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Mostrando postagens com o rótulo Epistemologia

Duas cabeças pensam melhor do que uma?

Costuma-se dizer que duas cabeças pensam melhor do que uma. Mas acrescentar uma pessoa a uma decisão não garante que ela se torne melhor. Para que isso aconteça, a segunda pessoa precisa ser capaz de contribuir de alguma maneira para a solução do problema. Essa contribuição não precisa consistir em maior inteligência ou conhecimento especializado. Uma pessoa pode possuir uma informação que as outras desconhecem, identificar um erro, conhecer melhor uma parte do problema ou apresentar uma perspectiva que ainda não havia sido considerada. O ganho está naquilo que cada participante acrescenta ao processo de decisão. O antropólogo Edwin Hutchins encontrou um exemplo interessante desse fenômeno ao estudar a navegação de um navio militar. As manobras complexas do navio não eram resultado do raciocínio de um único indivíduo. A tarefa era realizada pela coordenação entre diferentes membros da tripulação, suas funções e instrumentos como mapas, pontos de referência e sistemas de comunicação. A ...

Uma boa teoria pode ter exceções?

Costuma-se dizer que toda regra tem exceção. Para regras práticas, isso pode fazer sentido. Para uma teoria, porém, uma exceção pode ser um problema. Se encontramos um caso que contradiz o que a teoria prevê, não basta classificá-lo como excepcional. É preciso explicar por que ele ocorre e verificar se a teoria precisa ser modificada. Uma das maneiras pelas quais a filosofia faz isso é por meio de experimentos mentais. Em vez de realizar um experimento no mundo, imaginamos uma situação e examinamos o que determinada teoria implicaria se ela ocorresse. Casos-limite são especialmente úteis porque levam os princípios da teoria a situações extremas, tornando mais visíveis problemas que podem passar despercebidos em situações comuns. Considere uma teoria segundo a qual mentir é sempre moralmente errado. Podemos testá-la imaginando uma situação em que uma mentira seja necessária para impedir um assassinato. Se a teoria ainda considera a mentira errada, precisamos perguntar se estamos dispost...

Por que saber o que acontece não significa saber por que acontece?

Imagine duas bolas sobre uma mesa. A primeira se move, atinge a segunda e, logo depois, a segunda começa a se mover. Depois de observar situações semelhantes várias vezes, podemos aprender que o choque de uma bola contra outra pode colocá-la em movimento. Para aprender essa relação, não precisamos compreender por que isso acontece. Uma criança pode antecipar o movimento da segunda bola sem conhecer qualquer teoria física. Outros animais também são capazes de identificar objetos, distinguir categorias e aprender relações simples entre acontecimentos. Existe, portanto, uma diferença entre identificar o que acontece e explicar por que acontece. Grande parte da nossa relação com o ambiente depende da primeira capacidade. Reconhecemos alimentos, animais, pessoas e objetos. Também aprendemos regularidades: determinados sons anunciam determinados acontecimentos, certas ações produzem certos resultados e algumas situações costumam ser seguidas por outras. Essas capacidades possuem uma longa hi...

Quanto mais coerente uma teoria, mais próxima da verdade?

Quando uma teoria consegue explicar muitos fatos sem entrar em contradição, nossa confiança nela tende a aumentar. Quanto mais elementos parecem se encaixar, mais difícil parece acreditar que tudo aquilo esteja errado. Mas uma teoria mais coerente não está necessariamente mais próxima da verdade. Imagine que dez pessoas afirmem ter visto uma árvore no mesmo lugar. Se cada uma chegou ali de maneira independente e observou a árvore, a concordância entre os relatos aumenta bastante nossa confiança de que ela existe. Agora imagine que apenas a primeira pessoa tenha visto a suposta árvore. As outras nove simplesmente repetiram o que ouviram dela. Continuamos tendo dez relatos perfeitamente coerentes entre si, mas não dez evidências da existência da árvore. Temos apenas uma evidência sendo reproduzida dez vezes. O mesmo problema pode ocorrer com sistemas de ideias. Podemos partir de uma premissa falsa e construir sobre ela uma enorme quantidade de crenças compatíveis entre si. Cada nova cren...

Será que vale a pena se iludir?

