Nossa biologia contra nossos relacionamentos amorosos

Construir e manter uma parceria amorosa duradoura é uma tarefa particularmente difícil para os seres humanos. Parte dessa dificuldade decorre do fato de que nossa biologia não foi moldada para produzir aquilo que hoje esperamos de um relacionamento: uma parceria estável, exclusiva e sexualmente satisfatória durante décadas. Os mecanismos que favoreceram a formação de vínculos entre homens e mulheres foram selecionados em um contexto em que os problemas reprodutivos eram diferentes dos que enfrentamos atualmente.

As diferenças entre homens e mulheres começam na própria escolha do parceiro. Para uma mulher, a gestação e os anos iniciais de cuidado de sua prole representam um investimento reprodutivo elevado. Durante a gestação, ela se encontra fisicamente mais vulnerável e, depois do nascimento, precisa cuidar da prole, que permanecerá dependente dela durante muitos anos. Em condições ancestrais, isso tornava relevante a escolha de um parceiro capaz de contribuir para a sobrevivência da mulher e de sua prole.

Por isso, características que indicam capacidade de proteção e capacidade de obter recursos tendem a adquirir importância na escolha feminina. No ambiente ancestral, obter recursos significava, entre outras coisas, ser capaz de caçar e trazer alimento. No ambiente contemporâneo, essa capacidade assume outras formas, como uma boa renda. Já a capacidade de proteção permanece relevante ao longo do tempo.

Para os homens, o problema reprodutivo é diferente. O investimento obrigatório na gestação é muito menor, e a capacidade reprodutiva feminina está fortemente relacionada à idade, que, por sua vez, se relaciona a características associadas à beleza física. Por isso, a beleza física tende a exercer importante influência sobre a atração masculina, funcionando, em grande medida, como um indicador de capacidade reprodutiva.

Isso cria uma assimetria importante. A mulher enfrenta maior pressão temporal para escolher um parceiro adequado, enquanto o homem, em termos reprodutivos, dispõe de um período mais extenso para essa escolha. Ao mesmo tempo, os homens competem entre si pela preferência das mulheres que consideram mais desejáveis. Formar um casal é, portanto, uma tarefa extremamente desafiadora para ambos, embora por razões diferentes, sobretudo quando procuramos construir relações que conciliem nossas escolhas conscientes com as disposições que nossa biologia nos legou.

O problema, contudo, não termina quando o casal é formado.

Os mesmos mecanismos que participam da escolha de parceiros não garantem que a atração que levou à formação da relação permaneça inalterada ao longo das décadas. O homem pode deixar de apresentar características que antes indicavam capacidade de proteção e de obtenção de recursos. Doença, perda de renda ou mudanças profundas de comportamento podem alterar a avaliação que uma mulher faz de seu parceiro e, consequentemente, sua atração por ele.

Para o homem, existe outro problema. A atração sexual por uma parceira não permanece necessariamente constante durante toda a duração de uma relação. A idade modifica a fertilidade feminina e, com ela, alguns dos sinais que historicamente estiveram associados à capacidade reprodutiva, como a beleza física. Isso significa que a biologia masculina não fornece nenhuma garantia de que o desejo sexual permanecerá direcionado à mesma pessoa durante toda uma vida.

O conflito se torna especialmente evidente quando a relação já possui muitos anos de existência. O homem pode continuar sentindo desejo sexual por outras mulheres que apresentam características associadas à capacidade reprodutiva, enquanto sua atração sexual pela própria parceira diminui. A mulher, por outro lado, pode continuar sentindo atração por ele enquanto ainda o percebe como alguém capaz de protegê-la e de obter recursos. Nesse caso, a redução da dimensão sexual da relação não ocorre necessariamente dos dois lados ao mesmo tempo. A biologia pode criar, assim, uma situação particularmente difícil: o homem pode deixar de desejar sexualmente a mulher que continua desejando-o.

Isso cria outro problema para a relação. Se a atração sexual masculina diminuir, enquanto a mulher continua vendo no parceiro as características que inicialmente a atraíram, a explicação não pode ser simplesmente que “o casal perdeu a atração”. A perda pode estar distribuída de maneira desigual. E, nesse cenário, a continuidade da relação dependerá cada vez menos daquilo que originalmente uniu o casal e cada vez mais daquilo que os mantém unidos.

É nesse ponto que a amizade adquire uma importância particular.

Nossa capacidade de estabelecer amizades não está limitada a um período específico da vida. Amigos podem permanecer importantes durante décadas porque desempenham funções que vão muito além da reprodução: ajudam-nos a enfrentar dificuldades, oferecem apoio, compartilham experiências e participam da construção de uma vida em comum.

Um relacionamento amoroso pode fazer algo semelhante. Quando a atração sexual diminui, a relação não precisa necessariamente desaparecer com ela. Ela pode adquirir progressivamente características de uma amizade profunda, sem que isso signifique que o vínculo tenha se tornado irrelevante.

Isso exige uma mudança de expectativa. Se esperamos que um relacionamento permaneça sustentado pela mesma intensidade de atração sexual que existia no início, nossa própria biologia pode nos colocar diante de uma frustração difícil de evitar. A atração sexual é uma força poderosa para aproximar pessoas, mas não constitui necessariamente uma base suficiente para sustentar uma relação durante toda a vida.

Nossa razão também não pode simplesmente eliminar aquilo que nossa biologia produz. Não podemos decidir racionalmente deixar de sentir atração por outras pessoas, assim como não podemos ordenar a nós mesmos que continuemos sexualmente atraídos por alguém com a mesma intensidade de décadas atrás. Podemos, porém, decidir como agir diante desses desejos e quais valores queremos colocar acima deles.

Essa distinção é fundamental. A biologia produz desejos; ela não determina integralmente nossas escolhas.

Por isso, a dificuldade de manter uma relação amorosa duradoura não precisa ser compreendida como uma batalha em que devemos derrotar nossa natureza. O desafio consiste em construir uma forma de relacionamento capaz de acomodar aquilo que a biologia produz sem permitir que ela determine sozinha o curso de nossa vida.

Esse é o verdadeiro desafio que nossa biologia coloca para os relacionamentos amorosos: ela possui mecanismos bastante eficientes para nos fazer desejar formar uma parceria, mas não oferece, por si só, uma solução para a manutenção dessa parceria durante toda a vida. Para isso, precisamos de algo que a biologia não entrega pronta: a capacidade de transformar o vínculo.

O desejo sexual pode iniciar uma relação. A amizade, a lealdade, o cuidado, a cooperação e uma história compartilhada podem ser aquilo que permite que ela continue existindo quando o desejo já não ocupa o mesmo lugar.

Nossa biologia pode ser uma das forças que nos une enquanto casal, mas não precisa determinar o fim da relação.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

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