O preço de uma autenticidade madura
Existe uma forma de autenticidade muito mais difícil do que simplesmente “ser você mesmo”. Ela não consiste em seguir impulsos, gostos pessoais ou opiniões espontâneas. Consiste em conservar a capacidade de julgar criticamente as práticas dos grupos aos quais sentimos pertencer.
Muitas pessoas imaginam apenas duas atitudes possíveis diante de uma comunidade, tradição ou, até mesmo, subcultura. A primeira é o conformismo: aceitar crenças, costumes e práticas porque são compartilhados pelos nossos pares. A segunda é o cinismo: observar todas as tradições com desconfiança e concluir que nenhuma merece ser valorizada. Embora pareçam opostas, ambas têm algo em comum. O conformista entrega seu julgamento ao grupo; o cínico abandona a esperança de que o julgamento possa melhorar alguma coisa.
A autenticidade madura ocupa um terceiro lugar. Ela permite pertencer sem obedecer cegamente.
O filósofo Alasdair MacIntyre criticou a tendência moderna de abandonar ideais elevados sob o argumento de que são irrealizáveis. Saber que a perfeição provavelmente nunca será alcançada não torna absurda a tentativa de aproximar-se dela. Um ideal pode funcionar como horizonte: algo que orienta nossos esforços mesmo sem se converter em realidade perfeita.
Essa ideia tem uma consequência desconfortável. Se a sociedade ideal não existe, nenhuma comunidade humana pode satisfazer plenamente alguém que leva a sério a busca do melhor. O mesmo vale para famílias, igrejas, universidades, movimentos políticos, círculos intelectuais e comunidades de amigos.
Por isso, a pessoa autenticamente madura experimenta um incômodo peculiar: ela percebe falhas justamente no ambiente ao qual mais se sente ligada.
Mas esse incômodo não é sinal de traição; pode ser sinal de lealdade. Quem valoriza uma tradição deseja vê-la melhorar. Quem valoriza uma comunidade não precisa aprovar tudo o que ela faz. A crítica feita a partir do pertencimento é diferente da crítica feita a partir do ressentimento. O ressentido critica para se separar; o pertencente crítico critica para aperfeiçoar.
Talvez seja por isso que uma pessoa com elevada autenticidade nunca esteja totalmente “em casa” em sociedade alguma. Não porque despreze a sociedade, mas porque percebe possibilidades de aperfeiçoamento em qualquer ordem existente.
No fundo, o preço da autenticidade é aceitar uma solidão parcial. A pessoa autenticamente madura raramente encontra um lugar onde concorde com tudo. Sempre haverá práticas que considera equivocadas, hábitos que julga imaturos e crenças que lhe parecem insuficientemente examinadas. Ela pertence, mas não se dissolve no pertencimento.
Se você tem interesse em discutir questões como essa com mais profundidade, mantenho um espaço (Salão Filosófico) onde esse tipo de análise é levado adiante em grupo.
O Salão Filosófico acontece de forma pontual, com encontros online voltados ao debate sério de ideias.
Um dos melhores textos que li recentemente porque ajudou a perceber uma postura adequada para eu me portar num grupo religioso que estou envolvido no momento para ter experiências de desenvolvimento pessoal, no caso meu envolvimento pra dedicações na igreja messiânica mundial do Brasil. Tenho tido oportunidades de ouro de praticar ensinamentos e virtudes através da roupagem da estrutura deles porém sempre me sinto incomodado com a ideia de me diluir nela, porque existe uma tendência deles cobrarem um alinhamento que quebra minha identidade particular que pretendo preservar.
ResponderExcluirComo já passei por conflitos em grupos espirituais antes, sei do quão e necessário aplicar uma forma saudável de participar dessas esferas sem se perder tanto dentro quanto fora delas, seja no momento de estar integrado ou afastado, pq no final das contas ao meu ver o propósito final é ambos os lados saírem ganhando com a interação gerando bons frutos a sociedade através dessa equalização. Parabéns pelo texto F. Osmo.