O ser humano nasce mau?

A ideia de que o ser humano nasce bom é associada, sobretudo, a Jean-Jacques Rousseau, para quem seria a sociedade que acabaria por corrompê-lo. Mas será que o ser humano realmente nasce bom?

Durante muito tempo, eu tendia a pensar que sim, ou pelo menos que o ser humano nascia neutro. Afinal, é difícil olhar para um bebê e considerá-lo mau. Ele não parece perverso, cruel ou culpado por aquilo que faz. Mas talvez isso aconteça porque estamos usando a palavra “mau” em um sentido específico demais.

E se a maldade não significar, necessariamente, perversidade, mas a ausência daquilo que torna um ser capaz de funcionar bem?

Santo Tomás de Aquino oferece uma distinção interessante nesse sentido: “nenhum ente é dito mau enquanto é ente, mas na medida em que carece de ser”. Um homem pode ser chamado de mau quando carece de virtude, assim como um olho pode ser chamado de mau quando carece de uma visão adequada. O olho não é mau porque possui uma essência maligna, mas porque lhe falta algo que deveria possuir para desempenhar bem sua função.

Podemos pensar no ser humano da mesma maneira.

Uma criança não é má porque tem uma essência perversa. Ela é má, em um sentido muito diferente, porque ainda não desenvolveu suficientemente muitas das capacidades necessárias para agir bem. Ela ainda está desenvolvendo seu conhecimento, sua capacidade de controlar os próprios desejos, de avaliar adequadamente as consequências de suas ações e de agir de acordo com aquilo que sabe.

Nesse sentido, o ser humano nasce mau precisamente porque nasce imaturo.

Isso não significa que uma criança seja moralmente culpável por ser imatura. Seria absurdo exigir de alguém capacidades que ainda não teve oportunidade de desenvolver. A afirmação é outra: se chamarmos de “bom” aquilo que possui as disposições necessárias para funcionar adequadamente como ser humano, então o recém-nascido ainda está muito distante desse estado.

É justamente aqui que a perspectiva de Aristóteles se torna interessante. Não nascemos virtuosos, mas nascemos de tal maneira que podemos nos tornar virtuosos. A virtude precisa ser desenvolvida por meio de um processo de formação. O ser humano, portanto, não é um produto acabado no momento em que nasce.

Isso também muda a maneira como devemos compreender a maldade dos adultos.

Quando alguém pratica uma ação cruel, podemos simplesmente dizer que essa pessoa é má. Mas isso não explica muita coisa. Por que ela é má? O que há nela que tornou possível aquela ação?

Talvez falte conhecimento, em especial para prever com razoável precisão consequências significativas de suas ações. Talvez saiba o que deveria fazer, mas não consiga agir de acordo com aquilo que sabe, ou seja, lhe falte ter desenvolvido hábitos que a levem a agir de acordo com sua consciência.

Em todos esses casos, encontramos alguma espécie de deficiência. Isso me faz crer que uma frase clichê da psicologia seja verdadeira, a de que todo excesso esconde alguma falta. Em um sentido amplo, eu diria: falta de maturidade ou, mais especificamente, falta de virtudes.

Isso não significa que toda ação má possa ser reduzida a uma única causa ou que devamos encontrar uma justificativa para tudo aquilo que alguém faz. Significa apenas que chamar alguém de “mau” não encerra a investigação. Pelo contrário, deveria iniciá-la. 

Assim, se a maldade é, em alguma medida, uma deficiência, a pergunta mais importante deixa de ser simplesmente “quem é mau?” e passa a ser “o que falta nessa pessoa para que ela possa agir bem?”

Essa mudança também altera nossa compreensão da própria sociedade.

A sociedade não teria como principal tarefa impedir que seres humanos originalmente bons sejam corrompidos, mas ajudar seres humanos originalmente inacabados a desenvolver as capacidades que ainda não possuem. A criança não precisa apenas ser protegida de uma sociedade que poderia corrompê-la. Ela precisa também ser formada por uma sociedade capaz de ajudá-la a se tornar aquilo que ainda não é.

Em suma, entendo que a resposta mais precisa para a pergunta “o ser humano nasce bom ou mau?” seja: o ser humano nasce imaturo. Mas, se chamarmos de “mau” aquilo que carece das disposições necessárias para funcionar bem, então ele nasce mau. Não porque carregue uma essência perversa, mas porque ainda lhe faltam muitas das capacidades que precisará desenvolver para se tornar plenamente capaz de agir bem.

A maldade, nesse sentido, não é necessariamente aquilo que somos; é aquilo que ainda nos falta desenvolver.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

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