Estamos em um mundo cheio de zumbis?
Existe um antigo problema filosófico conhecido como “problema das outras mentes”. Embora tenhamos acesso direto à nossa própria experiência consciente, não temos exatamente o mesmo acesso à experiência consciente das outras pessoas. Sabemos que pensamos porque temos acesso direto aos nossos próprios pensamentos, mas, quando olhamos para outra pessoa, tudo o que temos são seus comportamentos, suas palavras e aquilo que conseguimos inferir a partir deles.
Em princípio, portanto, não podemos ter a mesma certeza de que os outros possuem uma experiência consciente que temos em relação a nós mesmos. Poderíamos, em uma hipótese extrema, estar em um mundo no qual apenas nós tivéssemos consciência e os demais fossem aquilo que os filósofos chamam de “zumbis filosóficos”: seres que se comportam como pessoas conscientes, mas que não possuem qualquer experiência subjetiva.
Não acredito que vivamos em um mundo no qual apenas nós somos conscientes. Mas essa hipótese nos permite perguntar se todos nós somos zumbis em alguma medida. Não porque nos falte experiência consciente, mas porque uma parte de nossa vida é inevitavelmente conduzida de maneira praticamente automática. A diferença é que alguns parecem viver uma parcela maior de sua existência no piloto automático, enquanto outros dedicam uma parcela maior de sua consciência a examinar o que pensam, desejam e fazem.
Ninguém pode supervisionar conscientemente cada movimento da própria vida. Mas podemos diferir muito na frequência com que interrompemos o automatismo para perguntar por que estamos fazendo aquilo e se devemos continuar a fazê-lo. Quanto mais uma pessoa simplesmente responde aos estímulos, hábitos e desejos que surgem nela sem examiná-los, mais sua vida se aproxima da de um zumbi; quanto mais ela supervisiona conscientemente sua linha de ação, mais se distancia dela.
A questão perturbadora, portanto, não é apenas “será que estamos cercados de zumbis?”, mas outra: quanto da nossa própria vida vivemos como se fôssemos um deles?
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