Por que não é verdade que quem liga para a beleza é fútil?
Sou adepto do método socrático de esclarecer o significado das ideias, pois isso evita que as pessoas discordem de algo com o qual, na verdade, já concordam (ou até mesmo acabem defendendo o contrário).
O que é ser fútil? Em sentido comum, fútil é quem atribui importância excessiva a aspectos superficiais da vida. Podemos aprofundar essa definição dizendo que a futilidade envolve uma hierarquia de valores mal ordenada, na qual elementos menos importantes ocupam posições superiores às que deveriam ocupar.
Nesse sentido, uma pessoa fútil tende a valorizar bens como dinheiro e beleza física acima de virtudes morais e intelectuais, como coragem, sabedoria ou prudência. Isso não significa que ela ignore completamente essas virtudes; significa apenas que lhes atribui um peso menor em sua escala de valores.
O problema do senso comum é que ele frequentemente não afirma “quem coloca a beleza física acima de tudo é fútil”, mas simplesmente “quem se importa com beleza física é fútil”. É essa conclusão que me parece equivocada.
Se aceitássemos essa tese, acabaríamos considerando Sócrates um homem fútil. Nos diálogos platônicos, ele demonstra admiração por Alcibíades não apenas por sua beleza, mas também por sua inteligência e potencial humano. Sócrates claramente reconhecia o valor da beleza física, embora tudo indique que atribuísse valor ainda maior à beleza da alma e das ideias.
Além disso, valorizar a beleza em suas diferentes manifestações pode ter um aspecto positivo. A beleza costuma estar associada à harmonia, proporção e ordem, características que frequentemente indicam bom funcionamento. No caso do corpo humano, a beleza física pode funcionar, em muitos contextos, como um sinal aproximado de saúde e vitalidade.
Também me parece plausível que a apreciação da harmonia estética favoreça uma sensibilidade mais ampla à ordem e à coerência, inclusive no plano intelectual. Nesse sentido, não é surpreendente que alguém profundamente interessado na beleza das ideias também tenda a apreciar a beleza física.
Isso não significa que o senso comum esteja totalmente errado. Ele capta uma verdade importante: muitas pessoas realmente colocam a beleza física em uma posição excessivamente elevada em sua hierarquia de valores.
No entanto, nem todos se encaixam nessa média. Portanto, se rotulamos como fúteis todas as pessoas que demonstram valorizar a beleza física, podemos estar sendo injustos com aquelas que, embora valorizem a beleza, colocam virtudes morais e intelectuais acima dela.
Pensatas:
“A beleza da alma caminha de mãos dadas com a beleza física, pois, quanto mais nossa alma evolui e se aproxima da perfeição, mais queremos e nos esforçamos para que nosso físico a reflita.”
“Não vou deixar para trás a iniciativa de Vinícius de Moraes. Por isso, resgato a coragem de sua fala original para afirmar que também acho a beleza fundamental, mas como norma, em qualquer de suas formas, desde o belo na matéria até o belo na ideia.”
Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.
O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.
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