Como alcançar a solitude?
Solitude não é simplesmente a capacidade de ser feliz sozinho. Essa definição confunde a capacidade de estar sozinho com um estado emocional. Uma pessoa pode preferir estar acompanhada e, ainda assim, ser capaz de permanecer sozinha sem vivenciar essa condição como uma ameaça.
A diferença entre solidão e solitude está, nesse sentido, menos na ausência de companhia do que na maneira como a interpretamos. Na solidão, estar sozinho pode ser experimentado como vulnerabilidade: a pessoa sente que precisa de alguém para enfrentar adequadamente os desafios da vida. Na solitude, embora a companhia possa ser desejada, sua ausência não compromete a percepção de que somos capazes de seguir adiante.
Por isso, a solitude está relacionada à autoconfiança. Quando nossa mente aprende que somos capazes de enfrentar dificuldades por conta própria, ficar sozinho deixa de parecer o fim do mundo. Essa aprendizagem não ocorre apenas por meio da reflexão. É preciso experimentar a própria capacidade de lidar com a vida sem a presença constante de alguém que nos ofereça segurança.
É por isso que simplesmente encontrar uma pessoa para eliminar a sensação de solidão pode não resolver o problema. Se recorremos imediatamente à companhia sempre que estar sozinhos se torna angustiante, não damos à nossa mente a oportunidade de aprender que somos capazes de suportar essa condição. Além disso, podemos acabar permanecendo em relações que não escolheríamos livremente apenas porque parecem preferíveis à alternativa de estar sozinhos.
Isso não significa que devamos deixar de desejar companhia. Somos seres sociais e possuímos uma disposição natural para formar vínculos, estabelecer alianças e constituir relações amorosas e familiares. Desenvolver a capacidade de estar sozinho não elimina esses desejos. Apenas impede que sua ausência momentânea seja interpretada como uma impossibilidade de viver bem.
O problema é que nem todos os nossos desejos estão igualmente sob nosso controle. Podemos tomar iniciativas para construir amizades ou relações amorosas, mas a realização desses desejos depende também de outras pessoas e de circunstâncias que não controlamos. No caso das relações amorosas, isso pode ser particularmente difícil, pois encontrar alguém que corresponda aos nossos critérios, desperte nosso interesse e seja igualmente interessado em nós envolve uma combinação de fatores que não podemos determinar. E, para alguém que atribui grande importância à formação de uma família, a ausência dessa possibilidade pode continuar sendo dolorosa mesmo depois de desenvolver autonomia.
A solitude, portanto, não exige que eliminemos o desejo por aquilo que não temos, nem a dor que pode acompanhar a ausência de sua satisfação. Exige que esse desejo deixe de ser a condição para que possamos continuar vivendo e realizando outros projetos que consideramos valiosos.
Temos muitos desejos, e eles nem sempre podem ser satisfeitos simultaneamente. Podemos reconhecer que determinada ausência nos causa sofrimento e, ainda assim, escolher dedicar nossa energia a outras coisas que consideramos importantes. Um projeto intelectual, uma profissão, uma obra ou qualquer outro propósito que reconheçamos como valioso pode ocupar o primeiro plano da vida, enquanto aquilo que ainda desejamos permanece em segundo plano.
Alcançar a solitude não significa, portanto, aprender a não precisar de ninguém. Significa aprender que podemos desejar profundamente a companhia de alguém sem precisar dela para reconhecer nossa própria capacidade de enfrentar a vida.
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