Por que é ruim ser cético?

Hoje em dia, é considerado “bonito” dizer que é cético, como se o ceticismo fosse a virtude oposta ao vício do excesso de acreditar cegamente nas coisas.

No entanto, o cético raiz, isto é, o cético pirrônico, não apenas duvida de determinadas afirmações: ele procura suspender o juízo diante delas. Segundo Martha Nussbaum, o problema identificado pelo ceticismo não seria simplesmente a falsidade de determinadas crenças, mas o próprio compromisso cognitivo com aquilo que acreditamos. A suspensão do juízo, por sua vez, teria como objetivo alcançar a ataraxia, isto é, uma condição de tranquilidade e ausência de perturbação.

O problema dessa posição aparece quando consideramos que nem toda crença parece ser prejudicial. Se acredito que um leão pode me matar, por exemplo, essa crença pode produzir medo, mas também pode me levar a evitar o animal e aumentar minhas chances de sobrevivência. Da mesma forma, uma crença otimista, quando adequadamente fundamentada, pode orientar ações que aumentem nossas possibilidades de alcançar um resultado desejável. Nesse sentido, não é evidente que o compromisso com uma crença seja, em si mesmo, um mal.

Há ainda uma dificuldade adicional. Se a recomendação é abandonar todo compromisso com crenças, precisamos perguntar qual é o estatuto da própria recomendação. O pirronismo de Sexto Empírico possui uma resposta sofisticada para essa objeção: o cético afirma que suas próprias formulações não são apresentadas como verdades às quais ele adere, mas como relatos daquilo que lhe aparece. Ainda assim, permanece uma questão filosófica interessante: até que ponto é possível viver, investigar e agir sem algum tipo de compromisso cognitivo com aquilo que acreditamos ser verdadeiro?

Por isso, em vez de simplesmente rejeitar crenças, talvez seja mais útil cultivar uma virtude da dúvida investigativa: não descartar prontamente algo como falso, mas manter uma atitude crítica diante daquilo que acreditamos e, quando possível, investigar se nossas crenças são verdadeiras.

Pensata:

“O cético é aquele que duvida, mas não investiga.”

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