Nem toda ilusão é imediatamente prejudicial. Uma crença pode ser falsa e, ainda assim, produzir efeitos que consideramos bons. Alguém que acredita que conseguirá superar uma dificuldade pode encontrar nessa expectativa a força necessária para continuar tentando. Nesse sentido, uma ilusão pode funcionar como combustível para a ação. Mas imagine uma pessoa perdida no deserto que avista uma miragem. A visão de água pode lhe dar forças para continuar caminhando. O problema aparece quando ela passa a orientar seus passos pela crença de que a água realmente está ali. A mesma ilusão que inicialmente lhe deu energia pode fazê-la desperdiçar suas últimas forças perseguindo algo que não existe. Isso revela uma diferença importante entre uma crença que nos motiva e uma crença que nos orienta. Para agir, precisamos de razões que nos levem a continuar. Mas, para escolher a direção correta, precisamos de uma representação suficientemente fiel da realidade. Uma crença falsa pode cumprir a primeira fu...

O gigante corcunda do senso comum

O senso comum reúne aquilo que uma sociedade considera suficientemente evidente para orientar suas decisões cotidianas. Ele é formado por conhecimentos acumulados ao longo do tempo, mas também por preconceitos, simplificações e erros. Por isso, não devemos tratá-lo nem como uma autoridade infalível, nem como algo que precisa ser inteiramente rejeitado. A atitude mais racional é separar o que há de verdadeiro do que há de falso. Rejeitar uma ideia simplesmente porque ela pertence ao senso comum seria cometer o erro de jogar fora o bebê com a água do banho. O fato de uma crença ser compartilhada por muitas pessoas não prova que seja verdadeira, mas também não prova que seja falsa. Essa distinção é fundamental para a inovação. Para enxergar mais longe, precisamos partir do conhecimento que já existe, subindo aos ombros dos gigantes que vieram antes de nós. O senso comum também é um desses gigantes, embora seja um gigante corcunda: carrega consigo tanto conhecimentos que merecem ser preser...

Quando a ciência vira religião

Não existe nada mais anti-científico do que afirmar que algo está “mais do que cientificamente comprovado”. A expressão parece transmitir confiança, mas contém uma contradição: se uma conclusão científica já não pode ser questionada, corrigida ou substituída, deixamos de tratá-la como uma conclusão científica e passamos a tratá-la como um dogma. A ciência não oferece respostas finais. Ela produz explicações sustentadas pelas melhores evidências disponíveis e permanece aberta à revisão quando surgem evidências melhores. Um consenso científico, portanto, não é sinônimo de verdade. É o resultado provisório de um processo pelo qual determinada explicação se torna mais bem sustentada do que suas alternativas. Isso não significa que todos os consensos sejam igualmente frágeis ou que devamos tratar qualquer opinião como equivalente a uma conclusão científica. Significa apenas que consenso e verdade são coisas diferentes. Esse processo é necessariamente lento. Hipóteses precisam ser formuladas...

Uma pessoa pode saber mais do que outra?

Pessoas diferentes possuem saberes diferentes. Isso é perfeitamente possível e, em muitos casos, desejável. O problema surge quando essa ideia é interpretada como a negação de que uma pessoa possa saber mais do que outra sobre uma determinada questão. Nesse sentido, a afirmação é falsa: em relação a um assunto específico, uma pessoa pode, sim, saber mais do que outra. Imagine que João acredita que comer fast food diariamente não aumenta seus riscos à saúde e que os filhos devem obedecer aos pais simplesmente por serem mais velhos. Joana, por outro lado, acredita que o consumo frequente de fast food prejudica a saúde e que os filhos devem ser tratados com respeito. Não basta dizer que João e Joana possuem apenas saberes diferentes. Em questões como essas, algumas crenças correspondem melhor aos fatos do que outras. Joana pode, portanto, saber mais do que João sobre esses assuntos. Isso não significa que uma pessoa saiba mais sobre tudo. João pode possuir conhecimentos que Joana não poss...

Por que as ciências sociais precisam da Psicologia?

A Psicologia está engatinhando, e isso não ocorre porque seja uma ciência recente, mas porque ainda não possui uma compreensão suficientemente sólida da natureza humana. E enquanto a Psicologia estiver engatinhando, as ciências sociais estarão rastejando. Uma ciência do comportamento precisa explicar por que os organismos que estuda possuem determinadas características. No caso humano, isso exige considerar que nossa mente é produto de um processo evolutivo. Nossos mecanismos psicológicos não surgiram ao acaso: foram moldados por pressões que favoreceram determinadas formas de percepção, motivação, emoção e comportamento. Uma explicação psicológica que ignora essa história pode descrever o funcionamento de um mecanismo sem explicar adequadamente por que uma mente humana possui esse mecanismo. Esse problema aparece quando teorias psicológicas são construídas a partir de hipóteses complexas sobre o funcionamento da mente sem que se examine se esses mecanismos são compatíveis com aquilo q...

Quando uma regra ajuda o pensamento?

