O limite da ética aristotélica

Se não existe vida após a morte, por que alguém deveria se dedicar ao aperfeiçoamento da alma? Se a existência termina definitivamente com a morte, por que não aproveitar a vida intensamente enquanto ela durar, mesmo que isso signifique abandonar a virtude em favor de outros prazeres?

A pergunta parece colocar a ética diante de um problema difícil. Se depois da morte não existe nada, talvez não haja qualquer recompensa futura para quem passou a vida se esforçando para se tornar uma pessoa melhor. Por que, então, não escolher simplesmente aquilo que proporciona maior prazer enquanto estamos vivos?

Sêneca oferece uma resposta interessante. Ao discutir a utilidade da virtude, afirma que, vivo ou morto, o ser humano se beneficia dela. Podemos interpretar essa ideia de maneira bastante concreta: quanto mais desenvolvemos nossa capacidade de agir racionalmente, maior tende a ser nossa capacidade de tomar boas decisões e produzir resultados positivos durante a vida. Aperfeiçoar a alma, nesse sentido, não seria uma preparação para uma recompensa depois da morte, mas uma forma de viver melhor enquanto estamos vivos.

Essa resposta é forte, mas não parece suficiente.

Podemos imaginar alguém que reconheça todos esses benefícios e ainda assim prefira outros prazeres. Essa pessoa pode saber que determinados hábitos prejudicarão sua saúde, limitarão suas possibilidades futuras ou encurtarão sua vida. Pode até aceitar conscientemente essas consequências. Seu argumento seria simples: “Sei que uma vida virtuosa pode ser mais prudente e produzir melhores resultados no longo prazo, mas prefiro uma vida mais curta e intensa, repleta dos prazeres que considero mais desejáveis.”

Esse problema não atinge exatamente Epicuro, que também atribui grande importância à prudência e à escolha criteriosa dos prazeres. A dificuldade aparece com mais força diante de um hedonismo radical: a posição de alguém que, mesmo compreendendo os argumentos em favor da virtude, continua preferindo determinados prazeres a qualquer outra forma de realização.

É nesse ponto que Aristóteles oferece uma resposta diferente.

Para Aristóteles, o problema não pode ser reduzido à pergunta sobre quais escolhas produzem mais prazer. Precisamos primeiro perguntar o que significa realizar plenamente a natureza humana.

Se existe uma natureza humana e essa natureza possui capacidades próprias, então também podemos perguntar o que significa exercer essas capacidades de maneira excelente. O ser humano não é apenas um organismo capaz de experimentar prazer. Ele possui capacidades que o distinguem de outros animais, entre elas a racionalidade. Desenvolver e exercer essa capacidade de maneira excelente não seria apenas um meio para alcançar outros objetivos: seria parte da própria realização humana.

A virtude adquire, então, um significado mais profundo. Tornar-se corajoso, justo, temperante ou prudente não significa simplesmente adquirir técnicas para obter melhores consequências. Significa desenvolver as disposições necessárias para exercer racionalmente nossas capacidades e viver de acordo com aquilo que somos.

Nesse sentido, a resposta aristotélica não depende de uma vida após a morte. Mesmo que a existência termine com a morte, ainda faria sentido desenvolver nossas capacidades racionais e virtudes, porque é por meio delas que realizamos nossa natureza humana enquanto estamos vivos.

E há ainda um elemento importante: essa realização não precisa ser pensada como uma escolha entre virtude e prazer.

Para Aristóteles, a atividade excelente é acompanhada pelo prazer próprio dessa atividade. A vida virtuosa não exige, portanto, que abandonemos o prazer em nome de um bem completamente diferente. Ela pode proporcionar justamente o prazer que acompanha a realização das capacidades humanas.

Isso torna a posição aristotélica particularmente interessante. Uma pessoa não precisa escolher entre viver racionalmente e experimentar prazer. Ela pode encontrar prazer na própria excelência de suas atividades. A felicidade, nesse sentido, não é simplesmente a acumulação de experiências agradáveis, mas o prazer associado à realização de uma vida humana excelente.

