Quando o outro vira inimigo, a convivência acaba
Existe uma mudança silenciosa acontecendo.
O outro deixou de ser alguém com quem se discorda, e passou a ser alguém a ser derrotado.
E quando isso acontece, a convivência deixa de ser o objetivo.
Uma das formas mais claras dessa mudança aparece na ideia de que a sociedade é, no fundo, uma divisão entre opressores e oprimidos. Não como uma ferramenta de análise entre outras, mas como uma lente total: tudo é interpretado a partir disso. E se alguém é visto como parte do lado “opressor”, sua posição deixa de ser apenas errada, ela se torna ilegítima.
A partir daí, o passo seguinte não é diálogo.
É superação.
Nem todo mundo que usa essa linguagem leva isso até o fim. Tem muita gente bem-intencionada repetindo essas ideias sem perceber onde elas chegam. Mas há também quem leve a sério: quem realmente acredita que certos grupos, ideias ou estruturas precisam ser removidos para que a justiça exista.
E aqui está o ponto que muita gente ainda não quer encarar: não existe convivência possível com quem te enxerga como algo a ser eliminado.
Diante disso, surge a reação mais comum: dobrar a aposta na tolerância. Insistir na convivência, abrir espaço, incluir todo mundo (como se isso, por si só, resolvesse o problema).
Mas não resolve.
Quando a tolerância é aplicada sem critério, ela deixa de ser uma virtude e passa a ser uma recusa em reconhecer o conflito. Em vez de proteger a convivência, ela passa a proteger justamente quem não acredita nela.
Porque, no fim, tolerância só funciona quando há algo mínimo em comum: o reconhecimento de que o outro tem o direito de existir, discordar e permanecer.
Quando isso desaparece, a pergunta deixa de ser como conviver.
E passa a ser se ainda existe convivência possível.
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