cooperando enquanto o outro coopera e responder à não cooperação com alguma for...

O ser humano nasce mau?

A ideia de que o ser humano nasce bom é associada, sobretudo, a Jean-Jacques Rousseau, para quem seria a sociedade que acabaria por corrompê-lo. Mas será que o ser humano realmente nasce bom? Durante muito tempo, eu tendia a pensar que sim, ou pelo menos que o ser humano nascia neutro. Afinal, é difícil olhar para um bebê e considerá-lo mau. Ele não parece perverso, cruel ou culpado por aquilo que faz. Mas talvez isso aconteça porque estamos usando a palavra “mau” em um sentido específico demais. E se a maldade não significar, necessariamente, perversidade, mas a ausência daquilo que torna um ser capaz de funcionar bem? Santo Tomás de Aquino oferece uma distinção interessante nesse sentido: “nenhum ente é dito mau enquanto é ente, mas na medida em que carece de ser”. Um homem pode ser chamado de mau quando carece de virtude, assim como um olho pode ser chamado de mau quando carece de uma visão adequada. O olho não é mau porque possui uma essência maligna, mas porque lhe falta algo que ...

Eu prefiro pagar boletos do que voltar a ser criança

Isso pode parecer estranho, especialmente porque é comum ouvirmos que a infância e a adolescência foram as melhores fases da vida. Aristóteles, porém, tinha uma visão bastante diferente. Para ele, uma pessoa muito jovem ainda não estaria em condições de alcançar a felicidade propriamente dita. A razão é que, para Aristóteles, a felicidade está ligada à prática da virtude, e a criança ainda está desenvolvendo as capacidades necessárias para agir virtuosamente. Isso não significa que crianças não possam sentir felicidade. Elas também podem tomar boas decisões, orgulhar-se de seus resultados e, consequentemente, experimentar felicidade. A diferença é que, por ainda estarem desenvolvendo suas capacidades, terão menos oportunidades de produzir resultados dos quais possam se orgulhar dessa maneira. Portanto, estamos falando de uma questão de frequência, e não de uma impossibilidade absoluta. Mas, então, o que é a felicidade? Como mencionei no ensaio “O que é a felicidade”, o único prazer que...

Como seria um governo dos sábios?

Platão imaginou que o melhor governo seria aquele exercido pelos sábios. A ideia parece estranha à democracia moderna: se todos os cidadãos são politicamente iguais, por que alguns deveriam ter mais poder do que outros? Mas a oposição entre governo dos sábios e democracia é menos necessária do que parece. Uma democracia pode, em vez de abandonar o ideal de igualdade, procurar incorporar a competência como um de seus próprios princípios. Uma das questões levantadas por Jason Brennan ao discutir a epistocracia é justamente a relação entre poder político e conhecimento. Um sistema epistocrático seria aquele que distribui o poder político de acordo com conhecimento ou competência, em vez de distribuí-lo necessariamente de maneira igual. Entre suas possibilidades estão sistemas que exigem uma qualificação mínima para votar e sistemas nos quais cidadãos podem adquirir votos adicionais mediante determinadas qualificações. A proposta pode parecer antidemocrática, mas isso depende de como enten...

Estamos em um mundo cheio de zumbis?

Existe um antigo problema filosófico conhecido como “problema das outras mentes”. Embora tenhamos acesso direto à nossa própria experiência consciente, não temos exatamente o mesmo acesso à experiência consciente das outras pessoas. Sabemos que pensamos porque temos acesso direto aos nossos próprios pensamentos, mas, quando olhamos para outra pessoa, tudo o que temos são seus comportamentos, suas palavras e aquilo que conseguimos inferir a partir deles. Em princípio, portanto, não podemos ter a mesma certeza de que os outros possuem uma experiência consciente que temos em relação a nós mesmos. Poderíamos, em uma hipótese extrema, estar em um mundo no qual apenas nós tivéssemos consciência e os demais fossem aquilo que os filósofos chamam de “zumbis filosóficos”: seres que se comportam como pessoas conscientes, mas que não possuem qualquer experiência subjetiva. Não acredito que vivamos em um mundo no qual apenas nós somos conscientes. Mas essa hipótese nos permite perguntar se todos nó...

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