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Como tornar a democracia mais democrática?

A democracia representativa resolveu um problema importante: como permitir que milhões de pessoas participem do governo sem que precisem decidir pessoalmente sobre cada questão política. Elegemos representantes para tomar decisões em nosso nome. Mas essa solução cria outro problema: a distância entre aquilo que os cidadãos desejam e aquilo que o Estado efetivamente decide. Escolher os governantes é uma forma importante de participação política, mas não é a única questão relevante. Entre uma eleição e outra, representantes e instituições tomam inúmeras decisões que podem ser profundamente contrárias àquilo que a maioria dos cidadãos considera desejável. Quanto maior essa distância, maior pode ser a percepção de que determinadas regras não pertencem realmente àqueles que precisam obedecê-las. Isso ajuda a compreender um fenômeno como o jeitinho brasileiro. Nem todo jeitinho é uma forma de resistência: muitas vezes ele é simplesmente oportunismo ou uma tentativa de obter uma vantagem pess...

Como a educação pode libertar?

Só existe dominação quando alguém se submete ao dominador. Isso parece óbvio, mas às vezes é difícil enxergar o óbvio. Um conhecido me contou que certa vez foi a uma cidade do interior para dar uma palestra sobre liberdade. Durante a palestra, uma pessoa de baixa renda perguntou: “Mas é possível ser livre?” A pergunta revela um problema mais profundo. Uma pessoa pode se submeter porque desconhece a possibilidade de viver de outra maneira. Se ela acredita que não é possível ter uma vida com liberdade de escolha, continuar obedecendo pode parecer não uma escolha, mas a única alternativa disponível. Na maioria das vezes, porém, a submissão envolve medo. E, em última instância, o medo da morte. Para dominar alguém, pode ser suficiente fazê-lo acreditar que, se deixar de obedecer, não conseguirá sobreviver. É aí que a manipulação da informação se torna uma ferramenta poderosa de dominação. O dominador pode convencer o outro de que ele é incapaz de se virar sozinho, ingênuo demais para tomar...

Podemos obrigar alguém a ser virtuoso?

Meu maior medo é perder a liberdade. Não apenas porque a liberdade permite escolher o que queremos fazer, mas porque ela é uma condição para o desenvolvimento das virtudes. Se não podemos escolher nossas ações, também perdemos a oportunidade de formar nosso caráter por meio delas. Imagine que decidíssemos obrigar pessoas sedentárias a praticar exercícios porque seus hábitos aumentam, em média, os custos do sistema de saúde. A medida poderia produzir um resultado desejável: pessoas mais saudáveis. Mas haveria também uma perda que não aparece nas estatísticas de saúde. Ao retirar dessas pessoas a possibilidade de escolher entre exercitar-se ou não, estaríamos retirando também uma oportunidade de desenvolver a disciplina por meio de uma escolha própria. Isso revela uma diferença entre produzir um comportamento e desenvolver uma virtude. Uma pessoa pode fazer exercícios porque foi obrigada e, ainda assim, não ser disciplinada. Pode agir corretamente porque teme uma punição e não porque rec...

Quando a ciência vira religião

Não existe nada mais anti-científico do que afirmar que algo está “mais do que cientificamente comprovado”. A expressão parece transmitir confiança, mas contém uma contradição: se uma conclusão científica já não pode ser questionada, corrigida ou substituída, deixamos de tratá-la como uma conclusão científica e passamos a tratá-la como um dogma. A ciência não oferece respostas finais. Ela produz explicações sustentadas pelas melhores evidências disponíveis e permanece aberta à revisão quando surgem evidências melhores. Um consenso científico, portanto, não é sinônimo de verdade. É o resultado provisório de um processo pelo qual determinada explicação se torna mais bem sustentada do que suas alternativas. Isso não significa que todos os consensos sejam igualmente frágeis ou que devamos tratar qualquer opinião como equivalente a uma conclusão científica. Significa apenas que consenso e verdade são coisas diferentes. Esse processo é necessariamente lento. Hipóteses precisam ser formuladas...

Uma pessoa pode saber mais do que outra?

Paulo Freire escreveu: “Não existe saber mais, ou saber menos: existem saberes diferentes”. A afirmação pode ser compreendida como o reconhecimento de que pessoas diferentes possuem conhecimentos diferentes. Mas, se ela pretende negar que uma pessoa possa saber mais do que outra sobre uma determinada questão, ela é falsa. Imagine que João acredita que comer fast food diariamente não aumenta seus riscos à saúde e que os filhos devem obedecer aos pais simplesmente por serem mais velhos. Joana, por outro lado, acredita que o consumo frequente de fast food prejudica a saúde e que os filhos devem ser tratados com respeito. Não basta dizer que João e Joana possuem apenas saberes diferentes. Em questões como essas, algumas crenças correspondem melhor aos fatos do que outras. Joana pode, portanto, saber mais do que João sobre esses assuntos. Isso não significa que uma pessoa saiba mais sobre tudo. João pode possuir conhecimentos que Joana não possui, e Joana pode superar João em diversas outra...

Por que as ciências sociais precisam da Psicologia?

A Psicologia está engatinhando, e isso não ocorre porque seja uma ciência recente, mas porque ainda não possui uma compreensão suficientemente sólida da natureza humana. E enquanto a Psicologia estiver engatinhando, as ciências sociais estarão rastejando. Uma ciência do comportamento precisa explicar por que os organismos que estuda possuem determinadas características. No caso humano, isso exige considerar que nossa mente é produto de um processo evolutivo. Nossos mecanismos psicológicos não surgiram ao acaso: foram moldados por pressões que favoreceram determinadas formas de percepção, motivação, emoção e comportamento. Uma explicação psicológica que ignora essa história pode descrever o funcionamento de um mecanismo sem explicar adequadamente por que uma mente humana possui esse mecanismo. Esse problema aparece quando teorias psicológicas são construídas a partir de hipóteses complexas sobre o funcionamento da mente sem que se examine se esses mecanismos são compatíveis com aquilo q...

O que torna uma regra intelectualmente boa?

Uma regra intelectualmente boa deve orientar nosso raciocínio sem determinar aquilo que ainda precisamos decidir. Ela pode chamar nossa atenção para aspectos relevantes de uma situação, mas deve deixar em aberto aquilo que depende de nosso julgamento. Essa distinção ajuda a avaliar as regras propostas em 12 Regras para a Vida , de Jordan Peterson. Considere, por exemplo: “Assuma uma postura de enfrentamento aos desafios da vida”. A regra pode ser útil quando o medo nos leva a evitar uma situação que deveríamos enfrentar. Mas ela também pode limitar o raciocínio ao determinar antecipadamente como devemos responder aos desafios. Nem todo desafio deve ser enfrentado: diante de uma ameaça, por exemplo, escapar pode ser mais adequado do que confrontá-la. O medo, nesse caso, não precisa ser um obstáculo à ação; ele pode ser justamente a emoção que aumenta nossas chances de alcançar o fim de escapar da ameaça. Ao recomendar o enfrentamento como resposta aos desafios da vida, a regra pode, por...

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