Redes sociais não são o problema
O problema das redes sociais não está necessariamente naquilo que elas permitem, mas naquilo que esperamos que elas sejam. À medida que passaram a ocupar um lugar central na circulação de informações e na formação de crenças, começamos a exigir delas funções que pertencem a outras instituições. Queremos que eduquem, filtrem ideias ruins e favoreçam o conhecimento de qualidade. Mas circulação de ideias e formação do julgamento são atividades diferentes.
Redes sociais são espaços abertos de expressão, interação e confronto de ideias. Nelas, diferentes pessoas podem apresentar suas opiniões, contestar as opiniões de outras e entrar em contato com perspectivas que não encontrariam em seu círculo imediato. Por isso, ideias boas e ruins, informações verdadeiras e falsas, argumentos sofisticados e opiniões superficiais circulam lado a lado. Essa heterogeneidade não é uma anomalia que precisa ser eliminada. É uma consequência da abertura desses espaços.
A educação possui outra função. Educar não é simplesmente expor alguém a informações, mas formar sua capacidade de julgá-las. Isso exige estrutura, seleção de conteúdos, orientação, correção de erros e desenvolvimento gradual das capacidades intelectuais. Uma instituição educacional não existe apenas para colocar diferentes ideias diante de uma pessoa, mas para ajudá-la a adquirir os instrumentos necessários para avaliá-las.
Tratar redes sociais como extensões do sistema educacional, portanto, é um erro de categoria. Quando encontramos ideias falsas ou pouco fundamentadas nesses ambientes, somos tentados a corrigir o problema no próprio espaço de circulação: controlar conteúdos, restringir determinadas crenças ou estabelecer quais informações podem alcançar o público. Mas, nesse caso, uma instituição passa a assumir uma função que deveria pertencer ao julgamento dos próprios indivíduos.
Isso produz um problema adicional. Para proteger as pessoas de ideias ruins, concedemos a determinadas instituições ou plataformas o poder de decidir antecipadamente quais ideias elas poderão encontrar. O resultado pode ser menos liberdade de expressão, maior concentração de poder sobre a circulação das informações e redução das próprias oportunidades de confronto por meio das quais os indivíduos exercem seu julgamento.
Isso não significa que a desinformação seja irrelevante ou que todas as ideias devam ser consideradas igualmente boas. Significa apenas que um problema de formação não é necessariamente resolvido por meio do controle do ambiente informacional. Se pessoas são incapazes de distinguir argumentos bons de argumentos ruins, a solução mais profunda é desenvolver essa capacidade, e não simplesmente retirar de seu alcance aquilo que julgamos ser ruim.
A distinção entre as funções institucionais torna a alternativa mais clara. A educação deve formar as capacidades necessárias ao julgamento; os espaços públicos de interação devem permitir que essas capacidades sejam exercidas. Redes sociais podem ser ambientes imperfeitos, marcados por conflito, pluralidade e desigualdade na qualidade das informações, sem que por isso precisem ser transformadas em instituições educacionais.
Na verdade, o exercício do julgamento exige justamente a possibilidade de encontrar aquilo que precisa ser julgado. Uma pessoa não desenvolve plenamente sua capacidade crítica sendo exposta apenas a ideias previamente selecionadas como corretas. Ela precisa confrontar argumentos, reconhecer erros, comparar perspectivas e aprender a distinguir razões melhores de razões piores.
Isso é especialmente importante em uma sociedade democrática. Se as decisões coletivas dependem da formação e da expressão das crenças dos cidadãos, precisamos tanto de instituições capazes de formar seu julgamento quanto de espaços nos quais esse julgamento possa ser exercido livremente. A qualidade da vida pública depende da articulação entre essas duas funções, não da transformação de uma na outra.
O problema das redes sociais, portanto, não é simplesmente que nelas existam ideias ruins. Ideias ruins sempre existirão. O problema é não formar pessoas capazes de reconhecê-las.
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