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Nossa biologia contra nossos relacionamentos amorosos

Construir e manter uma parceria amorosa duradoura é uma tarefa particularmente difícil para os seres humanos. Parte dessa dificuldade decorre do fato de que nossa biologia não foi moldada para produzir aquilo que hoje esperamos de um relacionamento: uma parceria estável, exclusiva e sexualmente satisfatória durante décadas. Os mecanismos que favoreceram a formação de vínculos entre homens e mulheres foram selecionados em um contexto em que os problemas reprodutivos eram diferentes dos que enfrentamos atualmente. As diferenças entre homens e mulheres começam na própria escolha do parceiro. Para uma mulher, a gestação e os anos iniciais de cuidado de sua prole representam um investimento reprodutivo elevado. Durante a gestação, ela se encontra fisicamente mais vulnerável e, depois do nascimento, precisa cuidar da prole , que permanecerá dependente dela durante muitos anos. Em condições ancestrais, isso tornava relevante a escolha de um parceiro capaz de contribuir para a sobrevivência da...

O caçador de medos

Eu costumo dar meia-volta e encarar meus medos. E, quando faço isso, muitas vezes são eles que parecem fugir de mim. Foi assim que me tornei um caçador de medos. Não quero dizer que devemos enfrentar qualquer medo de qualquer maneira. Isso seria apenas imprudência. Um leão continua sendo um leão, e entrar em uma situação realmente perigosa para provar coragem não é coragem. É falta de juízo. Estou falando daqueles medos que percebemos, racionalmente, serem maiores na nossa cabeça do que na realidade. Quando percebo um desses, gosto de “pagar para ver”. Se alguém tem medo de elevador, por exemplo, pode começar entrando nele sem apertar o botão. Depois, apertar o botão e subir apenas um andar. Em seguida, dois. E assim por diante. O importante é avançar gradualmente, sem se obrigar a saltos para os quais ainda não está preparado. A Psicologia conhece esse princípio há bastante tempo. A dessensibilização sistemática, desenvolvida por Joseph Wolpe, utiliza justamente a exposição gradual a ...

Por que algumas pessoas parecem mais bonitas de máscara?

Você já reparou que algumas pessoas parecem mais bonitas quando estão usando uma máscara que cobre parte do rosto? Isso parece estranho. Afinal, se estamos vendo menos do rosto, deveríamos ter menos informações para avaliar sua aparência. Mas existe uma razão para que a parte que não vemos possa, paradoxalmente, contribuir para uma impressão mais favorável. Nossa percepção não funciona como uma fotografia que simplesmente registra aquilo que está diante dos olhos. Ela procura organizar o que percebemos em configurações dotadas de unidade e regularidade. É o que podemos observar, por exemplo, nos conhecidos fenômenos estudados pela Gestalt: diante de elementos incompletos, tendemos a perceber uma figura organizada em vez de um conjunto desconexo de partes. Essa tendência pode fazer com que a ordem percebida em uma parte seja estendida ao conjunto. Imagine um rosto em que a região dos olhos, das sobrancelhas e da testa apresenta uma aparência bastante harmoniosa, enquanto a parte inf...

Qual é a diferença entre persuasão e manipulação?

Persuadir alguém significa tentar mudar aquilo que essa pessoa pensa. Manipular também pode envolver uma tentativa de mudar suas opiniões. Se ambas procuram influenciar o que alguém pensa ou faz, qual é a diferença entre elas? A diferença não está simplesmente no fato de uma comunicação tentar produzir uma mudança de opinião. Argumentar é uma forma de influência, e não há nada de errado nisso. Quando apresentamos razões para convencer alguém, estamos justamente tentando fazer com que essa pessoa veja uma questão de outra maneira. O problema aparece quando a influência deixa de depender da capacidade da pessoa de avaliar as razões apresentadas. Imagine alguém que queira convencê-lo de que determinada política é boa. Ele pode apresentar seus argumentos, mostrar as evidências que considera relevantes e responder às objeções. Você pode analisar tudo isso e mudar de opinião. Nesse caso, houve persuasão: a mudança ocorreu por meio de um processo no qual você pôde exercer seu próprio julgamen...

Três maneiras de aprender

Há uma conhecida passagem atribuída a Confúcio segundo a qual existem três maneiras de adquirir conhecimento: pela reflexão, pela imitação e pela experiência. A reflexão seria o caminho mais nobre; a imitação, o mais fácil; e a experiência, o mais amargo. A distinção é interessante, mas esses caminhos não precisam ser completamente separados. Podemos refletir sobre aquilo que experimentamos e também sobre aquilo que aprendemos imitando outras pessoas. A reflexão não precisa ser um caminho independente dos demais; ela pode acompanhar tanto a experiência quanto a imitação. Imagine alguém aprendendo a cozinhar. Ele pode observar um cozinheiro experiente e simplesmente reproduzir seus movimentos, tempos e quantidades. Nesse caso, está aprendendo por imitação. Mas pode também prestar atenção ao que o cozinheiro faz e tentar compreender por que ele faz daquela maneira. Se fizer isso, sua imitação já estará acompanhada de reflexão. Essa diferença é importante. Quem simplesmente memoriza um...

Quando a filosofia vira religião

Uma filosofia sobre “o que viemos fazer aqui” e “para onde vamos” começa a se aproximar da religião quando alguém passa a defender que encontrou o caminho e a verdade . A religião pode ser compreendida como a institucionalização de uma linha de pensamento sobre a realidade, especialmente sobre aquilo que ultrapassa a experiência cotidiana. Em geral, ela vem acompanhada da convicção de que essa linha de pensamento corresponde à verdade. Quando essa convicção se torna inquestionável, ocorre uma espécie de pausa da filosofia . Afinal, se já acreditamos ter encontrado as respostas fundamentais sobre a realidade, o que resta investigar? A filosofia, enquanto atividade de investigação, perde espaço quando uma determinada concepção passa a ser tratada como definitiva. Nesse sentido, uma religião pode representar o ponto final de uma determinada linha filosófica. A filosofia deixa de ser utilizada para descobrir o que é verdadeiro e passa a ser utilizada para justificar aquilo que a relig...

O problema não é desejar muito, mas desejar coisas que não valem a pena

Existem filosofias que defendem que o desejo humano é um mal a ser combatido, pois nossos desejos tenderiam ao infinito e, por isso, seriam fontes constantes de insaciabilidade e sofrimento. A solução, nessa perspectiva, seria reduzir progressivamente os desejos até alcançar um estado de tranquilidade no qual dependeríamos cada vez menos daquilo que está fora de nosso controle. Essa concepção, contudo, parte de uma premissa que merece ser questionada. O problema não está simplesmente em desejar, mas em desejar mal. Não podemos simplesmente retirar da nossa mente a faculdade de desejar. O desejo faz parte da nossa constituição e desempenha uma função fundamental em nossa vida. É por meio dele que somos orientados para aquilo que consideramos valioso e que encontramos motivação para agir. Tentar eliminar o desejo seria, em alguma medida, tentar eliminar uma das características que nos tornam humanos. E se, por um lado, as filosofias que nos ensinam que o desejo é um mal para nós muitas v...

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