Postagens

Como alcançar a solitude?

Solitude não é simplesmente a capacidade de ser feliz sozinho. Essa definição confunde a capacidade de estar sozinho com um estado emocional. Uma pessoa pode preferir estar acompanhada e, ainda assim, ser capaz de permanecer sozinha sem vivenciar essa condição como uma ameaça. A diferença entre solidão e solitude está, nesse sentido, menos na ausência de companhia do que na maneira como a interpretamos. Na solidão, estar sozinho pode ser experimentado como vulnerabilidade: a pessoa sente que precisa de alguém para enfrentar adequadamente os desafios da vida. Na solitude, embora a companhia possa ser desejada, sua ausência não compromete a percepção de que somos capazes de seguir adiante. Por isso, a solitude está relacionada à autoconfiança. Quando nossa mente aprende que somos capazes de enfrentar dificuldades por conta própria, ficar sozinho deixa de parecer o fim do mundo. Essa aprendizagem não ocorre apenas por meio da reflexão. É preciso experimentar a própria capacidade de lidar ...

Como ligar menos para o que os outros pensam?

Não é possível (e provavelmente nem desejável) deixar de se importar completamente com o que os outros pensam. Somos seres sociais, e a maneira como somos avaliados pelos demais pode produzir consequências reais para nossa vida. O problema surge quando atribuímos ao julgamento alheio uma importância maior do que ele realmente possui. Uma pessoa pode, por exemplo, deixar de publicar um vídeo, expressar uma opinião ou se expor de alguma outra maneira porque teme ser julgada negativamente. Ao evitar a situação, porém, ela também deixa de descobrir se aquilo que teme realmente possui a gravidade que imagina. É por isso que uma das maneiras mais eficazes de passar a se importar menos com o julgamento dos outros é expor-se progressivamente a ele. Isso não significa fazer qualquer coisa sem considerar suas consequências. Não há razão para agir de maneira irresponsável ou prejudicar outras pessoas apenas para demonstrar que não nos importamos com suas opiniões. Trata-se, antes, de deixar de ev...

Por que sentimos raiva quando algumas pessoas se vangloriam?

Não somos necessariamente avessos à hierarquia. Em particular, tendemos a aceitar de bom grado uma hierarquia de prestígio, na qual algumas pessoas ocupam posições superiores porque reconhecemos nelas conhecimentos ou habilidades que consideramos valiosos. Isso acontece, por exemplo, quando admiramos um atleta por seu desempenho, um cientista por seu conhecimento ou um músico por sua habilidade. Uma pessoa pode adquirir prestígio ao demonstrar aquilo que é capaz de fazer e, inclusive, ao contar aos outros sobre seus próprios feitos. Esse tipo de hierarquia não beneficia apenas quem ocupa uma posição elevada. Também beneficia o grupo. Ao reconhecer que determinada pessoa possui conhecimentos ou habilidades superiores em uma área, os demais passam a ter uma indicação de quem vale a pena observar, ouvir ou procurar quando precisam adquirir determinado conhecimento ou habilidade. Por isso, não apenas toleramos o prestígio como frequentemente o estimulamos. Elogiamos pessoas que se destacam...

O que é arrogância?

Existem pessoas melhores do que outras em diferentes dimensões da vida. Algumas são mais inteligentes, outras mais corajosas, mais disciplinadas ou mais generosas. Se considerarmos a média de determinadas qualidades, também é possível que uma pessoa seja, de maneira geral, superior a outra. Isso é semelhante ao que ocorre em alguns jogos de videogame, nos quais um personagem recebe uma classificação geral com base na combinação de diferentes atributos. Um jogador pode ter uma classificação geral superior à de outro e, ainda assim, ser inferior a ele em uma característica específica. Reconhecer isso não é necessariamente arrogância. Uma pessoa pode perceber honestamente que possui determinadas capacidades desenvolvidas em um grau maior do que a maioria das pessoas sem, por isso, acreditar que vale mais como ser humano ou que é superior em todos os aspectos. A arrogância começa quando essa percepção deixa de ser limitada. O arrogante não apenas acredita ser melhor do que algumas pessoas ...

Por que muitas pessoas acham a filosofia inútil?

No senso comum, filosofar costuma ser associado a devaneios, abstrações distantes da realidade ou discussões que não produzem resultados concretos. Essa percepção se estabeleceu, em parte, porque muitas pessoas não entendem bem o que a filosofia é e, sobretudo, o que ela pode produzir (algo que constitui justamente um dos principais critérios pelos quais julgamos algo útil ou inútil). A filosofia não precisa produzir diretamente um medicamento, um aplicativo ou uma máquina para produzir efeitos importantes. Uma de suas funções é antecipar possibilidades teóricas. O filósofo pode formular hipóteses e construir sistemas explicativos sobre questões que a ciência ainda não consegue investigar empiricamente. Quando essas hipóteses podem ser testadas, elas entram no domínio da investigação científica e podem ser confirmadas, modificadas ou abandonadas. Ainda no domínio do avanço do conhecimento científico, outra função da filosofia é sistematizar conhecimentos que já possuímos. Os dados empí...

O que fazer para sermos menos preconceituosos?

Minha sugestão é que, para nos tornarmos menos preconceituosos, precisamos deixar de nos apegar imediatamente às nossas opiniões prévias e desenvolver o hábito de refletir com maior profundidade sobre elas. Esse processo pode ser compreendido em três etapas. A primeira é reconhecer a existência do preconceito e compreender sua função. Nossos mecanismos de categorização e avaliação rápida não surgiram por acaso. Em condições ancestrais, identificar rapidamente aquilo que poderia representar uma ameaça ou uma oportunidade tinha valor adaptativo. O problema é que esses mecanismos continuam operando em ambientes muito diferentes daqueles em que foram selecionados. Eles podem nos levar a categorizar pessoas e situações de maneira precipitada, utilizando poucas informações e produzindo avaliações que não correspondem adequadamente à realidade. Por isso, o primeiro passo para sermos menos preconceituosos é perceber que nossas primeiras avaliações não são necessariamente confiáveis. Não precis...

O que fazer quando o desejo sexual desaparece?

A diminuição ou o desaparecimento do desejo sexual costuma ser interpretado como um dos sinais mais claros de que uma relação amorosa chegou ao fim. Se duas pessoas deixaram de desejar uma à outra, parece natural concluir que aquilo que as unia desapareceu e que a continuidade da relação representa apenas uma recusa em aceitar essa realidade. Mas essa conclusão pressupõe que o desejo sexual deve permanecer como o principal fundamento de uma relação durante toda a sua existência. Não há razão para que isso seja necessariamente verdade. O desejo pode ter sido uma das forças responsáveis pela formação da relação sem precisar continuar ocupando o mesmo lugar décadas depois. Uma parceria amorosa pode acumular, ao longo do tempo, amizade, confiança, lealdade, cuidado, cooperação e uma história compartilhada. A diminuição da atração sexual não elimina automaticamente essas coisas. Isso não significa que a perda do desejo seja irrelevante. Para algumas pessoas, a sexualidade ocupa um lugar tão...

Postagens mais visitadas deste blog

Quais são os pontos fortes e fracos do estoicismo?

O que é um bom ser humano?

Como é a estrutura da evolução do saber humano?