O que esperamos de um líder?
Os seres humanos não rejeitam necessariamente diferenças de autoridade, reconhecimento ou privilégio; aceitam-nas quando parecem corresponder a diferenças relevantes de competência. O problema não é simplesmente alguém ocupar uma posição superior, mas se há razões para que a ocupe e se sua atuação corresponde às expectativas associadas à posição.
Uma distinção útil para compreender esse fenômeno é aquela entre status de dominação e status de prestígio. A dominação baseia-se na capacidade de impor custos aos demais; o prestígio, no reconhecimento de habilidades ou conhecimentos que os outros consideram valiosos. No primeiro caso, segue-se alguém porque ele pode obrigar. No segundo, porque parece vantajoso ouvi-lo, imitá-lo ou recorrer à sua orientação. A liderança baseada em prestígio, portanto, não elimina a hierarquia, mas oferece uma razão para aceitá-la.
Essa razão, contudo, cria expectativas. Quem recebe autoridade em virtude de sua competência deve utilizá-la em benefício daqueles que a reconhecem. O privilégio associado a uma função pode ser tolerado enquanto parece corresponder a uma contribuição; quando a competência e a contribuição desaparecem, o mesmo privilégio pode passar a ser percebido como exploração. Quanto maior a autoridade, portanto, maior tende a ser a expectativa de contribuição e, consequentemente, de responsabilização pelos resultados.
Essa responsabilidade não significa que o líder deva controlar todas as variáveis que determinam um resultado, mas que não pode simplesmente transferir aos liderados as consequências das decisões pelas quais responde. Delegar tarefas não elimina a responsabilidade de quem coordena o trabalho. Por isso, tende a ser mal recebido quando um líder reivindica para si os méritos dos sucessos, mas atribui sistematicamente os fracassos àqueles que estão sob sua liderança.
Um técnico de futebol, por exemplo, que culpa exclusivamente os jogadores por uma derrota, ignorando sua própria escalação, estratégia e decisões, pode ser percebido como alguém que deseja exercer a autoridade sem assumir os custos que a acompanham. Reconhecer os erros dos liderados é compatível com a liderança; recusar-se a responder pelos resultados de suas próprias decisões, não.
Nesse sentido, a posição de liderança torna o comportamento do líder especialmente relevante. Aqueles que o seguem não observam apenas suas instruções, mas também como ele reage aos próprios erros, trata os demais e assume as consequências de suas decisões. Isso não exige infalibilidade. Um líder pode errar sem perder sua legitimidade; o problema surge quando os erros revelam incompetência persistente ou quando ele tenta preservar os benefícios da autoridade transferindo sistematicamente aos outros os custos que dela decorrem.
A liderança também exige mais do que competência técnica. Como suas decisões afetam os demais, espera-se do líder capacidade de julgamento: saber avaliar consequências, distinguir riscos relevantes de riscos insignificantes e determinar quando uma intervenção é necessária. Sua função não é apenas dar instruções, mas orientar aqueles que dependem de seu julgamento, fornecendo as informações e razões necessárias para que tomem melhores decisões. Isso é particularmente importante quando sua autoridade restringe a liberdade. Quanto maior a interferência sobre os outros, maior deve ser a justificativa para ela e a capacidade de demonstrar que é proporcional ao risco que pretende evitar.
A liderança baseada em prestígio depende, assim, de uma relação específica entre competência, contribuição e responsabilidade. As pessoas podem aceitar que alguns tenham mais autoridade porque esperam que suas capacidades produzam benefícios que justifiquem essa posição. Quando essa relação é preservada, a hierarquia pode ser percebida como funcional ao grupo. Quando a autoridade permanece, mas a competência, a contribuição ou a responsabilidade desaparecem, o prestígio tende a se transformar em privilégio e a liderança, em dominação.
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