Quanto mais coerente uma teoria, mais próxima da verdade?

Quando uma teoria consegue explicar muitos fatos sem entrar em contradição, nossa confiança nela tende a aumentar. Quanto mais elementos parecem se encaixar, mais difícil parece acreditar que tudo aquilo esteja errado.

Mas uma teoria mais coerente não está necessariamente mais próxima da verdade.

Imagine que dez pessoas afirmem ter visto uma árvore no mesmo lugar. Se cada uma chegou ali de maneira independente e observou a árvore, a concordância entre os relatos aumenta bastante nossa confiança de que ela existe.

Agora imagine que apenas a primeira pessoa tenha visto a suposta árvore. As outras nove simplesmente repetiram o que ouviram dela. Continuamos tendo dez relatos perfeitamente coerentes entre si, mas não dez evidências da existência da árvore. Temos apenas uma evidência sendo reproduzida dez vezes.

O mesmo problema pode ocorrer com sistemas de ideias.

Podemos partir de uma premissa falsa e construir sobre ela uma enorme quantidade de crenças compatíveis entre si. Cada nova crença pode apoiar outras, formando um sistema cada vez maior e mais coerente. Nada disso transforma a premissa original em verdade.

Uma obra de ficção oferece um exemplo extremo. Podemos criar um universo com milhares de personagens, acontecimentos, lugares e regras que se encaixam perfeitamente. Quanto mais desenvolvemos esse universo, mais elementos passam a confirmar outros elementos do próprio universo. Sua crescente coerência, contudo, não faz com que ele passe a descrever o mundo real.

A coerência, portanto, não possui valor simplesmente por acumular relações entre crenças. Seu valor depende também de como essas crenças foram formadas.

Na dimensão da percepção, temos boas razões para confiar, em condições normais, naquilo que percebemos. Nossa capacidade de identificar objetos e acontecimentos no ambiente foi continuamente submetida à seleção natural. Um organismo que sistematicamente confundisse alimento com algo inútil ou predadores com objetos inofensivos teria menores chances de sobreviver e deixar descendentes. Isso não torna nossa percepção infalível, mas ajuda a explicar sua razoável confiabilidade.

Quando entramos no campo das teorias, a situação se torna mais complicada. Uma conclusão pode depender de várias outras crenças, que dependem de outras, até formar uma enorme rede. Nesse caso, precisamos distinguir o apoio que vem de diferentes contatos com a realidade daquele que resulta apenas da circulação de informações dentro do próprio sistema.

Voltemos às dez pessoas diante da árvore. Dez observações independentes possuem mais valor do que dez relatos derivados de uma única observação porque existem diferentes fontes de informação convergindo para a mesma conclusão. Se uma delas estiver errada, ainda precisamos explicar por que as outras chegaram independentemente ao mesmo resultado.

Algo semelhante ocorre com teorias. Quando diferentes observações, métodos e linhas de investigação relativamente independentes apontam para a mesma explicação, a convergência entre elas aumenta nossa confiança. Não porque a coerência produza verdade, mas porque se torna progressivamente mais difícil explicar essa convergência caso a teoria esteja completamente equivocada.

Mesmo assim, não obtemos certeza. Todo o nosso sistema cognitivo poderia estar sendo enganado. Poderíamos, em princípio, viver em uma espécie de Matrix na qual nossas experiências formassem um sistema perfeitamente coerente sem corresponder à realidade que imaginamos existir. Não temos como observar o mundo de fora de qualquer experiência possível para eliminar definitivamente essa hipótese.

Isso não torna todas as crenças igualmente duvidosas. Podemos avaliar a confiabilidade dos nossos mecanismos de percepção, comparar fontes de informação e procurar convergências que não dependam umas das outras.

Por isso, perguntar apenas quanto uma teoria é coerente pode nos levar ao erro. Precisamos perguntar também de onde vem essa coerência.

Mil crenças derivadas da mesma falsidade podem formar um sistema impressionante e continuar sendo mil crenças falsas. Diferentes fontes razoavelmente confiáveis e independentes que convergem para uma mesma explicação oferecem algo muito mais valioso.

Quanto mais coerente uma teoria, portanto, não necessariamente mais próxima da verdade ela está. O que importa é se sua coerência resulta apenas das relações entre nossas ideias ou também da convergência de diferentes formas de contato com a realidade.

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