Por que as pessoas querem se manter em sua zona de conforto?
Para responder a essa pergunta, podemos tomar como ponto de partida um estudo realizado por Wood-Gush, Jensen e Algers, publicado em 1990. Nesse estudo, os pesquisadores buscaram analisar o comportamento de um pequeno grupo de porcos domésticos que foram soltos em uma área de floresta.
Durante o experimento, os pesquisadores notaram que, nos primeiros dias, os porcos se espalharam amplamente por diferentes seções da área, mas, após algum tempo, restringiram sua movimentação a regiões específicas, que continham recursos necessários para a sobrevivência. Ou seja, a partir de um determinado momento, os porcos passaram a se restringir à sua zona de conforto.
Meu argumento, então, é que, quando impulsivamente evitamos explorar o mundo e nos mantemos na zona de conforto, estamos, no fundo, tentando nos manter próximos de coisas que acreditamos serem essenciais para a nossa sobrevivência.
Note que usei a palavra "impulsivamente". Ou seja, o problema de se manter na zona de conforto é recusar oportunidades de exploração sem raciocinar sobre elas, sem avaliar se realmente valem a pena.
Afinal, existem zonas de conforto melhores do que outras, e a única forma de descobrir isso é por meio da exploração. O problema é que explorar de maneira totalmente aleatória não permite que usufruamos das zonas de conforto que descobrimos. É sobre esse dilema que quero falar.
Quando estamos dentro de uma zona de conforto, usufruindo dela, em uma rotina que nos exime de nos preocupar com coisas básicas, como segurança e alimento, podemos usar nossos recursos cognitivos para atividades produtivas, inclusive as que podem contribuir para um bem maior.
Mas, claro, permanecer apenas na zona de conforto nos impede de ter novas experiências e crescer com elas. Justamente por isso, explorar também é fundamental, pois permite ampliar nosso horizonte de conhecimento, desenvolver novas habilidades e conquistar novas coisas.
Essas novas conquistas representam uma nova zona de conforto. Ou seja, as explorações passadas nos levam a novas zonas de conforto. O problema é que não há garantia de que a nova zona de conforto será melhor que a antiga. Um novo relacionamento pode ou não ser melhor que um antigo, por exemplo. O mesmo vale para um novo emprego.
O grande dilema deriva do fato de que nosso tempo no mundo é finito e linear. Ou seja, só podemos fazer uma coisa de cada vez. Quando estamos explorando, não estamos usufruindo do que já conquistamos. Além disso, existem vários cenários em que a decisão de explorar implica a perda do acesso à zona de conforto atual, como ocorre em relacionamentos e empregos.
Esse é, talvez, o dilema fundamental da humanidade, expresso na contradição dos ditados populares: "Mais vale um pássaro na mão do que dois voando" e "Quem não arrisca, não petisca." O que é melhor, afinal? Manter o pássaro que está na mão ou arriscar para petiscar?
A sugestão que posso oferecer para lidar com esse dilema é estar atento aos excessos. Os dois modos de atuação (usufruir e explorar) são simultaneamente essenciais para uma vida de qualidade. Quando o dilema surgir, vale raciocinar com profundidade sobre quando explorar pode valer a pena e quando permanecer na zona de conforto é mais indicado.
Além disso, embora explorações aleatórias possam cumprir um papel relevante, na maioria das vezes é importante ter clareza sobre o que se pretende obter com uma exploração e sobre aquilo a que se renuncia ao decidir explorar.
E isso não é tarefa fácil, pois nem sempre dá para estimar as probabilidades de sucesso de uma eventual exploração e as recompensas futuras de novas zonas de conforto que podem ser usufruídas; sem falar no risco de subestimar a qualidade da zona de conforto atual, como expresso no ditado popular segundo o qual a grama do vizinho é sempre mais verde.
Pensatas:
“Minha zona de conforto é o movimento, visando sempre o melhor.”
“Quando a gente precisa fazer esforço para se manter em uma zona de conforto, é porque já passou da hora de ir embora.”
Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.
O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.
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