Como nascem as teorias políticas utópicas?
Ao longo da história, surgiram inúmeras propostas de sociedades perfeitas. Algumas prometem eliminar conflitos. Outras garantem igualdade completa, harmonia permanente ou cooperação universal.
Mas existe um problema comum a muitas delas.
Antes de imaginar como uma sociedade deveria funcionar, toda teoria política precisa responder a uma pergunta muito mais básica: como os seres humanos realmente são?
Se essa resposta estiver errada, toda a teoria construída sobre ela corre o risco de se tornar uma utopia.
O primeiro passo para construir uma utopia
Uma maneira clássica de criar uma teoria política utópica é imaginar que a natureza humana seja praticamente uma folha em branco.
Se as pessoas fossem inteiramente moldadas pelo ambiente, bastaria transformar as instituições para transformar completamente os indivíduos.
Durante muito tempo essa ideia foi bastante influente.
Hoje, porém, as evidências da psicologia do desenvolvimento e da psicologia evolutiva apontam em outra direção.
Pesquisas mostram que bebês já chegam ao mundo com predisposições para interpretar tanto o ambiente físico quanto o ambiente social. Desde muito cedo, distinguem comportamentos de ajuda e de prejuízo e tendem a preferir aqueles que cooperam aos que dificultam a ação dos outros.
Isso não significa que nascemos prontos.
Significa apenas que a educação trabalha sobre uma natureza humana que já possui características próprias.
O segundo passo: ignorar aquilo que todos temos em comum
Outro ingrediente frequente das utopias é desconsiderar tendências que aparecem repetidamente em praticamente todas as sociedades humanas.
Entre elas estão:
a tendência à cooperação recíproca;
a disposição para punir trapaceiros;
a formação de vínculos mais fortes com pessoas próximas;
a criação de grupos e identidades coletivas;
o surgimento de lideranças e hierarquias de prestígio.
Essas características não tornam nosso comportamento inevitável.
Elas apenas mostram que qualquer teoria política precisa levá-las em consideração.
Uma sociedade não deixa de formar grupos apenas porque alguém considera o tribalismo indesejável.
Da mesma forma, eliminar formalmente uma hierarquia não significa eliminar a tendência humana de reconhecer pessoas mais competentes ou influentes em determinadas atividades.
O terceiro passo: acreditar que basta mudar as instituições
Se acreditarmos que a natureza humana pode ser completamente reconstruída, torna-se tentador imaginar que qualquer comportamento indesejável desaparecerá depois de uma grande transformação social.
Nesse raciocínio, bastaria eliminar determinadas instituições para eliminar também os problemas que elas supostamente produzem.
Mas a realidade costuma ser mais complexa.
Instituições influenciam profundamente o comportamento humano, mas não criam uma nova natureza.
Elas podem fortalecer ou enfraquecer predisposições que já existem, estimular certas virtudes ou certos vícios, criar incentivos melhores ou piores. O que não podem fazer é transformar completamente aquilo que somos.
O verdadeiro desafio
Isso não significa que mudanças sociais sejam inúteis.
Muito pelo contrário.
Instituições importam (e muito).
Elas moldam hábitos, valores, incentivos e oportunidades de desenvolvimento.
O desafio é outro: construir instituições compatíveis com a natureza humana, ao mesmo tempo em que favoreçam o desenvolvimento de suas melhores capacidades.
Uma boa teoria política não parte da ideia de que as pessoas já nascem prontas, nem de que podem ser completamente reinventadas.
Ela reconhece que os seres humanos possuem predisposições naturais, mas também uma extraordinária capacidade de aprender, desenvolver virtudes e aperfeiçoar seu modo de viver.
Talvez seja justamente esse o maior erro das utopias: não acreditar no desenvolvimento humano, mas na substituição da própria natureza humana.
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