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O trabalho enobrece o homem?

Costumamos dizer que o trabalho enobrece o homem. Mas em que sentido o trabalho pode nos tornar melhores? Certamente não é o simples fato de trabalhar que possui esse efeito. Algumas formas de trabalho podem ser repetitivas, pouco desafiadoras ou até prejudiciais ao desenvolvimento de nossas capacidades. Se o trabalho pode nos enobrecer, isso parece depender daquilo que fazemos enquanto trabalhamos. Como vimos no ensaio sobre as virtudes, o agir racional envolve o exercício das virtudes morais e intelectuais. O trabalho pode contribuir para esse desenvolvimento quando oferece oportunidades para que essas capacidades sejam exercitadas e aprimoradas. Isso não significa que os chamados trabalhos intelectuais sejam necessariamente superiores aos trabalhos manuais ou operacionais. A natureza da profissão, por si só, diz pouco sobre as capacidades que ela exige. Um trabalho aparentemente simples pode exigir grande domínio técnico, discernimento e capacidade de tomar decisões, enquanto uma at...

O que são os vícios?

Se as virtudes tornam possível o agir racional, os vícios dificultam esse processo. Assim como as virtudes, eles podem ser compreendidos a partir da relação entre nossas emoções e nossa capacidade de raciocinar sobre elas. Como vimos no ensaio "O que são as virtudes?", uma virtude moral pode ser entendida como uma habilidade bem desenvolvida de seguir uma autorregra que nos leva a colocar em prática nossas virtudes intelectuais. Quando sentimos uma emoção, essa autorregra nos ajuda a não simplesmente seguir o impulso inicial, mas a avaliar se a orientação oferecida por ele é realmente adequada à situação. O vício ocorre quando essa capacidade não está suficientemente desenvolvida. Imagine, por exemplo, alguém que sente medo diante de uma ameaça. Essa pessoa pode simplesmente fugir, sem avaliar se escapar é realmente a melhor opção. Nesse caso, ela está seguindo cegamente a orientação inicial oferecida pelo medo. Outra pessoa pode, ao contrário, não reconhecer uma ameaça que d...

É preciso tempo para saber se uma decisão foi boa?

Uma decisão pode parecer errada e, ainda assim, produzir bons resultados. Também pode parecer acertada e produzir consequências ruins. Em muitos casos, portanto, é preciso considerar a variável tempo para avaliar uma decisão. Isso acontece porque nem todas as consequências de uma ação aparecem imediatamente. Podemos fazer o nosso melhor, observar que aparentemente nada aconteceu e concluir que nossa decisão não produziu resultado algum. Mas uma ação pode ter iniciado um processo cujo resultado só aparecerá muito mais tarde. É como plantar uma semente. Depois de colocá-la na terra, durante algum tempo nada parece acontecer. Isso não significa que nada esteja acontecendo. O crescimento ocorre antes de poder ser percebido na superfície. O mesmo pode ocorrer com nossas decisões. Uma conversa pode não produzir nenhuma mudança perceptível naquele momento, mas alterar uma relação ao longo dos anos. Um estudo pode não gerar resultados imediatos, mas preparar o conhecimento que permitirá uma de...

Como lidar com o fracasso?

Quando aquilo que desejamos não acontece, nossa primeira reação costuma ser insistir naquilo que estamos fazendo . Mas nem todo resultado depende de continuar tentando. Às vezes, já fizemos o suficiente e precisamos esperar. Em outras, precisamos encontrar meios melhores. E há situações em que o problema está no próprio objetivo que escolhemos. Essas três possibilidades formam o que podemos chamar de tríade reflexiva. A primeira é: já dei o meu melhor; agora preciso esperar as coisas acontecerem. Nem tudo está sob nosso controle. Podemos tomar as melhores decisões disponíveis, realizar os esforços necessários e ainda depender do tempo, das circunstâncias ou das ações de outras pessoas. Quando já fizemos aquilo que razoavelmente estava ao nosso alcance, insistir em novas ações pode significar apenas uma dificuldade em aceitar a espera. Nesse caso, a reflexão adequada é exercitar a paciência. A segunda é: ainda não fiz o suficiente; preciso pensar em melhores meios. Um resultado insatisf...

E se a nossa realidade for um experimento?

A hipótese da simulação costuma ser apresentada como a possibilidade de que o mundo em que vivemos tenha sido criado por uma civilização mais avançada. Mas, se essa hipótese for levada a sério, surge uma questão mais interessante: por que criar uma realidade como a nossa? Uma possibilidade é que ela seja um experimento. Um experimento existe para produzir conhecimento. Seus participantes são colocados em determinadas condições para que os pesquisadores possam observar o que acontece e descobrir algo que ainda não sabem. Se a nossa realidade for um experimento desse tipo, nossa existência poderia ter uma finalidade que desconhecemos. Isso mudaria a maneira como interpretamos o mundo em que vivemos. As condições da nossa existência (nossa inteligência limitada, nossa vulnerabilidade, a necessidade de tomar decisões sem conhecer todas as consequências e a exposição a situações imprevisíveis) poderiam não ser características acidentais da realidade. Poderiam ser precisamente algumas das co...

Escola sem Partido ou doutrinação?

O debate sobre educação costuma partir de uma preocupação legítima: como impedir que a escola seja utilizada para transmitir aos alunos as convicções pessoais de seus professores? Uma resposta possível é exigir que a escola seja neutra e impeça a defesa de determinadas posições em sala de aula. Outra é sustentar que os estudantes precisam conhecer diferentes perspectivas e que restringir a manifestação dessas posições também prejudica sua formação. O problema é que nenhuma dessas respostas, isoladamente, resolve a questão. Algumas aulas realmente podem transmitir convicções sem explicitar as razões que as sustentam. Quando uma posição é apresentada como algo que deve ser aceito, sem que seus fundamentos, evidências e limitações sejam examinados, a autoridade do professor pode substituir o julgamento do aluno. O estudante aprende o que pensar sem aprender a avaliar por que deveria pensar daquela maneira. A solução, porém, não consiste em proibir determinadas ideias ou exigir uma neutral...

Você está acumulando “ego coins”?

As redes sociais oferecem recompensas reais. Visualizações, curtidas, comentários e seguidores produzem reconhecimento, e o reconhecimento possui valor psicológico. O problema é que uma recompensa real não é necessariamente uma recompensa significativa. O reconhecimento social, porém, pode assumir formas diferentes. Uma coisa é ser aceito pelo grupo; outra é ocupar uma posição de maior status dentro dele. Embora nem todos busquem ascender socialmente, aqueles que buscam uma posição mais elevada tendem a investir mais recursos para conquistá-la.  Somos seres sociais em um mundo competitivo, no qual recursos e oportunidades são limitados. Por isso, o status importa. Uma posição social mais elevada pode proporcionar maior influência, acesso a recursos, oportunidades de relacionamento e outras vantagens concretas. Não é estranho, portanto, que as pessoas invistam esforço para obtê-lo. Nas redes sociais, essa dinâmica assume uma forma peculiar. Visualizações, curtidas e seguidores funci...

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