Uma regra intelectualmente boa deve orientar nosso raciocínio sem determinar aquilo que ainda precisamos decidir. Ela pode chamar nossa atenção para aspectos relevantes de uma situação, mas deve deixar em aberto aquilo que depende de nosso julgamento. Essa distinção ajuda a avaliar as regras propostas em 12 Regras para a Vida , de Jordan Peterson. Considere, por exemplo: “Assuma uma postura de enfrentamento aos desafios da vida”. A regra pode ser útil quando o medo nos leva a evitar uma situação que deveríamos enfrentar. Mas ela também pode limitar o raciocínio ao determinar antecipadamente como devemos responder aos desafios. Nem todo desafio deve ser enfrentado: diante de uma ameaça, por exemplo, escapar pode ser mais adequado do que confrontá-la. O medo, nesse caso, não precisa ser um obstáculo à ação; ele pode ser justamente a emoção que aumenta nossas chances de alcançar o fim de escapar da ameaça. Ao recomendar o enfrentamento como resposta aos desafios da vida, a regra pode, por...

Três maneiras de aprender

Há uma conhecida formulação segundo a qual existem três maneiras de adquirir conhecimento: pela reflexão, pela imitação e pela experiência. A reflexão seria o caminho mais nobre; a imitação, o mais fácil; e a experiência, o mais amargo. A distinção é interessante, mas esses caminhos não precisam ser completamente separados. Podemos refletir sobre aquilo que experimentamos e também sobre aquilo que aprendemos imitando outras pessoas. A reflexão não precisa ser um caminho independente dos demais; ela pode acompanhar tanto a experiência quanto a imitação. Imagine alguém aprendendo a cozinhar. Ele pode observar um cozinheiro experiente e simplesmente reproduzir seus movimentos, tempos e quantidades. Nesse caso, está aprendendo por imitação. Mas pode também prestar atenção ao que o cozinheiro faz e tentar compreender por que ele faz daquela maneira. Se fizer isso, sua imitação já estará acompanhada de reflexão. Essa diferença é importante. Quem simplesmente memoriza um procedimento pode ...

Quando a filosofia vira religião

Uma filosofia sobre “o que viemos fazer aqui” e “para onde vamos” começa a se aproximar da religião quando alguém passa a defender que encontrou o caminho e a verdade . A religião pode ser compreendida como a institucionalização de uma linha de pensamento sobre a realidade, especialmente sobre aquilo que ultrapassa a experiência cotidiana. Em geral, ela vem acompanhada da convicção de que essa linha de pensamento corresponde à verdade. Quando essa convicção se torna inquestionável, ocorre uma espécie de pausa da filosofia . Afinal, se já acreditamos ter encontrado as respostas fundamentais sobre a realidade, o que resta investigar? A filosofia, enquanto atividade de investigação, perde espaço quando uma determinada concepção passa a ser tratada como definitiva. Nesse sentido, uma religião pode representar o ponto final de uma determinada linha filosófica. A filosofia deixa de ser utilizada para descobrir o que é verdadeiro e passa a ser utilizada para justificar aquilo que a relig...

O império da subjetividade sobre a realidade

Ao buscar uma base inteiramente firme para o conhecimento, Descartes acabou deslocando o eixo da verdade: o que antes se apoiava no mundo e em sua ordem comum passou a residir no interior da consciência. Em sua tentativa de fundar o saber não mais na tradição, na autoridade ou na revelação divina, mas na própria capacidade humana de pensar, ele desconfiou de tudo o que pudesse ser enganoso (dos sentidos, das crenças, dos mestres) e procurou um ponto inabalável sobre o qual pudesse edificar a ciência. Ao encontrá-lo no “penso, logo existo”, inaugurou uma virada decisiva na história da filosofia: a certeza do pensamento passou a valer mais que a certeza do mundo. Como observa Hannah Arendt, a solução cartesiana para o “pesadelo da dúvida” não foi o retorno à realidade para além dos dogmas, mas o refúgio na consciência. Diante da incerteza sobre o que é externo, Descartes descobriu uma ilha de segurança no próprio ato de duvidar: mesmo que tudo fosse falso, o fato de duvidar era indubitáv...

A importância da dúvida em tempos de certeza

A dúvida cartesiana marcou um ponto de inflexão na história do pensamento ocidental. Ao propor que tudo deveria ser posto em questão até que algo se mostrasse absolutamente indubitável, Descartes abriu o caminho para uma nova forma de rigor intelectual, uma ciência que se pretendia autônoma em relação à religião. No entanto, ao atacar as certezas de maneira tão radical, essa mesma dúvida atingiu também as certezas religiosas, abalando a confiança tradicional no fundamento divino do conhecimento. Neste sentido, a fé moderna passou a ser atravessada pela dúvida, e, a partir dessa dúvida, surgiram novas exigências: (1) a necessidade de tratar as coisas como hipóteses; (2) a diligência de testá-las; e (3) tentar alcançar o sucesso nesses testes, que, em caso de comprovação, coincide com o alcance de verdades (ainda que provisórias). Desse modo, a dúvida, ao invés de paralisar, transforma-se em atitude investigativa; e longe de dissolver o valor da verdade, acabou fundando um novo modo de r...

