Como não ser manipulado?

Uma teoria sobre a evolução da inteligência humana sustenta que parte da pressão que levou ao desenvolvimento de nossas capacidades cognitivas veio da necessidade de lidar com outros indivíduos cada vez mais capazes de nos manipular. Para evitar ser explorado por membros do próprio grupo, era preciso compreender suas intenções e antecipar suas estratégias.

Essa pressão não desapareceu. Continuamos convivendo com pessoas capazes de identificar e explorar nossas inclinações psicológicas, mas hoje esse conhecimento pode ser utilizado de maneira deliberada para influenciar nossas decisões. Tendências ancestrais, como confiar no que uma autoridade afirma ou atribuir valor ao que outras pessoas disputam, podem ser exploradas para nos levar a acreditar, desejar ou fazer algo.

Conhecer essas inclinações é uma forma de proteção. O problema é que existem muitas delas, e cada uma pode exigir uma estratégia específica de defesa. É difícil transformar o conhecimento de dezenas de vieses em uma prática cotidiana de racionalidade.

Há, porém, uma estratégia mais geral: perguntar pelas razões de nossas crenças e desejos.

Se acredito em algo porque uma autoridade afirmou, posso perguntar: por que a autoridade dessa pessoa é relevante para essa questão? Se desejo algo porque percebo outras pessoas competindo por aquilo, posso perguntar: o que torna esse objeto desejável independentemente da competição?

Essas perguntas introduzem uma distinção fundamental. O fato de uma inclinação ter causado uma crença ou um desejo não significa que ela os justifique. Uma pessoa pode acreditar em uma afirmação porque uma autoridade a fez parecer verdadeira, mas isso não mostra que a afirmação seja verdadeira. Pode desejar algo porque percebeu outras pessoas disputando por aquilo, mas isso não demonstra que o objeto seja valioso.

Ser racional, nesse sentido, não consiste em deixar de sofrer influências. Isso seria impossível. Consiste em não tomar como razão aquilo que é apenas uma causa psicológica de nossas crenças e desejos.

A manipulação explora justamente a distância entre essas duas coisas. Ela procura produzir em nós determinadas respostas sem necessariamente fornecer razões que as justifiquem. Quanto mais habituados estivermos a perguntar por que acreditamos ou desejamos algo, mais difícil será conduzir nosso comportamento apenas pela exploração de nossas inclinações.

Conhecer nossos vieses é importante porque nos permite reconhecê-los. Mas o objetivo não deveria ser memorizar uma defesa para cada um deles. Deveria ser desenvolver o hábito mais geral de perguntar pelas razões que sustentam aquilo que acreditamos e desejamos.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

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