O que fazer quando o desejo sexual desaparece?

A diminuição ou o desaparecimento do desejo sexual costuma ser interpretado como um dos sinais mais claros de que uma relação amorosa chegou ao fim. Se duas pessoas deixaram de desejar uma à outra, parece natural concluir que aquilo que as unia desapareceu e que a continuidade da relação representa apenas uma recusa em aceitar essa realidade.

Mas essa conclusão pressupõe que o desejo sexual deve permanecer como o principal fundamento de uma relação durante toda a sua existência.

Não há razão para que isso seja necessariamente verdade.

O desejo pode ter sido uma das forças responsáveis pela formação da relação sem precisar continuar ocupando o mesmo lugar décadas depois. Uma parceria amorosa pode acumular, ao longo do tempo, amizade, confiança, lealdade, cuidado, cooperação e uma história compartilhada. A diminuição da atração sexual não elimina automaticamente essas coisas.

Isso não significa que a perda do desejo seja irrelevante. Para algumas pessoas, a sexualidade ocupa um lugar tão importante na relação que sua ausência torna a continuidade do vínculo profundamente insatisfatória. Para outras, o sexo pode perder importância sem que isso destrua aquilo que consideram mais valioso na parceria.

É justamente por isso que a perda do desejo não determina, por si só, o que o casal deve fazer. Tentar recuperar a atração é uma possibilidade, mas não é a única.

Tentar recuperar o desejo sexual, de fato, é um caminho possível. Em muitos casos, isso faz sentido, em especial como primeira opção.

Reconstruir a intimidade, introduzir novidades ou buscar ajuda especializada pode permitir que uma atração que parecia perdida volte a existir. Mas não há garantia de que isso aconteça. Podemos criar condições favoráveis ao desejo, mas não podemos obrigá-lo a aparecer. Quando isso não funciona, o casal precisa enfrentar uma questão mais profunda: o que fazer com uma relação na qual o sexo deixou de ocupar o lugar que ocupava antes?

Há então outras possibilidades.

Uma delas é reduzir a centralidade da sexualidade. Nem todo relacionamento precisa continuar sustentado pela mesma intensidade erótica que existia no começo. O casal pode aceitar que o desejo sexual diminuiu e permitir que a relação passe a se apoiar predominantemente em amizade, companheirismo, cuidado, lealdade, cooperação e história compartilhada.

Isso não significa necessariamente abandonar completamente a sexualidade. O sexo pode continuar existindo, mas ocupar um lugar menor, mais ocasional e menos central na relação. Para algumas pessoas, essa transformação será perfeitamente aceitável. Para outras, será uma forma de convivência que não corresponde ao que esperam de uma parceria amorosa.

Em alguns casos, é possível considerar uma revisão dos acordos da relação. Um casal pode reconhecer que a exclusividade sexual que parecia adequada no início deixou de ser compatível com aquilo que ambos desejam e decidir estabelecer outros limites. Isso pode assumir formas muito diferentes, desde acordos que permitam algum grau de liberdade sexual até relações nas quais terceiros participem da vida sexual do casal. Relacionamentos abertos e a contratação consensual de acompanhantes são exemplos de possibilidades que algumas pessoas podem considerar.

Isso não significa que essas alternativas sejam adequadas para todos. Elas podem produzir ciúme, insegurança, conflitos e sofrimento. O ponto é outro: os acordos que organizam uma relação são construções humanas e podem ser reconsiderados quando as pessoas e suas necessidades mudam.

Em outros casos, a alternativa pode ser terminar a relação. Se a sexualidade é um componente indispensável daquilo que uma pessoa entende por relacionamento amoroso, e se o desejo não pode ser recuperado nem a relação pode ser transformada de uma maneira aceitável para ambos, a separação pode ser a alternativa mais coerente.

Isso não significa que a relação tenha sido um fracasso. Uma relação pode ter sido boa durante muitos anos e, ainda assim, deixar de corresponder ao tipo de vínculo que uma ou ambas as pessoas desejam construir.

Essas possibilidades também não precisam ser definitivas ou mutuamente exclusivas. Um casal pode tentar recuperar o desejo e fracassar. Pode então reconsiderar seus acordos. Pode decidir reduzir a centralidade do sexo. Pode permanecer assim durante anos e, posteriormente, concluir que deseja outra coisa.

Mas cada escolha tem um custo.

Tentar recuperar o desejo pode consumir tempo e energia sem produzir resultado. Refazer os acordos pode introduzir problemas que antes não existiam. Reduzir a importância do sexo pode deixar uma das pessoas frustrada. Terminar uma relação pode significar perder uma amizade, uma história e uma vida construída em comum.

Nenhuma dessas possibilidades é automaticamente correta.

O que importa é saber qual delas melhor corresponde ao tipo de relação que aquelas duas pessoas realmente desejam construir e quais custos estão dispostas a aceitar para isso. Afinal, nossa biologia produz desejos, mas não determina sozinha a forma que nossas relações devem assumir. O desejo sexual pode ter sido aquilo que aproximou duas pessoas, mas não precisa ser aquilo que define para sempre o vínculo entre elas.

Quando ele desaparece, o casal se encontra diante de uma escolha que a biologia não pode fazer em seu lugar.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

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