Quando a ciência vira religião

Não existe nada mais anti-científico do que afirmar que algo está “mais do que cientificamente comprovado”. A expressão parece transmitir confiança, mas contém uma contradição: se uma conclusão científica já não pode ser questionada, corrigida ou substituída, deixamos de tratá-la como uma conclusão científica e passamos a tratá-la como um dogma.

A ciência não oferece respostas finais. Ela produz explicações sustentadas pelas melhores evidências disponíveis e permanece aberta à revisão quando surgem evidências melhores. Um consenso científico, portanto, não é sinônimo de verdade. É o resultado provisório de um processo pelo qual determinada explicação se torna mais bem sustentada do que suas alternativas. Isso não significa que todos os consensos sejam igualmente frágeis ou que devamos tratar qualquer opinião como equivalente a uma conclusão científica. Significa apenas que consenso e verdade são coisas diferentes.

Esse processo é necessariamente lento. Hipóteses precisam ser formuladas, testadas, criticadas e confrontadas com outras explicações. Resultados precisam ser publicados e avaliados por outros pesquisadores. Algumas conclusões resistem a décadas de investigação; outras são modificadas ou abandonadas. A lentidão é, em parte, o preço que pagamos por um método que pretende corrigir seus próprios erros.

Há ainda um problema adicional: a ciência é produzida por seres humanos. Pesquisadores não estão livres de interesses, competição e busca por reconhecimento. Sistemas de financiamento podem criar incentivos para determinados resultados; revistas podem favorecer descobertas positivas e interessantes; carreiras acadêmicas dependem de publicação, visibilidade e prestígio. Mesmo quando ninguém pretende falsear a realidade, esses incentivos podem influenciar quais perguntas são feitas, quais resultados recebem atenção e como as evidências são interpretadas.

Nada disso significa que a ciência não funcione. Significa que ela funciona por meio de um processo imperfeito de correção de erros. Pesquisadores podem discordar por interesses pessoais, instituições podem criar incentivos inadequados e consensos podem estar errados. Ainda assim, a competição entre explicações, a crítica e o confronto com evidências podem produzir, como resultado, uma compreensão progressivamente melhor da realidade.

O problema começa quando esquecemos justamente aquilo que torna esse processo possível. A ciência não é poderosa porque seus praticantes são infalíveis, mas porque suas afirmações podem ser questionadas. Não precisamos transformá-la em uma religião para confiar nela.

Se queremos certezas absolutas, a ciência provavelmente não é o lugar mais adequado para procurá-las. Ela oferece algo menos confortável, mas intelectualmente mais valioso: razões cada vez melhores para acreditar que estamos certos (e mecanismos para descobrir quando estamos errados).

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.

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