O que são os vícios?

Se as virtudes tornam possível o agir racional, os vícios dificultam esse processo. Assim como as virtudes, eles podem ser compreendidos a partir da relação entre nossas emoções e nossa capacidade de raciocinar sobre elas.

Como vimos no ensaio "O que são as virtudes?", uma virtude moral pode ser entendida como uma habilidade bem desenvolvida de seguir uma autorregra que nos leva a colocar em prática nossas virtudes intelectuais. Quando sentimos uma emoção, essa autorregra nos ajuda a não simplesmente seguir o impulso inicial, mas a avaliar se a orientação oferecida por ele é realmente adequada à situação.

O vício ocorre quando essa capacidade não está suficientemente desenvolvida.

Imagine, por exemplo, alguém que sente medo diante de uma ameaça. Essa pessoa pode simplesmente fugir, sem avaliar se escapar é realmente a melhor opção. Nesse caso, ela está seguindo cegamente a orientação inicial oferecida pelo medo. Outra pessoa pode, ao contrário, não reconhecer uma ameaça que deveria provocar medo e deixar de considerar informações importantes para sua decisão.

Nos dois casos, há uma dificuldade semelhante: a pessoa não consegue utilizar adequadamente o raciocínio para confirmar ou revisar sua primeira avaliação.

Aristóteles identifica dois tipos de vício em relação às virtudes morais: o excesso e a falta. No caso da coragem, por exemplo, a covardia corresponde ao excesso de medo, enquanto a temeridade corresponde à falta de medo diante de situações em que deveríamos senti-lo.

O problema, portanto, não está simplesmente em sentir determinada emoção em maior ou menor intensidade. Está em não conseguir responder racionalmente a ela.

Uma pessoa pode sentir raiva diante de uma crítica e, sem refletir, atacar quem a criticou. Nesse caso, sua emoção determinou diretamente sua ação, sem que ela avaliasse se enfrentar aquela pessoa era realmente o melhor objetivo. Da mesma forma, alguém pode permanecer indiferente diante do sofrimento de um amigo quando, de acordo com aquilo que sabe sobre a situação, deveria reconhecer esse sofrimento e responder a ele.

Podemos, assim, compreender os vícios como deficiências na capacidade de seguir as autorregras que permitem colocar nossas virtudes intelectuais em prática. Eles podem nos levar tanto a seguir cegamente uma emoção quanto a deixar de responder a uma emoção que deveria participar de nosso julgamento.

Isso não significa que uma pessoa que possui um vício seja incapaz de agir racionalmente. Significa apenas que ela ainda não desenvolveu suficientemente a habilidade de fazê-lo em determinadas situações. O vício dificulta o agir racional, mas não o torna impossível.

A partir dessa compreensão, podemos identificar os vícios correspondentes às emoções básicas que nos impulsionam em direção a algo. Para cada uma delas, há um vício relacionado ao excesso e outro relacionado à falta:

Vícios morais básicos de trajetória:

  1. Covardia e temeridade: relacionadas ao medo.

  2. Irascibilidade e passividade: relacionadas à raiva.

  3. Licenciosidade e rigidez: relacionadas ao anseio.

  4. Coração mole e indiferença: relacionadas à compaixão.

  5. Investigação sem critério e fechamento a novidades: relacionadas à curiosidade.

Também podemos identificar vícios relacionados às emoções que surgem da avaliação de um resultado. Nesse caso, temos:

Vícios morais básicos de resultado:

  1. Otimismo irracional: atribuir a si mesmo ou à situação um resultado positivo sem que aquilo que sabemos forneça razões suficientes para isso, ou deixar de reconhecer um resultado negativo.

  2. Pessimismo irracional: atribuir a si mesmo ou à situação um resultado negativo sem que aquilo que sabemos forneça razões suficientes para isso, ou deixar de reconhecer um resultado positivo.

Assim como ocorre com as virtudes, esses vícios não devem ser entendidos simplesmente como comportamentos isolados. Eles são padrões que revelam dificuldades recorrentes em nosso processo de avaliação e decisão.

Reconhecê-los é importante porque nos permite identificar onde nosso agir racional está falhando. Se a virtude é a habilidade bem desenvolvida de utilizar nossas emoções como parte de um processo racional de decisão, o vício é a dificuldade de realizar adequadamente esse processo.

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