Uma pessoa pode saber mais do que outra?
Paulo Freire escreveu: “Não existe saber mais, ou saber menos: existem saberes diferentes”. A afirmação pode ser compreendida como o reconhecimento de que pessoas diferentes possuem conhecimentos diferentes. Mas, se ela pretende negar que uma pessoa possa saber mais do que outra sobre uma determinada questão, ela é falsa.
Imagine que João acredita que comer fast food diariamente não aumenta seus riscos à saúde e que os filhos devem obedecer aos pais simplesmente por serem mais velhos. Joana, por outro lado, acredita que o consumo frequente de fast food prejudica a saúde e que os filhos devem ser tratados com respeito. Não basta dizer que João e Joana possuem apenas saberes diferentes. Em questões como essas, algumas crenças correspondem melhor aos fatos do que outras. Joana pode, portanto, saber mais do que João sobre esses assuntos.
Isso não significa que uma pessoa saiba mais sobre tudo. João pode possuir conhecimentos que Joana não possui, e Joana pode superar João em diversas outras áreas. O ponto é que diferenças de conhecimento não são apenas diferenças entre perspectivas. Podemos também comparar crenças com a realidade e perguntar quais são mais bem justificadas e quais correspondem melhor aos fatos.
A realidade não se adapta ao que acreditamos sobre ela. Podemos atribuir às coisas o sentido que quisermos, mas as consequências de nossas ações dependem, em última instância, de como as coisas realmente são. Uma pessoa pode acreditar que colocar a mão no fogo não lhe causará dano e, em determinadas circunstâncias, até deixar de sentir dor por causa de uma alteração em sua percepção. Isso não impede que o fogo queime sua mão.
Reconhecer a existência de uma realidade objetiva não significa defender que devemos simplesmente aceitar aquilo que uma autoridade afirma ser verdadeiro. Esse foi um dos erros do tradicionalismo educacional: tratar o aluno como alguém que deve receber conteúdos prontos, em vez de desenvolver sua capacidade de raciocinar e decidir por si mesmo.
O relativismo pode surgir como reação a esse problema. Se não devemos aceitar uma afirmação apenas porque alguém a apresentou como verdadeira, parece tentador concluir que cada pessoa pode ter sua própria verdade. Mas essa solução abandona justamente uma segunda capacidade humana fundamental: a capacidade de ampliar nosso conhecimento sobre a realidade.
Somos capazes não apenas de formar nossas próprias crenças, mas de corrigir essas crenças quando encontramos razões e evidências melhores. Podemos aprender com outras pessoas, comparar explicações, testar hipóteses e acumular conhecimento. É por isso que algumas crenças podem ser melhores do que outras, e algumas pessoas podem saber mais do que outras.
Uma educação adequada precisa, portanto, desenvolver essas duas capacidades conjuntamente: a autonomia para pensar e decidir por si mesmo e a disposição para ampliar e corrigir o próprio conhecimento. A primeira nos protege da aceitação passiva da autoridade; a segunda, do relativismo que transforma diferenças de opinião em diferenças igualmente válidas sobre a realidade.
Educar seres humanos não deveria significar apenas ensiná-los a pensar por si mesmos. Deveria significar também ensiná-los a conhecer cada vez melhor aquilo sobre o qual precisam pensar.
Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.
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