Por que as pessoas riem?

Uma característica recorrente das situações engraçadas é a incongruência. Algo acontece de uma maneira diferente daquela que esperávamos: alguém tropeça, uma frase assume um significado inesperado ou duas ideias que normalmente não relacionamos são colocadas juntas. Percebemos que há algo estranho e tentamos compreender o que está acontecendo.

A incongruência, porém, não basta para produzir riso. Algo pode ser inesperado e simplesmente permanecer incompreensível. O humor parece exigir que consigamos encontrar uma interpretação que resolva a estranheza.

Mas isso ainda não explica por que rimos. A solução de um problema, por exemplo, também pode produzir prazer sem ser engraçada. A diferença parece estar na natureza da solução. No humor, compreendemos a incongruência de uma maneira esdrúxula: descobrimos uma relação inesperada entre elementos que, depois de conectados, passam a fazer sentido, mas de uma maneira absurda ou inusitada.

É o que acontece em uma piada. Sua construção nos conduz inicialmente a uma interpretação. A conclusão introduz algo que não se encaixa nela e nos obriga a reorganizar o que acabamos de compreender. Quando percebemos a nova relação entre os elementos, a situação deixa de ser apenas estranha: torna-se engraçada.

Essa característica também explica por que nem toda surpresa provoca riso. Uma revelação inesperada pode produzir medo, tristeza ou admiração. O que distingue a surpresa humorística é que sua resolução transforma uma incongruência em uma configuração simultaneamente inteligível e esdrúxula.

O prazer produzido por essa compreensão pode explicar a passagem da compreensão ao riso. A mente encontra algo que inicialmente não consegue integrar, identifica subitamente uma relação que o torna compreensível e experimenta o prazer dessa descoberta. No humor, essa descoberta é particularmente rápida e produz uma configuração suficientemente inusitada para que o prazer se manifeste de maneira intensa no riso.

Essa explicação não precisa valer para todas as formas de riso. O riso provocado por cócegas, por exemplo, parece envolver um mecanismo diferente, assim como o riso que ocorre simplesmente porque outras pessoas estão rindo.

Ainda assim, para o riso provocado pelo humor, é possível propor uma sequência simples: uma incongruência chama nossa atenção; sua resolução revela uma relação esdrúxula; a compreensão dessa relação produz prazer; e esse prazer se manifesta no riso.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

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