Postagens

Eu prefiro pagar boletos do que voltar a ser criança

Isso pode parecer estranho, especialmente porque é comum ouvirmos que a infância e a adolescência foram as melhores fases da vida. Aristóteles, porém, tinha uma visão bastante diferente. Para ele, uma pessoa muito jovem ainda não estaria em condições de alcançar a felicidade propriamente dita. A razão é que, para Aristóteles, a felicidade está ligada à prática da virtude, e a criança ainda está desenvolvendo as capacidades necessárias para agir virtuosamente. Isso não significa que crianças não possam sentir felicidade. Elas também podem tomar boas decisões, orgulhar-se de seus resultados e, consequentemente, experimentar felicidade. A diferença é que, por ainda estarem desenvolvendo suas capacidades, terão menos oportunidades de produzir resultados dos quais possam se orgulhar dessa maneira. Portanto, estamos falando de uma questão de frequência, e não de uma impossibilidade absoluta. Mas, então, o que é a felicidade? Como mencionei no ensaio “O que é a felicidade?”, o único prazer qu...

Como seria um governo dos sábios?

Platão imaginou que o melhor governo seria aquele exercido pelos sábios. A ideia parece estranha à democracia moderna: se todos os cidadãos são politicamente iguais, por que alguns deveriam ter mais poder do que outros? Mas a oposição entre governo dos sábios e democracia é menos necessária do que parece. Uma democracia pode, em vez de abandonar o ideal de igualdade, procurar incorporar a competência como um de seus próprios princípios. Uma das questões levantadas por Jason Brennan ao discutir a epistocracia é justamente a relação entre poder político e conhecimento. Um sistema epistocrático seria aquele que distribui o poder político de acordo com conhecimento ou competência, em vez de distribuí-lo necessariamente de maneira igual. Entre suas possibilidades estão sistemas que exigem uma qualificação mínima para votar e sistemas nos quais cidadãos podem adquirir votos adicionais mediante determinadas qualificações. A proposta pode parecer antidemocrática, mas isso depende de como enten...

Estamos em um mundo cheio de zumbis?

Existe um antigo problema filosófico conhecido como “problema das outras mentes”. Embora tenhamos acesso direto à nossa própria experiência consciente, não temos exatamente o mesmo acesso à experiência consciente das outras pessoas. Sabemos que pensamos porque temos acesso direto aos nossos próprios pensamentos, mas, quando olhamos para outra pessoa, tudo o que temos são seus comportamentos, suas palavras e aquilo que conseguimos inferir a partir deles. Em princípio, portanto, não podemos ter a mesma certeza de que os outros possuem uma experiência consciente que temos em relação a nós mesmos. Poderíamos, em uma hipótese extrema, estar em um mundo no qual apenas nós tivéssemos consciência e os demais fossem aquilo que os filósofos chamam de “zumbis filosóficos”: seres que se comportam como pessoas conscientes, mas que não possuem qualquer experiência subjetiva. Não acredito que vivamos em um mundo no qual apenas nós somos conscientes. Mas essa hipótese nos permite perguntar se todos nó...

Por que a vida é mais difícil para algumas pessoas?

Às vezes, parece que a vida é mais gentil com algumas pessoas do que com outras. Há quem atravesse os anos sem enfrentar grandes obstáculos, enquanto outras parecem encontrar continuamente novas dificuldades. Será que existe algo metafísico por detrás disso? Em alguns casos, talvez não. Há, por exemplo, quem decida evoluir continuamente suas capacidades e, com isso, encontre novos desafios justamente porque, ao superar um obstáculo, torna-se capaz de enfrentar outros, escolhendo enfrentá-los e, então, eventualmente, superá-los. Assim, quando olha para trás, pode ter a impressão de que sua vida foi especialmente difícil, mas as dificuldades foram, digamos assim, buscadas pela própria pessoa. O que me intriga é quando tentamos deliberadamente levar uma vida pacata, mas, repetidamente, acontecimentos nos obrigam a sair dela. É como se, em um jogo, o personagem pudesse explorar o mapa, realizar missões secundárias e permanecer indefinidamente em uma região tranquila, mas algo eventualmente...

Por que precisamos dormir?

A pergunta parece simples, mas se torna intrigante quando analisada sob uma perspectiva evolucionista. Dormir nos deixa temporariamente menos atentos ao ambiente, reduz nossa capacidade de reagir a ameaças e nos impede de realizar atividades que poderiam contribuir para nossa sobrevivência e reprodução. Então surge uma questão curiosa: por que, ao longo de milhões de anos de evolução, não surgiu uma adaptação que permitisse a algum animal simplesmente não precisar dormir? Imagine a vantagem. Um animal que não precisasse dormir poderia continuar procurando alimento enquanto os outros estivessem dormindo, explorar o ambiente, procurar parceiros e permanecer atento aos predadores. Em princípio, pareceria ter uma enorme vantagem competitiva. Mas, até onde sabemos, isso não aconteceu. Ao contrário, o sono, ou estados semelhantes ao sono, é amplamente encontrado no reino animal, embora sua duração e sua forma variem bastante entre as espécies. Há animais que conseguem dormir com apenas parte...

O homem precisa amar a mulher mais do que a mulher precisa amar o homem?

Essa pergunta pode parecer absurda à primeira vista. Afinal, se duas pessoas decidem estabelecer uma parceria para a vida, parece razoável esperar que ambas estejam igualmente interessadas em promover o bem uma da outra. Mas, para clarificar essa questão, entendo ser necessário distinguir a intensidade do amor da forma de expressão do amor. Em termos evolucionistas, homens e mulheres enfrentaram problemas parcialmente diferentes ao longo de sua história evolutiva. A mulher assumia diretamente os custos da gestação, do parto e dos primeiros cuidados com os filhos. O homem, por sua vez, podia aumentar as chances de sobrevivência da mulher e dos filhos por meio da proteção e da provisão de recursos, inclusive assumindo riscos que poderiam comprometer a própria vida. Isso pode ajudar a explicar algumas diferenças nas preferências por parceiros. Para o homem, características físicas relacionadas à saúde e à capacidade reprodutiva da mulher poderiam ter adquirido especial importância. A bele...

O ser humano e o problema do bem comum

Nossa experiência cotidiana já oferece um excelente ponto de partida para pensar o problema do bem comum. Mesmo em pequena escala, como no interior das famílias, é comum observarmos louças acumuladas, ambientes desorganizados e tarefas compartilhadas realizadas apenas por alguns membros. Enquanto poucos se esforçam para manter a ordem, outros simplesmente usufruem dela. Esse fenômeno revela algo importante: cuidar do que é comum não parece ser uma tendência automática do ser humano. Em praticamente toda convivência coletiva surgem indivíduos que contribuem pouco ou nada para a manutenção da ordem comum e preferem usufruir do esforço alheio. É natural, portanto, que existam exploradores (os chamados free riders ) e teorias políticas que desconsideram essa realidade tendem a se tornar utópicas. A percepção de que o que é de todos tende a receber menos cuidado não é nova. Aristóteles já observava que aquilo que pertence ao maior número costuma receber o menor zelo. Séculos depois, pensado...

Postagens mais visitadas deste blog

Quais são os pontos fortes e fracos do estoicismo?

O que é um bom ser humano?

Como é a estrutura da evolução do saber humano?