O gigante corcunda do senso comum

O senso comum reúne aquilo que uma sociedade considera suficientemente evidente para orientar suas decisões cotidianas. Ele é formado por conhecimentos acumulados ao longo do tempo, mas também por preconceitos, simplificações e erros. Por isso, não devemos tratá-lo nem como uma autoridade infalível, nem como algo que precisa ser inteiramente rejeitado.

A atitude mais racional é separar o que há de verdadeiro do que há de falso. Rejeitar uma ideia simplesmente porque ela pertence ao senso comum seria cometer o erro de jogar fora o bebê com a água do banho. O fato de uma crença ser compartilhada por muitas pessoas não prova que seja verdadeira, mas também não prova que seja falsa.

Essa distinção é fundamental para a inovação. Para enxergar mais longe, precisamos partir do conhecimento que já existe. Como observou Newton, podemos fazê-lo subindo aos ombros de gigantes. O senso comum também é um desses gigantes, embora seja um gigante corcunda: carrega consigo tanto conhecimentos que merecem ser preservados quanto erros que dificultam nossa visão.

Subir em seus ombros exige, portanto, duas capacidades. A primeira é reconhecer aquilo que o senso comum acertou, mesmo quando desejamos ir além dele. A segunda é ter independência suficiente para rejeitar aquilo que ele errou, mesmo quando essa rejeição desagrada às pessoas que nos cercam. Inovar exige não apenas conhecimento, mas também a disposição para contrariar o conformismo quando as razões nos obrigam a fazê-lo.

Poucos conseguem se colocar completamente acima das ideias de seu tempo. As crenças predominantes exercem uma influência que nem sempre percebemos, justamente porque estamos imersos nelas. Por isso, avançar o conhecimento exige indivíduos capazes de examinar criticamente aquilo que todos consideram evidente.

Mas a finalidade da inovação não é simplesmente substituir o senso comum por outro conjunto de ideias. É descobrir novas verdades que possam, com o tempo, ser incorporadas ao conhecimento compartilhado. Quando isso acontece, aquilo que antes exigia reflexão especializada pode tornar-se uma evidência disponível para todos.

O progresso do conhecimento depende, assim, de um movimento contínuo: conservar as verdades que recebemos, abandonar os erros que as acompanham e acrescentar novas verdades ao patrimônio comum. Talvez o gigante corcunda do senso comum nunca fique completamente ereto. Mas podemos torná-lo um pouco mais alto a cada geração.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.

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