O problema não é desejar muito, mas desejar coisas que não valem a pena

Existem filosofias que defendem que o desejo humano é um mal a ser combatido, pois nossos desejos tenderiam ao infinito e, por isso, seriam fontes constantes de insaciabilidade e sofrimento. A solução, nessa perspectiva, seria reduzir progressivamente os desejos até alcançar um estado de tranquilidade no qual dependeríamos cada vez menos daquilo que está fora de nosso controle.

Essa concepção, contudo, parte de uma premissa que merece ser questionada. O problema não está simplesmente em desejar, mas em desejar mal.

Não podemos simplesmente retirar da nossa mente a faculdade de desejar. O desejo faz parte da nossa constituição e desempenha uma função fundamental em nossa vida. É por meio dele que somos orientados para aquilo que consideramos valioso e que encontramos motivação para agir. Tentar eliminar o desejo seria, em alguma medida, tentar eliminar uma das características que nos tornam humanos.

E se, por um lado, as filosofias que nos ensinam que o desejo é um mal para nós muitas vezes reconhecem que a mente humana pode nos levar a desejar múltiplas coisas (e com razão, pois, em comparação com os outros animais, somos capazes de teorizar sobre aquilo que desejamos), por outro, elas parecem esquecer que somos capazes de supervisionar nossos próprios desejos.  Nesse sentido, podemos desejar intensamente algo que, depois de uma avaliação mais cuidadosa, descobrimos não valer a pena.

Afinal, nem todos os desejos são bons ou bons para o momento, e não devemos procurar satisfazer todos eles. Podemos desejar coisas que nos prejudicam, que são incompatíveis entre si ou que não contribuem para uma vida boa.

É justamente nesse ponto que o desenvolvimento das virtudes se torna importante.

Uma pessoa que desenvolveu suficientemente suas virtudes não precisa deixar de desejar para diminuir seu sofrimento. Ela aprendeu a desejar melhor. As virtudes intelectuais permitem a ela compreender quais fins são realmente valiosos e quais meios são mais adequados para alcançá-los, enquanto as virtudes morais permitem a ela agir de acordo com esse conhecimento, mesmo quando outros desejos competem por sua atenção.

Isso nos permite compreender que essa pessoa não vai ficar em um estado quase constante de insatisfação. Quanto melhor compreendemos o que vale a pena desejar e quanto mais desenvolvemos a capacidade de agir de acordo com esse conhecimento, maiores tendem a ser nossas chances de escolher fins adequados e encontrar meios eficazes para realizá-los. Nesse sentido, o desenvolvimento das virtudes pode tornar a satisfação de nossos desejos mais frequente.

Assim, uma pessoa virtuosa não é alguém que possui menos desejos simplesmente por ter aprendido a reprimi-los. É alguém que consegue organizar seus desejos de acordo com aquilo que compreende ser realmente bom e que pode ser realizado.

O problema, portanto, não é a existência de desejos, mas a relação que estabelecemos com eles.

Além disso, a afirmação de que nossos desejos tendem ao infinito parece exagerar a multiplicidade dos desejos particulares e ignorar a unidade que pode existir por trás deles. Podemos desejar dinheiro, conhecimento, amizade, reconhecimento, saúde, segurança ou inúmeras outras coisas. Mas esses desejos não precisam constituir uma sequência infinita de fins independentes. Muitos deles são desejados porque acreditamos que contribuirão para aquilo que consideramos uma vida boa.

É nesse sentido que a concepção aristotélica da felicidade oferece uma alternativa interessante. Embora desejemos inúmeras coisas particulares, a vida humana pode ser compreendida como orientada para um fim mais abrangente: a felicidade. Os diferentes objetos de nossos desejos podem ocupar lugares distintos dentro dessa busca mais ampla.

Uma pessoa pode desejar dinheiro porque acredita que ele permitirá realizar determinados projetos. Pode desejar saúde porque ela lhe permitirá permanecer ativa e realizar aquilo que considera importante. Pode desejar amizades porque entende que uma vida boa inclui relações com outras pessoas. Nesses casos, os desejos particulares não são necessariamente fins isolados que exigem satisfação infinita, mas elementos de uma concepção mais ampla de vida feliz.

A virtude, portanto, não precisa ser entendida como uma guerra contra o desejo. Ela pode ser compreendida como aquilo que permite ao ser humano colocar seus desejos sob a orientação da razão.

E o objetivo de uma vida feliz não é chegar a um estado em que já não desejamos nada. É desenvolver a capacidade de desejar aquilo que vale a pena desejar, abandonar aquilo que descobrimos não valer a pena e agir racionalmente para alcançar aquilo que realmente importa.

Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.

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