Quando a coerência se torna um erro

Existe uma forma pouco percebida de viés: permanecer fiel às próprias escolhas passadas porque abandoná-las significaria admitir que foram ruins. Podemos continuar em um relacionamento, uma profissão ou um projeto não porque ainda os consideramos bons, mas porque desistir deles afetaria nossa reputação ou nosso status diante dos outros.

Nesse caso, a preocupação com coerência se transforma em uma forma de escravidão. Em vez de reavaliar aquilo que escolhemos, passamos a defender nossa escolha anterior para evitar admitir que erramos. Mas uma decisão ruim não se torna boa porque já investimos nela tempo, esforço ou reputação.

Se percebemos que uma escolha foi equivocada, devemos ser coerentes com aquilo que atualmente reconhecemos como correto, e não com aquilo que decidimos no passado. Mudar de opinião ou abandonar um caminho pode ser justamente a forma mais racional de preservar nossa autonomia.

A racionalidade exige, portanto, uma relação particular com nossas próprias decisões: devemos estar dispostos a mantê-las quando continuam justificadas e abandoná-las quando deixam de estar. Nossa coerência mais importante não é com aquilo que fomos, mas com aquilo que, depois de examinar as razões disponíveis, reconhecemos como correto.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.

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