Duas cabeças pensam melhor do que uma?
Costuma-se dizer que duas cabeças pensam melhor do que uma. Mas acrescentar uma pessoa a uma decisão não garante que ela se torne melhor. Para que isso aconteça, a segunda pessoa precisa ser capaz de contribuir de alguma maneira para a solução do problema.
Essa contribuição não precisa consistir em maior inteligência ou conhecimento especializado. Uma pessoa pode possuir uma informação que as outras desconhecem, identificar um erro, conhecer melhor uma parte do problema ou apresentar uma perspectiva que ainda não havia sido considerada. O ganho está naquilo que cada participante acrescenta ao processo de decisão.
O antropólogo Edwin Hutchins encontrou um exemplo interessante desse fenômeno ao estudar a navegação de um navio militar. As manobras complexas do navio não eram resultado do raciocínio de um único indivíduo. A tarefa era realizada pela coordenação entre diferentes membros da tripulação, suas funções e instrumentos como mapas, pontos de referência e sistemas de comunicação. A unidade responsável pelo processamento das informações era, em certo sentido, o sistema como um todo.
O fato de a inteligência poder ser distribuída, contudo, não significa que qualquer grupo tomará decisões melhores do que qualquer indivíduo. Uma pessoa completamente desinformada pode não acrescentar nada a determinado problema. Um participante incapaz de compreender os argumentos apresentados pode até dificultar a decisão. Da mesma forma, reunir vários especialistas que possuem exatamente os mesmos conhecimentos e perspectivas pode acrescentar menos do que incluir alguém com uma informação diferente e relevante.
A qualidade de uma decisão coletiva depende, portanto, tanto das capacidades de seus participantes quanto da maneira como suas contribuições se complementam e são coordenadas.
Essa conclusão tem uma consequência importante. Se queremos melhorar decisões coletivas, não basta aperfeiçoar os procedimentos pelos quais diferentes opiniões são reunidas. Também podemos melhorar as capacidades das pessoas que participam dessas decisões: sua capacidade de compreender informações, avaliar argumentos, identificar erros, considerar outras perspectivas e revisar suas próprias posições.
Duas cabeças podem pensar melhor do que uma. Mas a vantagem não está simplesmente em haver duas cabeças. Está no que cada uma delas é capaz de acrescentar ao pensamento da outra.
Gostou desta reflexão? No Ensaios de um Polímata, minhas ideias são reunidas e organizadas em uma sequência didática para formar uma visão mais ampla sobre a mente humana, a sociedade e grandes questões da filosofia.
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