O que torna uma regra intelectualmente boa?

Uma regra intelectualmente boa deve orientar nosso raciocínio sem determinar aquilo que ainda precisamos decidir. Ela pode chamar nossa atenção para aspectos relevantes de uma situação, mas deve deixar em aberto aquilo que depende de nosso julgamento.

Essa distinção ajuda a avaliar as regras propostas em 12 Regras para a Vida, de Jordan Peterson. Considere, por exemplo: “Assuma uma postura de enfrentamento aos desafios da vida”. A regra pode ser útil quando o medo nos leva a evitar uma situação que deveríamos enfrentar. Mas ela também pode limitar o raciocínio ao determinar antecipadamente como devemos responder aos desafios. Nem todo desafio deve ser enfrentado: diante de uma ameaça, por exemplo, escapar pode ser mais adequado do que confrontá-la. O medo, nesse caso, não precisa ser um obstáculo à ação; ele pode ser justamente a emoção que aumenta nossas chances de alcançar o fim de escapar da ameaça. Ao recomendar o enfrentamento como resposta aos desafios da vida, a regra pode, portanto, determinar antecipadamente um fim que ainda deveria ser objeto de deliberação.

Considere agora a regra: “Compare a si mesmo com quem você foi ontem, não com quem outra pessoa é hoje”. Ela chama atenção para problemas que podem surgir da comparação social, mas restringe um meio que pode ser útil em determinadas circunstâncias. Comparar-nos com outras pessoas pode nos ajudar a identificar virtudes, aprender com alguém ou estabelecer padrões de excelência. O problema não está na comparação em si, mas em determinar antecipadamente que ela não deve ser utilizada.

Já uma regra como “considere o que você pode estar deixando de levar em conta”, por exemplo, não determina o que devemos buscar nem como devemos agir. Ela apenas chama nossa atenção para uma possível falha no raciocínio. Depois disso, continuamos responsáveis por examinar a situação e decidir o que é relevante.

É nesse sentido que uma regra intelectualmente boa pode funcionar como um instrumento do próprio raciocínio: não oferece uma resposta pronta para cada situação, mas melhora nossa capacidade de perceber o que está em jogo e, a partir disso, decidir como agir.

Uma regra intelectualmente boa não é, portanto, aquela que simplesmente evita limitar o raciocínio, mas aquela que o orienta sem encerrar a deliberação.

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