Postagens

Por que saber o que acontece não significa saber por que acontece?

Imagine duas bolas sobre uma mesa. A primeira se move, atinge a segunda e, logo depois, a segunda começa a se mover. Depois de observar situações semelhantes várias vezes, podemos aprender que o choque de uma bola contra outra pode colocá-la em movimento. Para aprender essa relação, não precisamos compreender por que isso acontece. Uma criança pode antecipar o movimento da segunda bola sem conhecer qualquer teoria física. Outros animais também são capazes de identificar objetos, distinguir categorias e aprender relações simples entre acontecimentos. Existe, portanto, uma diferença entre identificar o que acontece e explicar por que acontece. Grande parte da nossa relação com o ambiente depende da primeira capacidade. Reconhecemos alimentos, animais, pessoas e objetos. Também aprendemos regularidades: determinados sons anunciam determinados acontecimentos, certas ações produzem certos resultados e algumas situações costumam ser seguidas por outras. Essas capacidades possuem uma longa hi...

Quanto mais coerente uma teoria, mais próxima da verdade?

Quando uma teoria consegue explicar muitos fatos sem entrar em contradição, nossa confiança nela tende a aumentar. Quanto mais elementos parecem se encaixar, mais difícil parece acreditar que tudo aquilo esteja errado. Mas uma teoria mais coerente não está necessariamente mais próxima da verdade. Imagine que dez pessoas afirmem ter visto uma árvore no mesmo lugar. Se cada uma chegou ali de maneira independente e observou a árvore, a concordância entre os relatos aumenta bastante nossa confiança de que ela existe. Agora imagine que apenas a primeira pessoa tenha visto a suposta árvore. As outras nove simplesmente repetiram o que ouviram dela. Continuamos tendo dez relatos perfeitamente coerentes entre si, mas não dez evidências da existência da árvore. Temos apenas uma evidência sendo reproduzida dez vezes. O mesmo problema pode ocorrer com sistemas de ideias. Podemos partir de uma premissa falsa e construir sobre ela uma enorme quantidade de crenças compatíveis entre si. Cada nova cren...

Por que “fazer o diabo para ganhar uma eleição” pode destruir uma nação?

Uma sociedade não se mantém unida apenas por leis, fronteiras ou instituições. Para que milhões de pessoas que não se conhecem aceitem viver sob as mesmas regras, é necessário algum grau de confiança. Essa confiança aparece de maneira particularmente clara nos contratos. Quando duas pessoas estabelecem um acordo, cada uma aceita assumir obrigações porque acredita que a outra também estará submetida ao que foi combinado. O contrato permite, assim, que pessoas que talvez nem confiem umas nas outras pessoalmente possam cooperar. O mesmo princípio vale para regras estabelecidas entre grupos. Se diferentes partes concordam previamente com determinadas condições, espera-se que elas continuem válidas mesmo quando, posteriormente, uma delas se torna inconveniente. Afinal, uma regra que só vale enquanto produz o resultado desejado por quem tem poder deixa de cumprir justamente a função para a qual foi criada. Uma disputa eleitoral torna esse problema especialmente evidente. Existe uma tentação ...

Como elaborar uma rotina racional?

Ter um propósito de vida não é suficiente para realizá-lo. É necessário organizar nossas ações cotidianas de modo que elas contribuam para aquilo que consideramos importante. Uma rotina pode cumprir essa função ao estabelecer prioridades e distribuir nossos esforços ao longo do tempo. O primeiro passo para elaborar uma rotina racional é identificar os objetivos que consideramos prioritários. Nem tudo o que desejamos possui a mesma importância, e nossos recursos são limitados. Tempo, energia e atenção que dedicamos a uma atividade deixam de estar disponíveis para outras. Por isso, organizar uma rotina envolve decidir quais objetivos merecem receber a maior parte desses recursos. Em seguida, precisamos identificar quais atividades podem contribuir para esses objetivos. Não basta saber o que queremos alcançar. Precisamos perguntar quais ações aumentam as chances de alcançar cada objetivo e quanto tempo e esforço elas exigem. A partir dessas informações, podemos distribuir as atividades ao...

Como descobrir seu propósito de vida?

Perguntar qual é o propósito de nossa vida é uma consequência natural de nossa capacidade de refletir sobre a própria existência. Não nos limitamos a agir. Também podemos perguntar por que fazemos o que fazemos e que tipo de vida queremos construir. Uma maneira de investigar essa questão é observar a relação entre nossos interesses, nossas capacidades e as necessidades do mundo ao nosso redor. Em primeiro lugar, podemos perguntar: o que eu estaria disposto a fazer mesmo sem receber por isso? A pergunta não pretende sugerir que devamos trabalhar gratuitamente, mas identificar atividades que possuem valor para nós independentemente de sua recompensa externa. Em seguida, podemos perguntar: em quais dessas atividades consigo utilizar minhas melhores qualidades? Uma atividade pode despertar nosso interesse sem necessariamente corresponder àquilo que fazemos melhor. O propósito tende a adquirir maior consistência quando nossos interesses encontram capacidades que podemos desenvolver e coloca...

O propósito de vida pode tornar a felicidade mais intensa?

Se a felicidade é um tipo de alegria que surge quando sentimos orgulho do resultado de uma decisão consciente, ela não precisa ter sempre a mesma intensidade. Podemos nos orgulhar de uma decisão simples e, em outras ocasiões, experimentar um orgulho muito mais profundo diante de algo que consideramos especialmente importante. Uma possível explicação está na relação entre o resultado de nossas decisões e aquilo que consideramos o propósito de nossa vida. Aristóteles compreendia a vida humana a partir de uma função própria: desenvolver e exercer racionalmente as capacidades que nos caracterizam, o que se realiza por meio da prática das virtudes. Essa ideia oferece uma referência geral para pensar o que significa viver bem. Mas ela não determina, por si só, aquilo que cada pessoa considera sua contribuição específica no mundo. Cada indivíduo possui interesses, capacidades, relações e circunstâncias particulares. A partir deles, podemos identificar atividades e responsabilidades que assume...

O trabalho enobrece o homem?

Costumamos dizer que o trabalho enobrece o homem. Mas em que sentido o trabalho pode nos tornar melhores? Certamente não é o simples fato de trabalhar que possui esse efeito. Algumas formas de trabalho podem ser repetitivas, pouco desafiadoras ou até prejudiciais ao desenvolvimento de nossas capacidades. Se o trabalho pode nos enobrecer, isso parece depender daquilo que fazemos enquanto trabalhamos. Como vimos no ensaio sobre as virtudes, o agir racional envolve o exercício das virtudes morais e intelectuais. O trabalho pode contribuir para esse desenvolvimento quando oferece oportunidades para que essas capacidades sejam exercitadas e aprimoradas. Isso não significa que os chamados trabalhos intelectuais sejam necessariamente superiores aos trabalhos manuais ou operacionais. A natureza da profissão, por si só, diz pouco sobre as capacidades que ela exige. Um trabalho aparentemente simples pode exigir grande domínio técnico, discernimento e capacidade de tomar decisões, enquanto uma at...

Postagens mais visitadas deste blog

Quais são os pontos fortes e fracos do estoicismo?

Como é a estrutura da evolução do saber humano?

O que é um bom ser humano?