Como é a estrutura da evolução do saber humano?

Gosto muito da metáfora da árvore que Thomas Kuhn usa para ilustrar a evolução do conhecimento humano. Ela não pretende descrever uma estrutura exata, mas sim destacar que o conhecimento não evolui de forma linear. Em certos casos, teorias antigas (que estariam nas partes mais baixas da árvore) podem ser superiores a teorias mais recentes, situadas em galhos mais altos.  Essa metáfora pode ser expandida. Além de representar a não linearidade da evolução do conhecimento, ela também pode nos ajudar a entender sua estrutura . Nesse sentido, podemos imaginar: As raízes : representam as estruturas cognitivas básicas, cuja função é absorver elementos do mundo exterior para alimentar o pensamento. A seiva : simboliza os raciocínios. São eles que percorrem toda a estrutura da árvore e, quando conduzem a conclusões sólidas, geram crescimento. O tronco : formado por conclusões básicas e autoevidentes; verdades que até os animais não humanos são capazes de perceber, como a existênc...

Por que é mais científico considerar que existem outras dimensões da realidade?

Metafísica pode ser definida, em um sentido amplo, como o estudo da realidade como um todo. A metafísica aristotélica, por exemplo, defende a existência de um mundo suprassensível no qual há inteligências superiores que dão ordem às coisas; ou seja, a realidade como um todo abrange tanto nossa dimensão material quanto, ao menos, outra dimensão. Nesse sentido, aqueles que argumentam que existe apenas o nosso mundo material também estão lidando com a metafísica, embora entendam que a realidade como um todo é composta exclusivamente por esse mundo (e que outras dimensões da realidade, mesmo que feitas de matéria, não existem). Podemos chamar essa visão de micromaterialismo, uma vez que é possível conceber a existência de um mundo superior no qual também haja matéria. Assim, temos duas grandes visões metafísicas da realidade, mas qual delas deve prevalecer? Infelizmente, a ciência, por meio dos estudos publicados, ainda não é capaz de nos ajudar a resolver essa questão. Não temos, até o mo...

Por que fazer sentido não é suficiente para algo ser verdade?

O mundo está em fluxo, mas não em puro fluxo. Não é verdade que nada no homem se preserva quando ele entra no rio pela segunda vez, assim como não é verdade que tudo nele é permanente. Muitas coisas do Flávio de hoje vão se manter no Flávio de amanhã, mas também haverá coisas do Flávio de hoje que deixarão de existir. Algumas das coisas que tendem a permanecer estáveis são os sistemas, os conjuntos de partes que de alguma maneira se organizam em um todo, e as leis que possibilitam essa organização. Se nada drástico acontecer, o Sol vai continuar na distância da Terra que propicia a existência de vida, algo que é possibilitado pela força de atração entre os corpos, a lei da gravidade, que por sua vez permanece. Isso implica que a realidade não é puro caos; existem nela padrões de organização. No plano material, esses padrões são passíveis de identificação a partir da interpretação do que é percebido. Com isso, é possível identificar a presença dos padrões “alimento” e “predador”, por ...

Por que não é verdade que cada um tem sua verdade?

Compreendo que cada pessoa possa atribuir o sentido que quiser às coisas, mas isso não invalida a existência de uma realidade objetiva que pune crenças falsas. Uma pessoa pode se lançar do topo de uma montanha acreditando que vai voar. Mas a realidade respeitará essa crença ou, por ela ser falsa, fará a pessoa cair? Sendo assim, embora cada um possa ter uma perspectiva sobre algo, eu não chamaria sempre essa perspectiva de verdade, pois ela pode ser falsa. Reconheço que existem casos em que cada um captura uma parte da realidade. E aí sim, podemos dizer que cada um tem sua verdade, pois essas perspectivas, embora não coincidam plenamente, podem complementar-se e proporcionar um entendimento mais amplo da questão. Mas isso vale apenas para alguns casos. Em muitos outros, existe, sim, um lado certo e um errado (ou até mesmo todos os lados errados). Sendo assim, defendo que é um erro afirmar que cada um tem sua verdade quando essa afirmação é tomada como válida para qualquer caso, pois, e...

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