Podemos obrigar alguém a ser virtuoso?

Meu maior medo é perder a liberdade. Não apenas porque a liberdade permite escolher o que queremos fazer, mas porque ela é uma condição para o desenvolvimento das virtudes. Se não podemos escolher nossas ações, também perdemos a oportunidade de formar nosso caráter por meio delas.

Imagine que decidíssemos obrigar pessoas sedentárias a praticar exercícios porque seus hábitos aumentam, em média, os custos do sistema de saúde. A medida poderia produzir um resultado desejável: pessoas mais saudáveis. Mas haveria também uma perda que não aparece nas estatísticas de saúde. Ao retirar dessas pessoas a possibilidade de escolher entre exercitar-se ou não, estaríamos retirando também uma oportunidade de desenvolver a disciplina por meio de uma escolha própria.

Isso revela uma diferença entre produzir um comportamento e desenvolver uma virtude. Uma pessoa pode fazer exercícios porque foi obrigada e, ainda assim, não ser disciplinada. Pode agir corretamente porque teme uma punição e não porque reconhece que aquela ação é a mais adequada. A ação exterior pode ser a mesma, mas o caráter que a produz é diferente.

A história da moral religiosa oferece uma ilustração interessante. Durante séculos, sociedades impuseram normas morais por meio de autoridade, punições e recompensas, muitas vezes com a intenção sincera de tornar as pessoas melhores. Se a virtude pudesse ser produzida simplesmente pela imposição de comportamentos, depois de tanto tempo deveríamos viver em um mundo repleto de pessoas virtuosas.

Mas ninguém se torna virtuoso à força.

A virtude exige que a pessoa participe da própria formação moral. É preciso que ela reconheça razões para agir de determinada maneira, delibere sobre o que fazer e escolha agir de acordo com aquilo que considera correto. Sem essa participação, podemos produzir conformidade, mas não necessariamente virtude.

Se a finalidade da educação moral é formar pessoas capazes de escolher bem, então preservar sua capacidade de escolha não é um obstáculo à formação das virtudes. É uma de suas condições.

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