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O limite da ética aristotélica

Se não existe vida após a morte, por que alguém deveria se dedicar ao aperfeiçoamento da alma? Se a existência termina definitivamente com a morte, por que não aproveitar a vida intensamente enquanto ela durar, mesmo que isso signifique abandonar a virtude em favor de outros prazeres? A pergunta parece colocar a ética diante de um problema difícil. Se depois da morte não existe nada, talvez não haja qualquer recompensa futura para quem passou a vida se esforçando para se tornar uma pessoa melhor. Por que, então, não escolher simplesmente aquilo que proporciona maior prazer enquanto estamos vivos? Sêneca oferece uma resposta interessante. Ao discutir a utilidade da virtude, afirma que, vivo ou morto, o ser humano se beneficia dela. Podemos interpretar essa ideia de maneira bastante concreta: quanto mais desenvolvemos nossa capacidade de agir racionalmente, maior tende a ser nossa capacidade de tomar boas decisões e produzir resultados positivos durante a vida. Aperfeiçoar a alma, nesse ...

Por que as pessoas confundem gratidão com obrigação?

É natural esperarmos algum tipo de reconhecimento quando fazemos um bem a outra pessoa. Quando essa expectativa não é satisfeita, especialmente quando não há qualquer forma de retribuição, podemos interpretar seu comportamento como ingratidão. Mas nem toda ausência de retribuição justifica esse julgamento. Podemos simplesmente exigir do outro algo que ele não nos deve. Um pai, por exemplo, pode esperar que a filha abandone seus próprios projetos para dedicar-se inteiramente a cuidar dele, considerando que isso seria uma forma de retribuir tudo o que fez por ela durante sua infância. A filha não seria necessariamente ingrata por recusar essa exigência. O fato de alguém ter feito algo por nós pode nos dar razões para reconhecer o benefício recebido e até para retribuí-lo de alguma forma, mas não lhe dá automaticamente o direito de determinar se devemos retribuí-lo, nem como ou em que medida isso deve acontecer. Essa perspectiva ajuda a compreender uma importante contribuição de Kant para...

Por que homens e mulheres podem preferir diferentes fases da criação dos filhos?

É curioso observar como a disposição para interagir com os filhos pode mudar conforme eles crescem. Algumas mães parecem especialmente atraídas pelos cuidados exigidos por bebês, enquanto alguns pais passam a se envolver mais quando os filhos começam a brincar, explorar o ambiente e aprender novas habilidades. Uma possível explicação está nas diferentes demandas que a criança apresenta ao longo do desenvolvimento. O bebê depende intensamente de proteção, alimentação, contato físico e cuidados constantes. À medida que cresce, porém, passa a exigir outras formas de atenção: estímulo à exploração, brincadeiras, aprendizagem, orientação e aquisição de habilidades. A biologia pode ter contribuído para que homens e mulheres desenvolvessem diferentes predisposições diante dessas demandas. Ao longo da evolução, o investimento parental esteve sujeito a diferentes custos e benefícios para cada sexo, o que pode ter favorecido tendências distintas de comportamento. Isso não significa que mulheres ...

Como as virtudes podem nos ajudar a sair de relacionamentos abusivos?

Saber que estamos em um relacionamento abusivo e saber que devemos sair dele não significa necessariamente que conseguiremos fazê-lo. Podemos compreender racionalmente que uma relação nos prejudica e, ainda assim, permanecer ligados à pessoa. Isso acontece porque reconhecer o que devemos fazer e possuir a disposição para fazê-lo são coisas diferentes. Uma das dificuldades está no próprio vínculo que mantemos com a pessoa. Mesmo em uma relação predominantemente prejudicial, podem existir momentos de afeto, atenção ou outras recompensas que mantêm vivo o desejo de permanecer. Enquanto continuamos expostos a esses estímulos, eles podem reforçar a ligação que tentamos romper. Nesse sentido, a moderação pode desempenhar um papel importante. Reduzir o contato, eliminar estímulos que reavivam constantemente o vínculo e interromper comportamentos que alimentam a idealização da pessoa pode permitir que nossa mente se desprenda gradualmente dela. Não se trata de negar que existiram benefícios na...

Por que devemos nos comparar com os outros?

É comum ouvir que não devemos nos comparar com outras pessoas, mas apenas com quem éramos no passado. A ideia pretende evitar que a comparação produza uma percepção de inferioridade ou superioridade e, com isso, nos leve a adotar uma postura crônica de autodepreciação ou arrogância. Mas há dois problemas com essa ideia. Primeiro, comparar-nos apenas com quem éramos no passado pode permitir perceber se estamos progredindo, mas essa comparação, por si só, não nos mostra necessariamente em que outras direções poderíamos melhorar ou até onde podemos chegar. Nesse sentido, outras pessoas podem revelar possibilidades de desenvolvimento, amplitude e alcance que ainda não percebemos em nós mesmos. Segundo, podemos chegar a conclusões verdadeiras de que somos inferiores ou superiores a outras pessoas em determinadas dimensões sem que isso nos leve à autodepreciação ou à arrogância. Uma pessoa pode perceber honestamente que possui determinada capacidade desenvolvida em um grau menor ou maior do ...

Como alcançar a solitude?

Solitude não é simplesmente a capacidade de ser feliz sozinho. Essa definição confunde a capacidade de estar sozinho com um estado emocional. Uma pessoa pode preferir estar acompanhada e, ainda assim, ser capaz de permanecer sozinha sem vivenciar essa condição como uma ameaça. A diferença entre solidão e solitude está, nesse sentido, menos na ausência de companhia do que na maneira como a interpretamos. Na solidão, estar sozinho pode ser experimentado como vulnerabilidade: a pessoa sente que precisa de alguém para enfrentar adequadamente os desafios da vida. Na solitude, embora a companhia possa ser desejada, sua ausência não compromete a percepção de que somos capazes de seguir adiante. Por isso, a solitude está relacionada à autoconfiança. Quando nossa mente aprende que somos capazes de enfrentar dificuldades por conta própria, ficar sozinho deixa de parecer o fim do mundo. Essa aprendizagem não ocorre apenas por meio da reflexão. É preciso experimentar a própria capacidade de lidar ...

Como ligar menos para o que os outros pensam?

Não é possível (e provavelmente nem desejável) deixar de se importar completamente com o que os outros pensam. Somos seres sociais, e a maneira como somos avaliados pelos demais pode produzir consequências reais para nossa vida. O problema surge quando atribuímos ao julgamento alheio uma importância maior do que ele realmente possui. Uma pessoa pode, por exemplo, deixar de publicar um vídeo, expressar uma opinião ou se expor de alguma outra maneira porque teme ser julgada negativamente. Ao evitar a situação, porém, ela também deixa de descobrir se aquilo que teme realmente possui a gravidade que imagina. É por isso que uma das maneiras mais eficazes de passar a se importar menos com o julgamento dos outros é expor-se progressivamente a ele. Isso não significa fazer qualquer coisa sem considerar suas consequências. Não há razão para agir de maneira irresponsável ou prejudicar outras pessoas apenas para demonstrar que não nos importamos com suas opiniões. Trata-se, antes, de deixar de ev...

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