Eu prefiro pagar boletos do que voltar a ser criança

Isso pode parecer estranho, especialmente porque é comum ouvirmos que a infância e a adolescência foram as melhores fases da vida. Aristóteles, porém, tinha uma visão bastante diferente. Para ele, uma pessoa muito jovem ainda não estaria em condições de alcançar a felicidade propriamente dita.

A razão é que, para Aristóteles, a felicidade está ligada à prática da virtude, e a criança ainda está desenvolvendo as capacidades necessárias para agir virtuosamente.

Isso não significa que crianças não possam sentir felicidade. Elas também podem tomar boas decisões, orgulhar-se de seus resultados e, consequentemente, experimentar felicidade. A diferença é que, por ainda estarem desenvolvendo suas capacidades, terão menos oportunidades de produzir resultados dos quais possam se orgulhar dessa maneira. Portanto, estamos falando de uma questão de frequência, e não de uma impossibilidade absoluta.

Mas, então, o que é a felicidade?

Como mencionei no ensaio “O que é a felicidade?”, o único prazer que parece atender a todos os requisitos levantados por Aristóteles é aquele que surge quando sentimos orgulho das consequências de nossas ações racionais. É o prazer que experimentamos ao olhar para o passado e nos orgulharmos do que fizemos, seja por consertar um chuveiro, seja por escrever um best-seller.

Esse tipo de prazer é particularmente característico dos seres humanos, pois exige a percepção de que determinado resultado foi fruto de decisões conscientes e racionais. Um pintor, por exemplo, sente orgulho de sua obra porque reconhece que ela é resultado de suas escolhas, como as decisões sobre quais combinações de cores utilizar, baseadas no conhecimento que possui. A obra, nesse sentido, torna-se um reflexo do uso que fez da própria razão.

Se a felicidade é esse tipo de prazer, então ela depende também da nossa capacidade de produzir conscientemente bons resultados. E essa capacidade exige conhecimento e o hábito de agir em conformidade com ele (ou seja, exige o desenvolvimento de virtudes intelectuais e morais).

Isso ajuda a explicar por que a infância não pode ser considerada a melhor fase da vida simplesmente por ser uma fase com menos responsabilidades. A criança ainda está desenvolvendo justamente as capacidades que permitirão a ela produzir, com maior frequência, resultados dos quais poderá se orgulhar no futuro.

Por sinal, o mesmo vale para o adulto ignorante.

Tornar-se biologicamente adulto não significa ter desenvolvido as capacidades necessárias para viver bem. Uma pessoa pode chegar à idade adulta sem adquirir conhecimento suficiente para julgar adequadamente o que deve fazer e, consequentemente, sem desenvolver plenamente as virtudes necessárias para agir bem e, assim, poder se orgulhar com frequência do resultado de suas ações.

Pense, por exemplo, em alguém que vê uma criança se afogando e decide entrar no rio para salvá-la. À primeira vista, sua atitude pode parecer corajosa. Mas suponha que, por ignorar a existência da correnteza, essa pessoa se jogue no rio de maneira imprudente e seja imediatamente arrastada para longe da criança.

Essa pessoa pode ter sido corajosa. Ela percebeu o perigo, lidou adequadamente com o medo e agiu de acordo com aquilo que sabia. O problema é que seu conhecimento era insuficiente para produzir o melhor resultado possível. Se soubesse da existência da correnteza, poderia ter escolhido uma estratégia mais adequada para salvar a criança.

Nesse sentido, a sabedoria é importante porque eleva o nível do nosso agir racional. Podemos agir racionalmente de acordo com aquilo que sabemos e, ainda assim, obter um resultado pior do que obteríamos se tivéssemos um conhecimento mais desenvolvido.

Isso mostra por que a felicidade não depende apenas de querermos fazer o bem. Precisamos também desenvolver as capacidades que nos permitem saber como fazê-lo.

Imagino que as pessoas que idealizam tanto a infância sejam aquelas que ainda precisam desenvolver suas virtudes, pois provavelmente o fazem por não gostarem da vida que construíram como adultos, o que, desconsiderando o fator sorte, seria reflexo de escolhas pouco virtuosas. Nesse sentido, essas pessoas podem olhar para o passado e confundir uma vida com menos responsabilidades com uma vida melhor.

Mas, se a felicidade está em poder olhar para aquilo que fizemos e reconhecer que é fruto do bom uso da nossa razão, então a melhor fase da vida não é necessariamente aquela em que temos menos problemas, mas aquela em que nos tornamos mais capazes de resolvê-los.

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