A melhor forma de retaliar é aquela que ensina a cooperar
Grande parte da nossa vida depende da cooperação. Precisamos uns dos outros para obter alimentos, criar filhos, construir conhecimento, trabalhar, estabelecer relações de amizade e realizar praticamente qualquer empreendimento que ultrapasse aquilo que um indivíduo consegue fazer sozinho. O problema é que, sempre que cooperamos, existe a possibilidade de sermos explorados por alguém que recebe os benefícios da cooperação sem oferecer uma contribuição equivalente.
A teoria dos jogos estudou esse problema de maneira particularmente interessante nos chamados jogos de interação repetida. Quando duas pessoas têm a possibilidade de cooperar várias vezes, estratégias que simplesmente cooperam independentemente do comportamento do outro podem ser facilmente exploradas por quem prefere não cooperar. Por outro lado, uma estratégia baseada na reciprocidade pode ser muito mais estável: cooperar inicialmente, continuar cooperando enquanto o outro coopera e responder à não cooperação com alguma forma de retaliação.
Uma das estratégias mais conhecidas nesse contexto é a tit for tat, associada aos trabalhos de Anatol Rapoport e Robert Axelrod. Em sua forma mais simples, ela começa cooperando e, nas rodadas seguintes, reproduz o comportamento adotado pelo outro jogador. Se o outro coopera, coopera-se novamente. Se o outro não coopera, responde-se com não cooperação.
A lógica é bastante intuitiva. Se alguém puder explorar nossa disposição permanente para cooperar sem sofrer nenhuma consequência, terá pouco incentivo para mudar seu comportamento. A possibilidade de retaliação altera essa estrutura de incentivos. A não cooperação deixa de ser vantajosa quando passa a produzir também uma consequência negativa para quem a pratica.
Essa lógica ajuda a compreender por que mecanismos de reciprocidade aparecem em diferentes formas de interação social. Um indivíduo que nunca compartilha seus recursos, por exemplo, pode deixar de receber recursos dos demais. Um indivíduo que sempre exige ajuda, mas nunca ajuda ninguém, pode descobrir que as pessoas deixam de ajudá-lo. Em uma situação mais elementar, alguém que participa de uma caça coletiva, mas tenta receber sua parte sem contribuir para o esforço do grupo, pode ser excluído da distribuição dos benefícios.
Esse último comportamento é próximo do que a teoria econômica chama de free riding: obter os benefícios de um sistema cooperativo sem arcar proporcionalmente com os custos de sua manutenção.
Mas há uma consequência importante dessa maneira de compreender a retaliação: retaliar não precisa significar simplesmente devolver ao outro exatamente aquilo que ele fez conosco.
Se a função da retaliação é preservar a cooperação ou restabelecê-la, então a melhor resposta à não cooperação não é necessariamente aquela que produz no outro o mesmo prejuízo que ele nos causou. É aquela que aumenta as chances de que ele volte a cooperar.
Imagine que um colega deixe repetidamente de cumprir sua parte em um trabalho conjunto. Podemos simplesmente fazer o mesmo com ele na próxima oportunidade. Essa resposta é compreensível e pode até ser uma forma de reciprocidade. Mas ela não necessariamente ensina o outro a cooperar. Ela pode apenas iniciar uma sequência de retaliações em que cada pessoa passa a justificar sua própria falta de cooperação pela falta de cooperação anterior da outra.
Existe uma resposta potencialmente mais inteligente: explicar o problema.
Podemos dizer ao colega que sua falta de contribuição prejudicou o trabalho, explicar por que isso torna a cooperação difícil e deixar claro que não continuaremos assumindo sozinhos uma responsabilidade que deveria ser compartilhada. Nesse caso, estabelecemos uma consequência para a não cooperação, mas também fornecemos ao outro a informação necessária para compreender o que precisa mudar.
A diferença é importante. Afinal, retaliar não significa necessariamente aumentar as chances de cooperação futura, pois a forma como retaliamos pode até produzir o efeito contrário, como quando retaliamos com força excessiva e levamos a outra pessoa a intensificar a retaliação, escalando o conflito. Uma boa retaliação é aquela que, dadas as circunstâncias, aumenta as chances de que o outro volte a cooperar no futuro.
Isso também modifica a maneira como devemos pensar sobre nossos conflitos cotidianos. Quando alguém nos prejudica, é natural surgir o desejo de “dar o troco”. O problema é que esse desejo pode fazer com que confundamos duas coisas diferentes: fazer o outro sofrer e modificar seu comportamento.
Se nosso objetivo é apenas vingança, qualquer resposta que produza sofrimento pode parecer satisfatória. Se nosso objetivo é preservar relações cooperativas, precisamos perguntar qual resposta tem maior probabilidade de produzir uma mudança de comportamento.
Em alguns casos, conversar será suficiente. Em outros, será necessário estabelecer limites mais concretos. Podemos deixar de emprestar dinheiro a alguém que nunca devolve o que pega emprestado, deixar de compartilhar determinados recursos com quem repetidamente se aproveita de nós ou deixar de assumir responsabilidades que deveriam ser divididas. A própria retirada da cooperação pode ser uma forma legítima de retaliação.
E há situações em que a melhor resposta será abandonar definitivamente a relação.
Isso não precisa ser entendido como uma punição no sentido estrito. Se alguém demonstra repetidamente que não deseja ou não consegue estabelecer uma relação minimamente cooperativa, deixar de participar dela pode ser simplesmente uma forma de proteção. Ainda assim, quando houver condições para isso, explicar as razões da ruptura pode ter uma função adicional: oferecer à pessoa informações que poderão ajudá-la a cooperar melhor em relações futuras.
Não temos, evidentemente, controle sobre o que o outro fará com essa informação. Podemos explicar por que determinada conduta prejudica a cooperação e, ainda assim, descobrir que a pessoa não pretende mudar. O objetivo não deve ser acreditar que encontraremos a resposta perfeita capaz de transformar qualquer indivíduo em um bom cooperador.
O que podemos fazer é compreender melhor a lógica da cooperação e utilizá-la para orientar nossas próprias respostas.
Se a retaliação existe para impedir que a não cooperação seja vantajosa, então sua forma mais inteligente não é necessariamente a mais severa. É aquela que melhor preserva a possibilidade de cooperação futura.
Isso muda inclusive a pergunta que fazemos diante de um conflito. Em vez de perguntar apenas “como faço essa pessoa pagar pelo que fez?”, podemos perguntar: “qual resposta aumenta as chances de que essa pessoa coopere comigo daqui para frente?”
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