Humanos envelhecem de um jeito estranho

Há algo estranho no envelhecimento humano: podemos conservar um corpo fisicamente ativo e relativamente jovem por muitos anos, mas o rosto frequentemente revela nossa idade de maneira muito mais evidente. Rugas, perda de elasticidade, flacidez e alterações na estrutura da pele podem transformar profundamente a aparência do rosto de uma pessoa mesmo quando ela mantém boa condição física.

A comparação com outras espécies torna essa conclusão menos óbvia. Um tubarão de 20 anos não necessariamente parece um animal velho. Muitas tartarugas que vivem por décadas também conservam uma aparência que reconhecemos simplesmente como adulta. Elas envelhecem, mas o envelhecimento não se manifesta visualmente da mesma maneira que em nós. O envelhecimento, portanto, não possui uma única forma determinada pela passagem do tempo.

Isso deveria nos tornar mais cuidadosos ao falar sobre aquilo que é “natural”. O fato de uma característica ser comum entre os seres humanos não demonstra que todas as suas manifestações sejam inevitáveis. Se diferentes espécies envelhecem de maneiras diferentes, ainda precisamos explicar por que o nosso organismo envelhece dessa maneira específica.

Minha hipótese sobre esse fenômeno é de natureza nutricional e parte de uma diferença importante entre nós e outros animais: podemos escolher aquilo que consumimos. Um cavalo não precisa decidir se deve comer grama. Um animal selvagem não precisa escolher entre alimentos produzidos pela própria espécie, nem decidir em que quantidade consumi-los. Seu comportamento alimentar é fortemente limitado por sua biologia e pelo ambiente em que evoluiu.

Nós escapamos parcialmente dessas limitações. A agricultura ampliou enormemente nossas possibilidades alimentares; a industrialização ampliou-as ainda mais. Nossa capacidade de reflexão e nossa cultura permitem que escolhamos alimentos que não existiam no ambiente ancestral, em quantidades que também podem não corresponder às condições nas quais nosso organismo evoluiu. A mesma capacidade que nos permite modificar o ambiente pode, portanto, fazer com que criemos ambientes aos quais nosso corpo não está perfeitamente adaptado.

Isso torna a alimentação uma hipótese relevante para compreender a maneira como envelhecemos. Não porque esteja demonstrado que determinado alimento ou nutriente seja responsável pelas rugas ou pela perda de elasticidade da pele, mas porque sabemos que a nutrição interfere em processos metabólicos relacionados ao envelhecimento. É razoável, portanto, perguntar se parte das características que consideramos normais do envelhecimento humano pode depender também daquilo que estamos habituados a comer.

Essa pergunta se torna especialmente interessante quando observamos que a aparência do envelhecimento nem sempre acompanha o corpo como um todo. Uma pessoa pode preservar boa musculatura enquanto apresenta alterações faciais bastante marcantes. Se o envelhecimento fosse apenas consequência do desgaste geral causado pelo tempo ou pela falta de atividade física, essa dissociação entre a aparência do corpo e do rosto seria menos evidente.

Também deveríamos questionar alguns pressupostos nutricionais contemporâneos. A cultura atual frequentemente associa uma alimentação saudável ao consumo elevado de proteína, embora as necessidades proteicas humanas sejam muito menores do que essa imagem popular sugere. Nossa fisiologia possui mecanismos como a autofagia, pelos quais componentes celulares, em especial aqueles de natureza proteica, são degradados e reciclados.

Isso levanta uma questão interessante: será que uma disponibilidade constantemente elevada de determinados nutrientes favorece processos diferentes daqueles que ocorreriam em um organismo submetido a períodos mais frequentes de escassez?

Não sabemos ainda se a alimentação moderna explica o envelhecimento visível do rosto, nem se nossos ancestrais possuíam uma dieta ideal. Mas aquilo que hoje consideramos uma alimentação normal é, em muitos aspectos, historicamente excepcional. Essa excepcionalidade pode ser uma das condições que ajudam a explicar por que envelhecemos de uma maneira tão diferente de outras espécies.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.

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