Por que saber o que acontece não significa saber por que acontece?

Imagine duas bolas sobre uma mesa. A primeira se move, atinge a segunda e, logo depois, a segunda começa a se mover. Depois de observar situações semelhantes várias vezes, podemos aprender que o choque de uma bola contra outra pode colocá-la em movimento.

Para aprender essa relação, não precisamos compreender por que isso acontece. Uma criança pode antecipar o movimento da segunda bola sem conhecer qualquer teoria física. Outros animais também são capazes de identificar objetos, distinguir categorias e aprender relações simples entre acontecimentos.

Existe, portanto, uma diferença entre identificar o que acontece e explicar por que acontece.

Grande parte da nossa relação com o ambiente depende da primeira capacidade. Reconhecemos alimentos, animais, pessoas e objetos. Também aprendemos regularidades: determinados sons anunciam determinados acontecimentos, certas ações produzem certos resultados e algumas situações costumam ser seguidas por outras.

Essas capacidades possuem uma longa história evolutiva. Um organismo que sistematicamente confundisse alimento com objetos sem valor nutritivo, predadores com animais inofensivos ou situações perigosas com situações seguras teria menores chances de sobreviver e deixar descendentes. A interação contínua com o ambiente funciona, assim, como uma forma de correção dos sistemas responsáveis por identificar aspectos relevantes da realidade.

Algo semelhante pode ocorrer com relações causais simples. Um animal não precisa conhecer as propriedades físicas de um objeto para aprender que empurrá-lo produz determinado efeito. Basta que consiga identificar uma relação suficientemente estável entre sua ação e aquilo que acontece em seguida.

Uma explicação exige algo diferente.

Voltemos às duas bolas. Podemos observar que a primeira atingiu a segunda e que a segunda se moveu. Mas, se afirmamos que a segunda se moveu porque a primeira possuía força suficiente para deslocá-la, já introduzimos elementos que pretendem explicar a sequência observada.

Passamos de uma estrutura como:

A aconteceu e foi seguido por B.

Para outra:

B aconteceu porque C.

O problema é que diferentes explicações podem ser compatíveis com aquilo que observamos. Podemos identificar corretamente uma regularidade e, ainda assim, estar errados sobre aquilo que a produz.

Isso aconteceu inúmeras vezes na história humana. Uma prática pode produzir consistentemente determinado resultado e as pessoas podem reconhecer essa relação muito antes de compreenderem corretamente seu mecanismo. O sucesso em identificar o fenômeno não garante o sucesso em explicá-lo.

Há uma razão evolutiva para que essa diferença seja esperada. Para sobreviver, um organismo precisa responder adequadamente a aspectos relevantes do ambiente. Se determinado alimento o nutre, é importante que consiga identificá-lo. Se determinado animal representa perigo, é importante que consiga reconhecê-lo e reagir. Se determinada ação permite alcançar alimento, basta aprender a relação entre a ação e seu resultado.

Em muitos casos, compreender por que essas relações existem não é necessário.

Um animal pode aprender que determinada fruta o alimenta sem conhecer seu conteúdo nutricional. Pode aprender que uma pedra cai quando é empurrada de determinada superfície sem conhecer a gravidade. Pode evitar um animal venenoso sem compreender o mecanismo bioquímico do veneno.

A adequação do comportamento depende da identificação correta de certas características e regularidades do ambiente, mas não necessariamente de uma explicação correta delas.

Isso cria uma assimetria importante. Nossos mecanismos de percepção e de aprendizagem de regularidades foram continuamente confrontados com suas consequências no ambiente. Explicações podem permanecer erradas durante muito mais tempo, especialmente quando permitem as mesmas previsões ou comportamentos que uma explicação verdadeira permitiria.

Podemos, portanto, acertar o que acontece e errar por que acontece.

Essa distinção também ajuda a compreender uma das dificuldades da ciência. Observar repetidamente que A é seguido por B não basta para demonstrar qualquer explicação que consiga acomodar essa relação. É necessário encontrar maneiras de distinguir explicações concorrentes.

Se duas teorias explicam igualmente bem os fatos já conhecidos, repetir esses mesmos fatos pouco ajuda a decidir entre elas. Precisamos procurar situações em que as teorias produzam expectativas diferentes e verificar qual delas corresponde melhor ao que observamos.

Nesse sentido, uma boa investigação não procura apenas fatos compatíveis com uma explicação. Procura evidências capazes de discriminá-la de outras explicações possíveis.

Isso também mostra por que uma explicação não herda automaticamente a confiabilidade das observações que consegue explicar. Podemos estar muito seguros de que determinado fenômeno ocorre e muito menos seguros sobre o mecanismo responsável por ele.

A distinção é importante porque temos uma forte tendência a passar de uma coisa para a outra sem perceber. Quando encontramos uma explicação que organiza adequadamente aquilo que observamos, a sensação de compreensão pode fazer com que sua verdade pareça tão evidente quanto os próprios fatos que ela pretende explicar.

Mas são conquistas epistemológicas diferentes.

Saber que algo acontece exige identificar adequadamente algum aspecto ou regularidade do mundo. Saber por que acontece exige, além disso, identificar corretamente aquilo que produz ou explica essa regularidade.

Podemos ter excelentes razões para confiar na primeira conclusão e razões muito mais fracas para confiar na segunda.

Por isso, descobrir um padrão é uma conquista importante, mas não encerra a investigação. Muitas vezes, é justamente quando sabemos com segurança o que acontece que começa a pergunta mais difícil: por que acontece?

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