O caçador de medos

Eu costumo dar meia-volta e encarar meus medos. E, quando faço isso, muitas vezes são eles que parecem fugir de mim.

Foi assim que me tornei um caçador de medos.

Não quero dizer que devemos enfrentar qualquer medo de qualquer maneira. Isso seria apenas imprudência. Um leão continua sendo um leão, e entrar em uma situação realmente perigosa para provar coragem não é coragem. É falta de juízo.

Estou falando daqueles medos que percebemos, racionalmente, serem maiores na nossa cabeça do que na realidade.

Quando percebo um desses, gosto de “pagar para ver”.

Se alguém tem medo de elevador, por exemplo, pode começar entrando nele sem apertar o botão. Depois, apertar o botão e subir apenas um andar. Em seguida, dois. E assim por diante. O importante é avançar gradualmente, sem se obrigar a saltos para os quais ainda não está preparado.

A Psicologia conhece esse princípio há bastante tempo. A dessensibilização sistemática, desenvolvida por Joseph Wolpe, utiliza justamente a exposição gradual a situações que provocam medo, geralmente começando pelas menos ameaçadoras e avançando progressivamente.

A ideia é simples: aproximar-se do que provoca medo sem ignorar os riscos reais, mas também sem obedecer automaticamente àquilo que o medo manda fazer.

E então acontece algo importante: nada acontece.

O elevador não se transforma em uma máquina assassina. O teto não desaba. A pessoa não fica presa para sempre.

Ela sai do elevador e pensa: “Isso não foi tão ruim.”

E, se ainda sente medo de alguma coisa relacionada ao elevador, caça esse medo em específico. Talvez seja ainda o mesmo medo; talvez seja outro. O importante é continuar investigando, gradualmente, aquilo que nos assusta e, então, avaliar se vale a pena enfrentá-lo.

Pouco a pouco, a mente começa a incorporar uma informação que antes não possuía com a mesma força: aquilo que parecia ameaçador não era tão ameaçador assim.

Eu gosto da ideia de ser um caçador de medos porque ela me ajuda a me tornar uma pessoa mais virtuosa. Enquanto enfrento meus medos, pratico a coragem; enquanto descubro que alguns deles eram maiores na minha cabeça do que na realidade, amplio minha sabedoria sobre o mundo e aprendo a distinguir melhor aquilo que realmente merece ser temido daquilo que apenas parece ameaçador.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.

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