Por que as ciências sociais precisam da Psicologia?
A Psicologia está engatinhando, e isso não ocorre porque seja uma ciência recente, mas porque ainda não possui uma compreensão suficientemente sólida da natureza humana. E enquanto a Psicologia estiver engatinhando, as ciências sociais estarão rastejando.
Uma ciência do comportamento precisa explicar por que os organismos que estuda possuem determinadas características. No caso humano, isso exige considerar que nossa mente é produto de um processo evolutivo. Nossos mecanismos psicológicos não surgiram ao acaso: foram moldados por pressões que favoreceram determinadas formas de percepção, motivação, emoção e comportamento. Uma explicação psicológica que ignora essa história pode descrever o funcionamento de um mecanismo sem explicar adequadamente por que uma mente humana possui esse mecanismo.
Esse problema aparece quando teorias psicológicas são construídas a partir de hipóteses complexas sobre o funcionamento da mente sem que se examine se esses mecanismos são compatíveis com aquilo que sabemos sobre sua evolução. A teoria pode ser internamente coerente e até organizar determinados fenômenos, mas isso não basta para estabelecer que constitui uma boa explicação da natureza humana. É preciso perguntar também que função o mecanismo teria desempenhado, em que condições poderia ter sido selecionado e por que seria esperado encontrá-lo em nossa espécie.
A psicologia evolucionista contribui justamente para esse problema ao colocar a evolução no centro da explicação psicológica. Ela não precisa substituir todas as outras abordagens da Psicologia. Seu papel mais fundamental é fornecer uma concepção da mente compatível com a história evolutiva da espécie e, assim, estabelecer restrições para as explicações sobre o comportamento humano.
Essa questão se torna ainda mais importante nas ciências sociais. Instituições, normas, relações de cooperação, conflitos e sistemas políticos são produzidos e mantidos por indivíduos dotados de determinadas capacidades psicológicas. Se não compreendemos adequadamente essas capacidades, nossas explicações sobre os fenômenos sociais partem de uma concepção incompleta do indivíduo.
As ciências sociais podem, evidentemente, descobrir regularidades próprias de seu nível de análise. Mas essas regularidades não tornam dispensável uma teoria sobre os mecanismos psicológicos que tornam possíveis os comportamentos que elas estudam. Quanto mais inadequada for nossa compreensão da natureza humana, mais frágeis serão as teorias construídas sobre o comportamento social.
Por isso, o avanço das ciências sociais depende, em parte, do avanço da Psicologia. E o avanço da Psicologia depende de uma explicação da mente humana que leve a sério sua origem evolutiva. Antes de compreender como os indivíduos constroem sociedades, precisamos compreender melhor os indivíduos que as constroem.
Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.
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