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Mostrando postagens de junho, 2026

O que seria a terceira via política?

Quando pensamos em política, normalmente imaginamos um espectro que vai da esquerda à direita. Essa forma de organizar o debate parece tão natural que raramente nos perguntamos de onde ela surgiu. Na verdade, sua origem foi bastante circunstancial. Durante a Revolução Francesa, os defensores da preservação da ordem existente sentavam-se à direita da Assembleia, enquanto os favoráveis a mudanças mais profundas sentavam-se à esquerda. A partir daí, "direita" e "esquerda" passaram a designar formas distintas de compreender a organização da sociedade. Mas será que essa divisão continua sendo suficiente? Mesmo as classificações políticas mais sofisticadas (como a distinção entre progressistas, libertários e conservadores) continuam partindo de pressupostos diferentes sobre quais valores o Estado deve priorizar. Talvez, porém, a pergunta devesse vir antes disso: qual deve ser a finalidade da organização política? O que cada tradição procura proteger? O psicólogo Jona...

Vícios podem gerar riqueza, mas não uma boa sociedade

Uma das ideias mais influentes da economia moderna é a de que uma sociedade constituída por indivíduos que buscam quase sempre o seu próprio bem pode gerar bons resultados coletivos. Essa intuição aparece de forma provocativa em Bernard Mandeville e ganha sofisticação em Adam Smith, especialmente com a metáfora da “mão invisível”. A tese geral é simples: mesmo quando indivíduos priorizam seus interesses em quase todas as decisões, o sistema econômico pode produzir prosperidade geral. O padeiro não faz pão por altruísmo, mas para lucrar; ainda assim, sua ação contribui para o bem-estar de todos. A ordem social, nesse sentido, não dependeria da prática das virtudes, em especial, da generosidade, mas de incentivos bem organizados. Mandeville levou essa ideia ao extremo ao sugerir que certos “vícios privados” podem gerar “benefícios públicos”. O consumo excessivo, a ambição e o luxo, por exemplo, alimentariam a circulação de riqueza e o dinamismo econômico. Adam Smith, embora rejeite o t...

Três erros essenciais da teoria marxista

O marxismo exerceu enorme influência sobre a política, a economia e a filosofia dos últimos dois séculos. Mesmo hoje, muitas críticas ao capitalismo continuam partindo de conceitos formulados por Karl Marx. Apesar de sua importância histórica, acredito que a teoria marxista contém pelo menos três erros fundamentais. Esses erros não estão apenas em detalhes de sua análise econômica, mas em pressupostos mais profundos sobre a natureza humana e sobre a organização da sociedade. 1. A ideia de que o lucro depende da exploração Um dos pilares da teoria marxista é a noção de mais-valia. Segundo Marx, o lucro do capitalista surge da apropriação de trabalho não pago do trabalhador. Em outras palavras, o empregado produz mais valor do que recebe em salário, e essa diferença é apropriada pelo empregador na forma de lucro. O problema dessa interpretação é que ela pressupõe que o lucro só pode existir quando há exploração. Mas isso parece falso. Imagine um programador que aceita voluntariame...

O problema do liberalismo nos costumes

Uma das maiores conquistas da modernidade foi reconhecer que o Estado não deve impor arbitrariamente uma tradição ou uma concepção específica de vida boa aos seus cidadãos. Essa preocupação deu origem ao liberalismo político, uma tradição que buscou proteger a liberdade individual contra formas excessivas de autoridade moral, religiosa e política. Nesse sentido, o liberalismo surgiu como uma resposta legítima a um problema real. Em sociedades tradicionalistas, as pessoas frequentemente eram educadas para obedecer a normas e costumes sem questioná-los. A autoridade da tradição substituía o julgamento individual. Em vez de formar pessoas capazes de refletir por si mesmas, essas sociedades tendiam a reproduzir comportamentos por meio da conformidade. Contudo, ao tentar corrigir esse problema, o liberalismo pode ter criado outro. O que é o liberalismo? O filósofo Robert Talisse identifica cinco compromissos centrais do liberalismo: Primazia do indivíduo: o indivíduo é a unidade fundamen...

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