Podemos enxergar aqui uma espécie de aposta aristotélica.

Se Aristóteles estiver correto e existir uma forma objetiva de realização humana fundada em nossa própria natureza, a vida virtuosa será superior não apenas porque produz boas consequências, mas porque realiza aquilo que somos. Além disso, essa realização será acompanhada pelo prazer próprio da felicidade.

Se Aristóteles estiver errado, a pessoa que dedicou sua vida à virtude ainda terá desenvolvido sua capacidade racional, realizado projetos, construído relações e experimentado os prazeres associados às suas atividades. Mas isso não demonstra que sua vida tenha sido superior à vida escolhida pelo hedonista. Demonstra apenas que a vida virtuosa também pode ser prazerosa.

E é justamente aqui que surge o limite.

Imagine novamente o hedonista que compreende perfeitamente o argumento aristotélico. Ele aceita que a racionalidade é uma característica distintiva do ser humano. Entende que a virtude desenvolve essa capacidade. Reconhece que a atividade virtuosa produz um prazer próprio. Mesmo assim, ele pode responder:

“Eu compreendo tudo isso. Mas prefiro os prazeres que escolhi.”

O que Aristóteles poderia responder?

Ele poderia dizer que essa pessoa está confundindo um bem aparente com um bem verdadeiro. Poderia argumentar que determinados prazeres são inferiores porque não correspondem à realização da natureza humana. Poderia insistir que a razão, quando funciona adequadamente, reconhece a superioridade da vida virtuosa.

Mas perceba o que aconteceu. A discussão já não é apenas sobre quais comportamentos produzem melhores consequências. Ela passou a depender de uma questão anterior: existe um bem humano objetivo, determinado pela natureza humana, que a razão é capaz de reconhecer?

Se a resposta for sim, a ética aristotélica ganha uma fundamentação poderosa. Não somos virtuosos simplesmente porque a virtude nos traz vantagens. Somos virtuosos porque uma vida virtuosa realiza nossas capacidades próprias e constitui, por isso, uma forma objetivamente superior de viver.

Se a resposta for não, entretanto, o argumento perde sua força normativa. Podemos continuar demonstrando que determinadas virtudes são úteis, que certas decisões são prudentes e que a vida virtuosa pode proporcionar prazeres importantes. Mas não teremos ainda demonstrado por que alguém deve preferir essa forma de vida quando conscientemente prefere outra.

É aí que aparece o verdadeiro limite da filosofia aristotélica.

Seu problema não é não conseguir explicar por que a virtude é valiosa. Pelo contrário: Aristóteles oferece uma das explicações mais profundas para isso. O problema é que sua explicação depende de uma determinada concepção da natureza humana, da finalidade das nossas capacidades e da existência de bens objetivos.

A filosofia pode mostrar as consequências de aceitar essas premissas. Pode mostrar que, se existe uma natureza humana dotada de uma finalidade própria, então determinadas formas de vida realizam melhor essa natureza do que outras. Pode mostrar também que a vida virtuosa não é inimiga do prazer, mas produz o prazer próprio de uma vida realizada.

O que ela não parece conseguir fazer é obrigar alguém que rejeita essas premissas a aceitá-las.

No fim, encontramos uma questão ainda mais fundamental do que “por que devemos ser virtuosos?”: a razão consegue nos obrigar a preferir um determinado tipo de vida?

A ética aristotélica responde afirmativamente, desde que exista um bem humano objetivo fundado em nossa natureza. Mas a própria defesa dessa resposta depende de uma metafísica que precisa ser aceita antes que a conclusão ética possa ser plenamente estabelecida.

Parece que nenhuma ética pode ser completamente fundamentada enquanto não soubermos o que acontece com o ser humano depois da morte.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

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