Por que gostamos de sentir medo?

Somos provavelmente o único animal que paga para sentir medo.

Assistimos voluntariamente a filmes de terror, entramos em montanhas-russas e praticamos esportes nos quais um erro pode causar ferimentos graves. Por que fazemos isso?

Uma resposta comum é que essas atividades provocam uma descarga de adrenalina, aumentando nossa ativação fisiológica e fazendo com que nos sintamos mais alertas e vivos. Isso certamente ajuda a explicar parte da atração. Mas não parece explicar tudo. Se quiséssemos apenas aumentar a adrenalina, haveria maneiras muito mais simples de fazer isso.

O que torna o medo interessante é aquilo que acontece quando ele termina.

Em um filme de terror, não sentimos apenas medo. Também podemos sentir prazer com o alívio quando o personagem com quem nos identificamos escapa do perigo. Isso acontece porque, ao acompanhar uma história, passamos a nos identificar com seus personagens. Seus triunfos e fracassos adquirem importância para nós, mesmo sabendo que são fictícios.

O alívio pode ser entendido como uma forma particular de alegria: a alegria que surge quando percebemos que um resultado negativo esperado foi evitado. O medo nos apresenta a possibilidade de um dano; quando esse dano não acontece, percebemos que conseguimos escapar de algo ruim.

Os filmes de terror apresentam ainda uma possibilidade diferente.

Quando o personagem que consideramos um vilão sofre, podemos sentir prazer com seu infortúnio. É uma forma de schadenfreude, que pode ser entendida, nesse caso, como uma forma particular de alegria que surge quando percebemos que conseguimos, ainda que parcialmente, eliminar uma ameaça. Nossa mente pode interpretar a derrota ou o sofrimento do adversário como sinal de que o perigo foi eliminado, produzindo prazer com a percepção desse resultado positivo. Algo semelhante acontece quando o craque do time rival é expulso: o dano sofrido pelo adversário pode ser percebido como uma redução da ameaça e, por isso, como um resultado positivo para nós.

É justamente essa estrutura que também aparece nos esportes radicais.

Quem salta de paraquedas ou desce uma montanha em alta velocidade não experimenta apenas a excitação do perigo. Existe também o momento em que a atividade termina e a pessoa percebe: eu consegui.

Nesse caso, além do alívio, surge o prazer do orgulho, que é um tipo de alegria que sentimos quando percebemos um resultado positivo como consequência de nossas escolhas conscientes. O resultado não foi simplesmente a ausência de um desastre. Foi algo que a própria pessoa conseguiu realizar. Ela enfrentou uma situação difícil, foi capaz de superá-la e sentiu prazer ao perceber o sucesso de sua própria ação.

O reconhecimento dos outros pode acrescentar ainda outra fonte de prazer. Todos temos, ainda que inconscientemente, um desejo por status, e quando percebemos que alcançamos esse objetivo — por exemplo, ao receber um elogio — sentimos prazer com o reconhecimento. Um feito difícil pode demonstrar coragem, habilidade ou domínio de uma atividade, aumentando o prestígio daquele que o realizou e, sobretudo, proporcionando-lhe prazer ao perceber que conquistou o reconhecimento que desejava.

Assim, diferentes atividades que envolvem medo podem proporcionar prazer por razões diferentes.

No terror, podemos sentir prazer com o alívio de perceber que o perigo foi evitado e com a percepção de que conseguimos reduzir ou eliminar uma ameaça representada pelo vilão. Nos esportes radicais, podemos sentir prazer com o alívio de perceber que o perigo passou, com o orgulho de ter superado o desafio e, quando existe reconhecimento social, com a percepção de que conseguimos alcançar o status que desejávamos.

Isso também explica por que não procuramos simplesmente qualquer perigo.

Uma pessoa que gosta de filmes de terror não necessariamente gostaria de ser perseguida por um assassino. Quem pratica esportes radicais não necessariamente deseja sofrer um acidente. O que procuramos é uma situação em que o perigo possa ser enfrentado sem que suas consequências negativas sejam realmente sofridas.

No filme, o perigo é fictício. No esporte radical, ele é real, mas normalmente é cercado por habilidades, equipamentos e condições que tornam possível controlá-lo.

O que desejamos, portanto, não parece ser o medo em si.

Gostamos de experimentar o medo quando existe a possibilidade de superá-lo.

A atração pelo perigo pode ser, assim, menos uma busca pelo sofrimento do que uma busca pelo prazer que pode surgir quando conseguimos enfrentá-lo e superá-lo.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.

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