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Qual é a diferença entre persuasão e manipulação?

Persuadir alguém significa tentar mudar aquilo que essa pessoa pensa. Manipular também pode envolver uma tentativa de mudar suas opiniões. Se ambas procuram influenciar o que alguém pensa ou faz, qual é a diferença entre elas? A diferença não está simplesmente no fato de uma comunicação tentar produzir uma mudança de opinião. Argumentar é uma forma de influência, e não há nada de errado nisso. Quando apresentamos razões para convencer alguém, estamos justamente tentando fazer com que essa pessoa veja uma questão de outra maneira. O problema aparece quando a influência deixa de depender da capacidade da pessoa de avaliar as razões apresentadas. Imagine alguém que queira convencê-lo de que determinada política é boa. Ele pode apresentar seus argumentos, mostrar as evidências que considera relevantes e responder às objeções. Você pode analisar tudo isso e mudar de opinião. Nesse caso, houve persuasão: a mudança ocorreu por meio de um processo no qual você pôde exercer seu próprio julgamen...

Três maneiras de aprender

Há uma conhecida passagem atribuída a Confúcio segundo a qual existem três maneiras de adquirir conhecimento: pela reflexão, pela imitação e pela experiência. A reflexão seria o caminho mais nobre; a imitação, o mais fácil; e a experiência, o mais amargo. A distinção é interessante, mas esses caminhos não precisam ser completamente separados. Podemos refletir sobre aquilo que experimentamos e também sobre aquilo que aprendemos imitando outras pessoas. A reflexão não precisa ser um caminho independente dos demais; ela pode acompanhar tanto a experiência quanto a imitação. Imagine alguém aprendendo a cozinhar. Ele pode observar um cozinheiro experiente e simplesmente reproduzir seus movimentos, tempos e quantidades. Nesse caso, está aprendendo por imitação. Mas pode também prestar atenção ao que o cozinheiro faz e tentar compreender por que ele faz daquela maneira. Se fizer isso, sua imitação já estará acompanhada de reflexão. Essa diferença é importante. Quem simplesmente memoriza um...

Quando a filosofia vira religião

Uma filosofia sobre “o que viemos fazer aqui” e “para onde vamos” começa a se aproximar da religião quando alguém passa a defender que encontrou o caminho e a verdade . A religião pode ser compreendida como a institucionalização de uma linha de pensamento sobre a realidade, especialmente sobre aquilo que ultrapassa a experiência cotidiana. Em geral, ela vem acompanhada da convicção de que essa linha de pensamento corresponde à verdade. Quando essa convicção se torna inquestionável, ocorre uma espécie de pausa da filosofia . Afinal, se já acreditamos ter encontrado as respostas fundamentais sobre a realidade, o que resta investigar? A filosofia, enquanto atividade de investigação, perde espaço quando uma determinada concepção passa a ser tratada como definitiva. Nesse sentido, uma religião pode representar o ponto final de uma determinada linha filosófica. A filosofia deixa de ser utilizada para descobrir o que é verdadeiro e passa a ser utilizada para justificar aquilo que a relig...

O problema não é desejar muito, mas desejar coisas que não valem a pena

Existem filosofias que defendem que o desejo humano é um mal a ser combatido, pois nossos desejos tenderiam ao infinito e, por isso, seriam fontes constantes de insaciabilidade e sofrimento. A solução, nessa perspectiva, seria reduzir progressivamente os desejos até alcançar um estado de tranquilidade no qual dependeríamos cada vez menos daquilo que está fora de nosso controle. Essa concepção, contudo, parte de uma premissa que merece ser questionada. O problema não está simplesmente em desejar, mas em desejar mal. Não podemos simplesmente retirar da nossa mente a faculdade de desejar. O desejo faz parte da nossa constituição e desempenha uma função fundamental em nossa vida. É por meio dele que somos orientados para aquilo que consideramos valioso e que encontramos motivação para agir. Tentar eliminar o desejo seria, em alguma medida, tentar eliminar uma das características que nos tornam humanos. E se, por um lado, as filosofias que nos ensinam que o desejo é um mal para nós muitas v...

O “sucessômetro” da nossa cultura está precisando de manutenção

O que significa ser bem-sucedido na vida? As respostas costumam variar. Para alguns, significa ter saúde; para outros, ter saúde e não passar necessidade. Há quem considere necessário também ter dinheiro suficiente para viver sem grandes preocupações financeiras. Outros acrescentam uma família, bons amigos, respeito, admiração ou reconhecimento dentro da própria área de atuação. Nada disso é irrelevante. O problema é que podemos estar confundindo condições para uma vida bem-sucedida com o próprio sucesso. Se viemos ao mundo com um propósito, saúde, dinheiro, família, amizades e reconhecimento são extremamente importantes, mas ocupam um lugar secundário. São bens que nos dão melhores condições para realizar aquilo que viemos realizar. Ter dinheiro, por exemplo, amplia nossas possibilidades de ação; ter saúde nos permite permanecer ativos; ter boas relações nos proporciona apoio e estabilidade. Mas nenhum desses elementos, isoladamente, nos diz se estamos cumprindo nosso propósito. É com...

A melhor forma de retaliar é aquela que ensina a cooperar

Grande parte da nossa vida depende da cooperação. Precisamos uns dos outros para obter alimentos, criar filhos, construir conhecimento, trabalhar, estabelecer relações de amizade e realizar praticamente qualquer empreendimento que ultrapasse aquilo que um indivíduo consegue fazer sozinho. O problema é que, sempre que cooperamos, existe a possibilidade de sermos explorados por alguém que recebe os benefícios da cooperação sem oferecer uma contribuição equivalente. A teoria dos jogos estudou esse problema de maneira particularmente interessante nos chamados jogos de interação repetida. Quando duas pessoas têm a possibilidade de cooperar várias vezes, estratégias que simplesmente cooperam independentemente do comportamento do outro podem ser facilmente exploradas por quem prefere não cooperar. Por outro lado, uma estratégia baseada na reciprocidade pode ser muito mais estável: cooperar inicialmente, continuar cooperando enquanto o outro coopera e responder à não cooperação com alguma for...

O ser humano nasce mau?

A ideia de que o ser humano nasce bom é associada, sobretudo, a Jean-Jacques Rousseau, para quem seria a sociedade que acabaria por corrompê-lo. Mas será que o ser humano realmente nasce bom? Durante muito tempo, eu tendia a pensar que sim, ou pelo menos que o ser humano nascia neutro. Afinal, é difícil olhar para um bebê e considerá-lo mau. Ele não parece perverso, cruel ou culpado por aquilo que faz. Mas talvez isso aconteça porque estamos usando a palavra “mau” em um sentido específico demais. E se a maldade não significar, necessariamente, perversidade, mas a ausência daquilo que torna um ser capaz de funcionar bem? Santo Tomás de Aquino oferece uma distinção interessante nesse sentido: “nenhum ente é dito mau enquanto é ente, mas na medida em que carece de ser”. Um homem pode ser chamado de mau quando carece de virtude, assim como um olho pode ser chamado de mau quando carece de uma visão adequada. O olho não é mau porque possui uma essência maligna, mas porque lhe falta algo que ...

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