Por que sentimos raiva quando algumas pessoas se vangloriam?
Não somos necessariamente avessos à hierarquia. Em particular, tendemos a aceitar de bom grado uma hierarquia de prestígio, na qual algumas pessoas ocupam posições superiores porque reconhecemos nelas conhecimentos ou habilidades que consideramos valiosos.
Isso acontece, por exemplo, quando admiramos um atleta por seu desempenho, um cientista por seu conhecimento ou um músico por sua habilidade. Uma pessoa pode adquirir prestígio ao demonstrar aquilo que é capaz de fazer e, inclusive, ao contar aos outros sobre seus próprios feitos.
Esse tipo de hierarquia não beneficia apenas quem ocupa uma posição elevada. Também beneficia o grupo. Ao reconhecer que determinada pessoa possui conhecimentos ou habilidades superiores em uma área, os demais passam a ter uma indicação de quem vale a pena observar, ouvir ou procurar quando precisam adquirir determinado conhecimento ou habilidade.
Por isso, não apenas toleramos o prestígio como frequentemente o estimulamos. Elogiamos pessoas que se destacam, contamos seus feitos aos outros e prestamos atenção àquilo que elas têm a dizer. A existência de diferenças de prestígio pode, nesse sentido, cumprir uma função importante na organização dos grupos humanos.
O problema é que não reagimos da mesma maneira a toda forma de vanglória.
Podemos, por exemplo, aceitar que um jogador como Romário fale abertamente sobre sua própria superioridade no futebol. Seus feitos oferecem uma justificativa relativamente clara para esse reconhecimento. Mas imagine alguém que passasse a falar de si exatamente da mesma maneira sem apresentar realizações que sustentassem essas afirmações. Nossa reação provavelmente seria bastante diferente.
Por que isso acontece?
A vanglória está relacionada à própria natureza competitiva do status. Se o prestígio é um recurso valorizado dentro de um grupo, as pessoas não apenas reconhecem diferenças de status: elas também possuem algum interesse em ocupar posições elevadas nessa hierarquia.
Isso significa que existe uma dimensão competitiva na busca por prestígio. Quando alguém reivindica para si uma posição elevada sem que reconheçamos razões suficientes para isso, sua atitude pode ser interpretada como uma tentativa de elevar seu próprio status.
Mas isso ainda não nos levaria necessariamente a sentir raiva. Um músico que se vangloria de ser o melhor violinista do mundo dificilmente ameaça nosso status se não buscamos prestígio nessa área. A reação tende a ser diferente quando alguém reivindica superioridade justamente em um domínio no qual também buscamos reconhecimento. É nesse segundo caso que a reivindicação de superioridade pode ser percebida como uma ameaça à nossa própria posição e provocar raiva.
A raiva, nesse caso, cumpre uma função: ela nos prepara para agir diante daquilo que percebemos como uma ameaça à nossa posição na hierarquia. Por isso, quando alguém se vangloria de maneira que consideramos injustificada justamente em uma área na qual também buscamos reconhecimento, podemos nos sentir motivados a diminuir seu status e, com isso, contradizê-lo, ridicularizá-lo ou mostrar aos outros que ele não é tão competente quanto afirma ser.
Isso não significa que nossa avaliação esteja sempre correta. Podemos subestimar as capacidades de alguém ou interpretar equivocadamente sua atitude como uma ameaça. Ainda assim, a estrutura da reação permanece compreensível: aceitamos e até estimulamos o prestígio quando percebemos que ele corresponde a capacidades reais; mas quando alguém reivindica esse prestígio sem que reconheçamos razões suficientes para isso, justamente em uma área na qual também buscamos reconhecimento, podemos perceber sua atitude como uma ameaça ao nosso próprio lugar na hierarquia e reagir com raiva.
Assim, a mesma disposição que nos leva a admirar quem se destaca pode ajudar a explicar nossa antipatia por quem, em uma área na qual também buscamos reconhecimento, parece querer ocupar uma posição de prestígio que, aos nossos olhos, não merece conquistar.
Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.
O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.
Comentários
Postar um comentário