Existe uma cultura melhor que a outra?
O fato de diferentes culturas considerarem certas práticas corretas significa que não existe uma resposta objetivamente correta sobre como devemos viver? Essa é uma das principais implicações do relativismo cultural. Se os valores morais são determinados por cada sociedade, então não faria sentido dizer que uma cultura é melhor que outra. Poderíamos apenas dizer que suas práticas são diferentes.
O problema está em confundir aquilo que uma sociedade considera verdadeiro ou correto com aquilo que é verdadeiro ou correto.
Uma sociedade pode compartilhar amplamente uma determinada crença moral e, ainda assim, estar errada. Imagine, por exemplo, uma comunidade em que seja considerado moralmente aceitável matar um recém-nascido quando já existem dois filhos e não há outra pessoa capaz de assumir os cuidados da criança. A prática pode ter uma justificativa compreensível: em uma situação de fuga, os pais conseguiriam carregar apenas duas crianças, e a existência de uma terceira poderia comprometer a sobrevivência de todos.
Compreender essa justificativa não significa considerá-la correta. Podemos explicar por que determinada prática surgiu, quais problemas ela pretende solucionar e por que seus membros a consideram moralmente aceitável sem concluir que ela seja objetivamente boa.
Isso revela a diferença entre intersubjetividade e objetividade. O fato de uma crença ser compartilhada por muitas pessoas demonstra que ela é intersubjetiva, não que seja verdadeira. Se todos os membros de uma sociedade acreditassem que determinada substância cura uma doença, o consenso não faria com que ela realmente funcionasse. Da mesma maneira, o consenso moral não transforma uma prática em algo objetivamente correto.
Na verdade, a própria possibilidade de compreender outras culturas pressupõe que elas não vivem em uma realidade completamente diferente da nossa. Sociedades diferentes enfrentam problemas comuns: nascimento, morte, doença, escassez, violência, cooperação e conflito. Elas podem interpretar esses problemas de maneiras distintas, mas não existem diferentes realidades para cada cultura.
Nesse sentido, se existem verdades objetivas sobre aquilo que favorece ou prejudica a vida humana, então as práticas de uma sociedade podem ser avaliadas segundo essas verdades. E, se as culturas são constituídas, entre outras coisas, por conjuntos de práticas, podemos também compará-las.
Assim, uma cultura que desenvolve práticas que protegem melhor a vida, favorecem relações cooperativas, ampliam o conhecimento e permitem o desenvolvimento das capacidades humanas pode ser objetivamente superior, nesses aspectos, a uma cultura cujas práticas produzem resultados contrários.
Isso não significa que devamos avaliar outras culturas simplesmente a partir dos costumes da nossa própria sociedade. Há uma diferença entre usar os próprios costumes como padrão e usar a realidade como padrão.
Para compreender uma prática estrangeira, precisamos conhecê-la em seu próprio contexto. Precisamos entender as crenças que a sustentam, os problemas que ela pretende solucionar e o significado que possui para seus participantes. Mas compreender uma prática em seu contexto não nos impede de perguntar se ela é realmente boa.
E, se podemos avaliar objetivamente as práticas, podemos também agregá-las em uma avaliação geral da cultura. Uma cultura pode desenvolver excelentes práticas em determinado domínio e práticas desastrosas em outro. Pode possuir conhecimentos que desconhecemos e, ao mesmo tempo, manter costumes que produzem consequências gravemente prejudiciais para seus membros.
Por isso, dizer que uma cultura é melhor que outra não significa afirmar que todas as suas práticas são superiores. Significa que, depois de considerar a importância e os efeitos de suas diferentes práticas, podemos chegar a uma avaliação geral de seu desempenho. É possível, em princípio, ponderar essas práticas de acordo com sua relevância e comparar o resultado com o de outra cultura.
Assim como podemos avaliar o conjunto das capacidades de um indivíduo sem exigir que ele seja superior em todas elas, podemos avaliar o conjunto das práticas de uma cultura sem exigir que ela seja superior em todos os domínios.
A existência de diferenças culturais, portanto, não implica que todas as culturas sejam igualmente boas. Se existem verdades objetivas sobre aquilo que favorece ou prejudica a vida humana, então também existem culturas que, em seu conjunto, estão mais próximas de uma forma correta de organizar a vida humana do que outras.
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