O poder corrompe?

“Conhecimento é poder.” A frase é frequentemente atribuída a Francis Bacon e expressa uma ideia bastante plausível: conhecer alguma coisa aumenta nossa capacidade de prever o que acontecerá e, em alguma medida, de produzir os acontecimentos que desejamos. Quem conhece as propriedades de determinados materiais pode construir; quem conhece uma doença pode tratá-la; quem compreende o comportamento de outras pessoas pode influenciá-las. O conhecimento, portanto, amplia nossa capacidade de agir sobre a realidade.

Mas há uma consequência curiosa se combinarmos essa ideia com outra máxima bastante conhecida: “o poder corrompe.” Se conhecimento é poder e o poder corrompe, deveríamos esperar que pessoas que adquirem muito conhecimento se tornassem moralmente piores. No entanto, não é isso que observamos. Muitos filósofos, cientistas e outros intelectuais possuem enorme poder epistêmico sem que isso os torne, por essa razão, pessoas moralmente corrompidas.

Isso sugere que há algo errado com a ideia de que o poder, simplesmente por ser poder, corrompe.

É importante, antes de tudo, distinguir diferentes sentidos de poder. O conhecimento pode nos dar poder para prever e produzir acontecimentos, mas isso não significa necessariamente poder para dominar outras pessoas. Saber como construir uma ponte é uma forma de poder; governar uma cidade é outra. A primeira amplia nossa capacidade de produzir determinado resultado; a segunda envolve, entre outras coisas, a capacidade de determinar o comportamento de outras pessoas. Chamar ambas de “poder” é legítimo, mas não devemos concluir que produzam necessariamente os mesmos efeitos psicológicos.

A partir dessa distinção, podemos perguntar se pelo menos o poder político tende a corromper. Há uma razão para pensar que sim: o poder amplia as oportunidades de agir de acordo com os próprios desejos. Uma pessoa ambiciosa, por exemplo, pode ter poucas possibilidades de impor seus interesses quando não possui autoridade. Se adquirir grande poder político, suas possibilidades aumentam enormemente. O mesmo vale para uma pessoa vingativa, desonesta ou cruel. O poder pode transformar disposições que antes tinham efeitos limitados em ações capazes de afetar muitas pessoas.

Mas isso não significa que o poder tenha produzido essas disposições.

Essa distinção é fundamental. Uma coisa é produzir uma disposição; outra é aumentar a capacidade de agir de acordo com uma disposição já existente. O poder pode fazer a segunda sem fazer necessariamente a primeira.

Imagine, por exemplo, duas pessoas: uma justa e outra injusta. Nenhuma possui poder significativo. A primeira encontra poucas oportunidades de exercer sua justiça em grande escala; a segunda encontra poucas oportunidades de exercer sua injustiça. Se ambas adquirirem poder, suas possibilidades de ação aumentam. A pessoa justa poderá fazer mais coisas boas; a pessoa injusta poderá fazer mais coisas ruins.

A máxima “o poder corrompe”, portanto, parece forte demais se for entendida como uma relação necessária entre poder e corrupção moral. O poder aumenta a capacidade de uma pessoa produzir determinados efeitos. Quando essa capacidade encontra disposições viciosas, os efeitos podem ser devastadores. Quando encontra disposições virtuosas, pode permitir a realização de grandes bens.

O poder, portanto, não necessariamente corrompe. Ele amplia a capacidade de agir (para o bem ou para o mal).

Gostou desta reflexão? No Ensaios de um Polímata, minhas ideias são reunidas e organizadas em uma sequência didática para formar uma visão mais ampla sobre a mente humana, a sociedade e grandes questões da filosofia.

Conheça o livro

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quais são os pontos fortes e fracos do estoicismo?

O que é um bom ser humano?

Como é a estrutura da evolução do saber humano?